NUMA BARQUINHA EM QUE os níveis de ruído voltavam, pouco e pouco, a subir, soou um zumbido.
— Análise à criatura concluída — traduziu o tradutor automático.
E?..., pensou Serra, cada vez mais preocupado com o prolongamento da inconsciência do alienígena, ou melhor, com o atraso na implementação de um tratamento, e também com a peculiar tendência que o tradutor tinha adquirido ultimamente de tratar o hoog por “criatura”. De certeza que um instrumento médico hoog não iria ser insultuoso ao ponto de se referir aos seus criadores como “criaturas”... ou seria? Que sabia ele da psicologia hoog para além de ter aflorado uma camada quase invisível da superfície, quase exclusivamente dedicada às questões diplomáticas? Como podia ter certeza de que o tratamento de “criatura” era inadequado numa situação íntima como o contacto próximo entre um doente e o seu sintetizador?
Serra deixava-se entrar de vez em quando nestes círculos de raciocínio relativos ao extraterrestre. Claro que nunca chegava a conclusão nenhuma: limitava-se a removê-los para os recôncavos profundos do cérebro, chamando-os de vez em quando à superfície a fim de, dizia, recordar-se com humildade da sua imensa ignorância.
Não que isso evitasse que a sua reputação fosse, quer nos meios científicos, quer nos políticos e diplomáticos, a de ser um sacana arrogante e quase insuportavelmente egocêntrico. Uma reputação sólida, quase à prova de bala, e absolutamente à prova de “modéstias”.
Um zumbido. Uma pausa. O tradutor estrangulou um som pegajoso. Outro zumbido. O tradutor traduziu:
— Dados avaliados. Anfitrite, formosa como as flores / neste caso não quis que falecesse. A criatura está apenas em coma de elevação. Para proceder ao tratamento, prima um; Para deixar para mais tarde, prima zero; Para mais explicações, prima a tecla cardinal; Para voltar ao menu, prima asterisco.
“Para mais explicações, prima a tecla cardinal”?! Onde raio era a tecla cardinal? Ou o asterisco?
Em todo o caso, aquele “apenas” era promissor. Assinalava um estado pouco grave, desvalorizava o problema, facilitava a solução, desanuviava o futuro do hoog, de Serra e do próprio planeta Terra.
Mas seria que se podia confiar em tal “apenas”? Afinal de contas, que sabia ele da psicologia de...
Argh! Não! Pensamentos circulares outra vez, não!
Serra debruçou-se sobre o sintetizador, que continuava colado ao corpo do extraterrestre. Àquela distância, o cheiro era incomodativo, e o Chefe de Protocolo torceu o nariz enquanto chamava:
— Joanina!
Examinou cuidadosamente o dispositivo. Cardinais, ali, não havia, nem sequer se encontrava nada que se assemelhasse remotamente a um símbolo composto por duas barras horizontais e duas barras verticais. Seria uma analogia? Devia ser e, se fosse, a Grandelasca devia saber...
Serra olhou para um lado e depois para o outro. Não se via a Grandelasca em lado nenhum. Nem ninguém, aliás: Serra estava sozinho naquela zona da barquinha, cercado por um círculo compacto de caras ansiosas, a alguns metros de distância. Nem Grandelasca, nem estafeta, nem assessores do presidente, ninguém. Até mesmo o presidente tinha desaparecido, talvez abandonando a imagem de intrepidez e assumindo uma cobardia igual à dos demais, ou talvez de regresso ao compromisso oficial de observar, com o fair play possível, o seu retorno ao anonimato político.
— Joanina! — chamou Serra mais alto, pondo-se em pé, tentando espreitar por sobre as cabeças da multidão, tentando fazer-se ouvir através do burburinho que voltara a níveis ensurdecedores, mesmo sem os epítetos da comitiva presidencial. Esta estava agora muito silenciosa, mas por outro lado também estava muito reduzida. Bastavam as aclamações da comitiva do Meneres, já gigantesca, ocupando, à vontade, dois terços do espaço disponível na barquinha, para que nada mais se ouvisse a curta distância.
Era preciso berrar.
— Joanina! — berrou Serra e, finalmente, uma comoção na multidão mostrou sinais de que alguém tentava furar até ao espaço vazio. Era a Grandelasca que se aproximava, trazendo a tiracolo um estafeta em cuja cara o medo se revelava em brancura, que seria cadavérica se não fosse amenizada por linhas multicoloridas de muco já seco.
— Desculpe, doutor. Tive uma pequena necessidade. — justificou-se a Grandelasca quando chegou ao pé do Chefe de Protocolo, que a olhava com ar severo.
— Com ele? — provocou Serra, atirando o queixo na direcção do estafeta.
— Desculpe?!...
— Deixa lá isso. Temos de trabalhar. O tradutor automático disse-me para “premir a tecla cardinal” do sintetizador. Fazes alguma ideia de onde fica essa tecla?
A técnica, a tremer ligeiramente, passou a mão pelo cabelo e fechou os olhos, como se estivesse a tentar concentrar-se. Ou a tentar acalmar-se. Depois olhou para o ET e para os dois aparelhos.
— Que foi que o tradutor disse, exactamente?
— Que os dados tinham sido avaliados, que o hoog está em coma de elevação, seja lá isso o que for, e para premir cardinal para mais informação, asterisco para voltar ao menu, um para deixar para mais tarde e zero para proceder ao trata... — Serra coçou o queixo, embaraçado — hum... ou seria ao contrário?
— Não percebo nada. O aparelho não tem teclas numeradas... pelo menos segundo os manuais operacionais que o seu gabinete me entregou...
— Não tem. Deve ser uma analogia funcional qualquer que o tradutor resolveu arranjar, julgando que nos facilitava a vida. Geralmente, nos nossos aparelhos antigos, as teclas cardinal são teclas multifuncionais que têm a ver principalmente com funções especiais. Há alguma tecla no sintetizador com este tipo de função?
A técnica tentou recordar-se.
— A zona mais próxima dessas funções de que me lembro agora é a azul-três, próxima da crista, do lado esquerdo... desculpe... a terminologia do manual operacional é... hum... tecla térmica beta-12.
Serra coçou a cabeça. Era vago. Era muito vago...
E se não fosse essa a tal “tecla cardinal”? E se, ao colocar os dedos na beta-12, despoletasse uma função do sintetizador que fosse totalmente desconhecida e potencialmente perigosa?
— Que outras utilizações tem essa zona?
— Conhecidas, muitas, mas quase todas exigem uma conjugação com outras zonas. — respondeu a técnica — Desconhecidas... bem... não faço a mínima ideia... — acrescentou, olhando para o Chefe de Protocolo com os seus imensos olhos castanhos muito abertos.
— ... por definição — resmungou este, em resposta.
Maldito tradutor automático! E malditos técnicos hoog! Por que mil demónios uma espécie tão avançada como aquela, capaz de viagens interstelares e da produção de biomáquinas avançadas, não tinha conseguido criar um aparelho que interpretasse as coisas de modo inteligível? Que coisa!
A incompetência, pelos vistos, não escolhe espécies ou níveis tecnológicos...
Mas Serra tinha de tomar uma decisão. Aquele impasse já se arrastava há longos minutos, tantos que a excitação dos adeptos do Meneres (ou seja, já quase todas as pessoas que se mantinham na barquinha) começava a atingir níveis ensurdecedores, à medida que o número de quilómetros que faltavam para a meta se reduzia e Hermínio Eiró voltava a ganhar vantagem sobre o seu mais directo perseguidor. E quanto mais tempo se passasse com o ET inconsciente, pior seria quando ele acordasse. Se acordasse.
De resto, qual era a pior coisa que podia acontecer? Irem todos pelos ares?
Para cada um deles era uma tragédia, sem dúvida. Mas, se calhar, para o mundo isso seria uma bênção...
Serra conseguiu sorrir com aquele pensamento.
— Bem, que se lixe. Nada a fazer. Temos de tentar essa zona e esperar que dê certo. Certo?
— O doutor é que sabe... — respondeu a Grandelasca, nervosa. — Mas se me der licença, eu gostava de...
— Não, senhora. Tu ficas aqui comigo. — e, dizendo isto, Serra pôs o dedo anelar da mão esquerda sobre uma área azulada que só se distinguia do resto do revestimento do sintetizador (uma espécie de pele não muito elástica) pela cor e por estar coberta por uma série de nervuras semelhantes às de uma folha de carvalho, embora em ponto pequeno. O sintetizador vibrou debaixo do dedo de Serra, que o retirou imediatamente, um pouco assustado. A máquina produziu um zumbido, depois um clique, e em seguida uma série de zumbidos e estremecimentos, cliques e roncos que se prolongou por mais de um minuto, tempo suficiente para Serra pensar no curioso que era que uma espécie que comunicava principalmente em ultrassons tivesse construído máquinas que “falavam” umas com as outras numa gama de frequências audível para os humanos — e se as máquinas não fossem hoog, originalmente?... Arre! Mais um raciocínio circular, tão inútil como todos os outros! Serra estava a pô-lo de parte quando o tradutor começou a discursar:
— Sabe que há muitos anos que os antigos / Reis nossos firmemente propuseram / vencer os trabalhos e perigos / que sempre às grandes cousas se opuseram? A anatomia hoog é disso mesmo prova viva. Criaturas parcialmente poiquilotérmicas, possuem um par de pulmões secundários que produzem oxigénio através de processos fotossintéticos, na ausência de alimento adequado e na presença das moléculas atmosféricas necessárias, nomeadamente metano, vapor de água, dióxido de carbono e alguns oligocomponentes...
(Que raio tem isto a ver com o que quer que seja?, pensou Serra)
... que não se encontram presentes na atmosfera terrestre. O deslocamento da máscara facial do Senhor Embaixador causou um choque metabólico que pode ser solucionado facilmente pela injecção de 23 cc de hooglobulina na sua corrente sanguínea...
(Ah!, entendeu Serra)
... tendo de esperar-se apenas alguns minutos pelo restabelecimento total das funções vitais. Mas nada disto é fundamental.
(Hã?, não entendeu Serra)
... Já a vista, pouco e pouco se desterra, e a criatura está quase no raio que a parta por causa de um coma de elevação. Trata-se de um estado clínico induzido por um choque elevatório — efeito psicossomático com uma mistura de causas, que vão da diminuição da pressão atmosférica a efeitos psicológicos causados pela visão de algo traumático relacionado com a altitude.
(Ai, ai, ai... assustou-se Serra)
... O tratamento é mais complexo, mas ainda possível, consistindo na aplicação de uma dose elevada de hoogabis endovenosa, uma substância que afecta as funções cerebrais dos hoog, induzindo euforia e despreocupação.
(Uma droga?! Vou ter de drogar o embaixador?! Estou frito, frito, frito, frito!, desesperou Serra)
... O Cabo vê já Arómata chamado. Para proceder ao tratamento completo, prima um; Para proceder ao tratamento do coma de elevação, prima dois; Para proceder ao tratamento do choque metabólico, prima três; Para alterar os tratamentos propostos, prima quatro; Para não fazer nada, prima zero; Para voltar ao menu, prima asterisco.
— OK, parece que vamos ter de premir um. — disse o Chefe de Protocolo depois de uma pausa, virando-se para a técnica. — Alguma ideia sobre onde fica o um?
Joanina Grandelasca enrolava e desenrolava uma madeixa de cabelo no dedo indicador da mão esquerda enquanto a outra mão lhe passeava pela face, testa e lábios (com uma ou outra visita ao pescoço). Não dizia nada. Ou pelo menos não dizia nada que se percebesse: fitava quase convulsivamente o sintetizador e murmurava qualquer coisa, num ruído contínuo de baixa intensidade.
— Joanina! Fiz-te uma pergunta!...
— Sim, sim — respondeu a técnica, sacudindo a mão esquerda, sempre agarrada à madeixa, e voltando de imediato aos murmúrios.
Entretanto, as altas individualidades presentes na barquinha tinham-se descontraído o suficiente para regressar às imediações dos cientistas e do ET, apesar de poucos terem notado esse facto. Absorvidos na corrida, lançando de vez em quando uma exclamação, o próprio movimento quase browniano das multidões, interrompido aqui e ali por fluxos organizados, tinha-os redistribuído em torno do tapete onde se encontrava o hoog sem qualquer deliberação ou determinação, apenas por forma a diminuir a densidade noutras zonas. Se bem que fluxos organizados ali era coisa que já praticamente não havia. Com o aproximar do fim da corrida e com o avolumar da certeza da derrota, o presidente deixara de ter caprichos, reduzindo o trânsito de serviçais quase a zero, e quanto ao fluxo discreto de apoiantes de outras candidaturas para junto do ruidoso grupo do mais que provável futuro presidente, este crescera tanto que mudar de posição já se tornara desnecessário. Agora, já se podiam encontrar quase em todo o lado apoiantes de sempre de Meneres, que elogiavam o candidato melhor colocado na proporção directa em que denegriam as qualidades dos candidatos derrotados, que apoiavam de todo o coração apenas uma hora antes. O presidente tinha sido votado ao abandono, rodeado apenas de alguns amigos da família (estatuto esse que não os comprometia em nada em termos políticos) e dos funcionários protocolares; afinal de contas, o homem ainda era presidente...
Da instalação sonora do dirigível saía agora apenas o comentário da principal cadeia de interactiva, cuja histeria contrastava de forma curiosa com a monotonia bocejante da corrida, na qual já nada de relevante acontecia há bastante tempo. A histeria interactiva também contrastava com os incentivos (ou insultos) do Presidente aos seus atletas, que se faziam ouvir anteriormente, mas apenas na medida em que agora as vozes que saíam dos amplificadores procuravam aparentar ao mesmo tempo independência e simpatia pelos corredores do Meneres, ao passo que a voz do presidente era clara e logicamente parcial para o seu próprio lado, levantando da multidão sorrisos condescendentes sempre que proferia uma afirmação particularmente contundente e afastada daquilo que esta via com os seus próprios olhos. O comentário reverberava no dirigível, completando o burburinho das conversas com uma profusão de ecos distorcidos e incompreensíveis que se infiltravam nos ouvidos dos presentes de uma forma quase subliminar, fazendo-os perder uma boa parte da sua capacidade de raciocínio, com o fluxo electrónico dos seus cérebros a esbarrar numa parede de som quase intransponível.
Era uma perfeita cacofonia. Por isso, quando a Grandelasca disse, num murmúrio ainda pensativo, que achava que sabia onde estava o teclado numérico do sintetizador, Serra, a não muito mais de dez centímetros de distância, só pôde responder na medida da sua compreensão:
— Hã?!
A técnica repetiu, falando mais alto e acrescentando:
— Não sei é qual é o sentido das teclas.
— Explica. — exigiu o Chefe de Protocolo.
— Bem, lembrei-me de uma zona aqui — Grandelasca apontava para uma área junto do topo mais largo do aparelho — onde há treze protuberâncias de cores um pouco diferentes. Como os hoog usam um sistema numérico de base doze, suponho que sejam os doze algarismos e o ponto decimal, ou qualquer coisa do género...
— Ponto decimal? Mas isto é alguma calculadora?
— Não, — disse a Grandelasca, de novo numa voz que mal se ouvia — mas é a única zona desta coisa que tem uma estrutura organizada de elementos semelhantes em número suficiente para ser um teclado numérico. É um bocado especulativo, mas...
— Um bocado especulativo?! Um bocado?! Raios partam as frases curtas! Esperas que eu confie numa dedução dessas? Nessa espécie de intuição feminina em travesti científico? Não me arranjas nada mais concreto? Sei lá, uns dados para tirar à sorte, ou coisa assim?...
— No manual operativo não vinha nada acerca de um teclado numérico! — gritou por sua vez a técnica, furiosa, perdendo de repente a timidez. — Não posso ser mais precisa quando o seu gabinete não me dá elementos para trabalhar. Faço o melhor que vocês me deixam fazer. E se não gosta do meu trabalho, demita-me! De certeza que encontrarei rapidamente quem me saiba dar valor!
Serra calou-se. O pior de tudo era que o raio da mulher, além de ficar um espanto quando se zangava, tinha razão. Nem ele nem nenhum dos membros da sua equipa tinha alguma vez encontrado alguma referência a um teclado numérico na documentação que tinham recebido dos hoog. Ou melhor, na parte dela que tinham conseguido decifrar...
Parecia que iam ter de confiar na sorte e no palpite da técnica. Da muito sexy técnica Joanina Grandelasca.
— OK, OK, tens razão, desculpa, é dos nervos — murmurou Serra, pondo olhos de carneiro mal morto, e massajando os rins da cientista. — Então diz lá: qual pensas que seja a tecla um?
— Tire-me imediatamente as mãos de cima! — rosnou Grandelasca, cada vez mais rosada, cada vez mais desejável, com os olhos cada vez mais abertos e os lábios mais vermelhos.
— Desculpa, desculpa — ronronou Serra, retirando a mão com enorme relutância — é da... dos nervos... mas diz, diz: qual é a tecla um?
A técnica arfou três ou quatro vezes, depois fechou os olhos, pôs as mãos na cara, passou-as pelo cabelo, devolveu-as à cara, fê-las puxar as bochechas para baixo, piscou os olhos duas ou três vezes e disse apenas, com uma voz que mesmo numa palavra tão curta conseguiu tremer:
— Bom...
Serra ficou à espera, os seus olhos de carneiro mal morto viajando num frenesim por todo o corpo da técnica, pelas caras que os rodeavam, pelo chão da barquinha, onde se viam, entre a manta que aconchegava o hoog e os pés que a rodeavam, fragmentos da Tona sem grande sentido, pequenos grupos, corredores isolados, multidões baças dos dois lados da rua ostentando bandeiras e cartazes dos candidatos preferidos e gesticulando, numa amálgama multicolorida e festiva, olhos de carneiro mal morto que se iam transfigurando a pouco e pouco, perdendo a lã e ganhando outros pêlos, cerdas rijas e cinzentas, pelagem de lobo.
— Não sei — disse por fim a técnica, já mais calma mas ainda com a voz alterada. — É esse o problema: não sei qual é a ordem das protuberâncias.
Serra debruçou-se sobre o sintetizador. De facto estavam lá as treze protuberâncias, no topo mais largo, uma área bem delimitada e conhecida na gíria do seu gabinete por Cartilagens de Judas, por serem treze e por terem uma rigidez superior à da maior parte da superfície do aparelho. A pele que espreitava por detrás das protuberâncias era de um tom amarelo-torrado quase castanho, ao passo que as próprias protuberâncias tinham tons subtilmente diferentes de verde. Não parecia haver qualquer correlação entre o tom específico de uma protuberância e a sua posição no conjunto. Mas uma das Cartilagens tinha traços avermelhados... o que sugeria que Joanina tivera razão no palpite.
— Parece que tens mesmo razão. Aquela ali deve ser a tecla do ponto decimal. E as outras podiam estar em escala cromática, se houvesse ali alguma ordem...
A técnica debruçou-se sobre o mecanismo, quase encostando a sua cabeça à de Serra, e enchendo as narinas deste com o seu cheiro. O chefe de protocolo estremeceu e pigarreou. A técnica disse, em voz alegre, a fúria já substituída por completo pela excitação do desafio intelectual e da descoberta:
— Pois é! A cor é diferente!... E há aqui outra tecla com uma cor diferente, vê? Esta aqui — a técnica apontava para um conjunto de três teclas, demasiado pequenas para serem individualizadas por algo tão largo como um dedo — é significativamente mais clara que as outras. Deve ser o zero. E isso resolve o problema!
Foi a vez de Serra se debruçar mais, encostando-se à técnica de uma forma nada inocente e murmurando uma desculpa quando Grandelasca se afastou, olhando-o com um ar desapontado. De facto, a tal tecla mais clara estava lá. Mas que?...
A técnica explicou o seu raciocínio antes de Serra ter tempo para acabar de formular mentalmente a dúvida:
— Se o zero é a tecla mais clara, elas devem ir escurecendo até ao onze. Portanto o um deve ser... esta. — concluiu, com ar triunfante, apontando para uma tecla numa das extremidades, que parecia ser mesmo ligeiramente mais clara que as demais.
Fazia sentido.
Mas estaria certo?
Serra naquele momento dava tudo para ter um hoog acordado e a conversar, a quem pudesse fazer algumas perguntas importantes. Mas não tinha. Logo, não podia. Logo...
— Vamos ter de experimentar — murmurou, pensando em voz alta.
— O quê? — perguntou a técnica — Desculpe, não percebi.
— Nada, nada. Estava a falar comigo. Parece-me que tens razão, mas dava qualquer coisa para ter a certeza.
A técnica encolheu os ombros e não respondeu. Nada havia a fazer ou a dizer, as coisas eram como eram, não havia nenhuma maneira de ter certezas a não ser pôr um dedo sobre a tal tecla e esperar pelo resultado.
— Há, pois! — gritou o chefe de protocolo, de repente, verbalizando uma vez mais a sequência dos seus pensamentos, agora em voz alta, o que causou grande perplexidade na sua companheira e, por motivos diferentes, nas pessoas que os rodeavam. — Ou pelo menos há uma maneira de ter mais alguma segurança na correcção do raciocínio. Repara: o conjunto de opções que a máquina nos deu usou os números de zero a quatro, cinco algarismos de um total de doze, deixando sete sem utilização. Os aparelhos que têm este tipo de menus de opções têm mecanismos de correcção de erros que impedem que se faça algum disparate carregando numa qualquer das teclas restantes...
— Os terrestres...
— Não só, os hoog também. Há uma coisa dessas nos controlos manuais do tradutor automático. E esse mecanismo faz com que, se pusermos as patinhas nos sítios indevidos, não aconteça nada para além da repetição das opções do menu. Ou seja, podemos arriscar pressionar as teclas de tons intermédios, uma vez que, se o nosso raciocínio estiver certo, elas não têm qualquer efeito seja qual for o sentido das cores. Que te parece?
A Joanina Grandelasca parecia que aquele “nosso raciocínio” lhe mexia com os nervos, mas fora isso até concordava. Não achava que o teste fosse lá muito relevante, mas era mais uma pequena garantia.
— Parece-me bem.
— OK, então vou carregar... nesta tecla — disse Serra enquanto pressionava levemente uma das protuberâncias com a ponta de uma unha. O aparelho zumbiu, soltou um clique, e mais alguns zumbidos, após o que o tradutor automático voltou a acordar:
— Oh! Gente forte e de altos pensamentos! Essa opção é inválida, criatura! Repare, de novo e lentamente: Para proceder ao tratamento completo, prima um; Para proceder ao tratamento do coma de elevação, prima dois; Para proceder ao tratamento do choque metabólico, prima três; Para alterar os tratamentos propostos, prima quatro; Para não fazer nada, prima zero; Para voltar ao menu, prima asterisco. Percebeu?
— Boa! — gritaram os dois cientistas ao mesmo tempo, registando mas não se importando com o desrespeito implícito quer nas “criaturas”, quer na repetição “de novo e lentamente”, quer na pergunta sarcástica final, e soltando um conjunto de gargalhadas que só se extinguiram quando Serra se agarrou à técnica, passando-lhe um braço em torno dos ombros e puxando-a com força para si, gargalhando que “tínhamos razão! Tínhamos razão!” Grandelasca sacudiu-o, de súbito muito séria, de novo com as bochechas de um cor de rosa vivo, e gritou:
— Largue-me! E era eu quem tinha razão!
Raio de virgenzinha púdica!, resmungou Serra mentalmente, enquanto se afastava uma vez mais e concordava, já por reflexo condicionado:
— Certo, certo. Desculpa. Prime lá então tu a tecla que descobriste.
A Grandelasca lançou ao Chefe de Protocolo um olhar desconfiado, mas obedeceu. O aparelho ronronou qualquer coisa, e o tradutor automático explicou:
— Assim cantava a Ninfa. Iniciado tratamento completo. Injectada hooglobulina. Iniciada espera de um minuto e vinte e três segundos para injecção de hoogabis. Restabelecimento da consciência previsto para dentro de cinco minutos e doze segundos. Efeitos eufóricos da hoogabis deverão durar cerca de catorze horas, após o que se seguirão duas horas de letargia.
O peso que saiu de cima de Serra foi indescritível. Tinha resultado. O tratamento estava em curso. Joanina tivera razão.
Restava o problema do que faria um hoog drogado no meio das mais poderosas personagens da Terra.
E do motivo por que o tradutor automático insistia em falar de forma esquisita, com um discurso cheio de “criaturas” e de tiradas arcanas, que mais pareciam versos dos Lusíadas...
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
13.
ENTRETANTO, LÁ EM BAIXO, as coisas continuavam a correr bem ao Meneres. Hermínio Eiró ainda comandava isolado, e embora a vantagem sobre o primeiro corredor de Faneco, João Machadão, se tivesse reduzido consideravelmente, ainda era relativamente confortável. Mas mesmo que a liderança da Tona estivesse sob ameaça iminente, Meneres continuava em grande vantagem na corrida à presidência dada a posição dos seus corredores secundários, que já quase lhe asseguravam a eleição mesmo que Eiró não vencesse a corrida. Já a posição do actual presidente parecia ser de total ausência de esperança. Joaquim do Fim tinha descolado do grupo perseguidor alguns quilómetros atrás, e arrastava-se agora na décima terceira posição, na companhia de um seu companheiro de equipa, e seguido a alguma distância por mais três. Se não houvesse tantos corredores do Meneres nos dez primeiros, se as posições estivessem melhor distribuídas na cabeça da corrida, o presidente ainda teria uma remota hipótese de reeleição. Mas assim...
Só um golpe de teatro, um cataclismo qualquer, uma rabanada de vento competitivo e selectivo que varresse da Tona os atletas do Meneres.
Se ao menos fosse possível colocar atiradores de elite em pontos estratégicos!...
Mas, alguns mandatos antes, esse método fora levado à prática pelo presidente Veduplo Arbusto d’Oliveira, longínquo descendente do velho Jorge Arbusto d’Oliveira, o Grande Palhaço (a família Arbusto d’Oliveira era, aliás, uma frondosa árvore na política da República. Mesmo apesar do Grande Palhaço... ou talvez por causa dele). Atiradores de elite estrategicamente colocados no topo dos edifícios próximos da meta tinham dizimado os principais oponentes dos corredores de Arbusto d’Oliveira, numa acção coordenada na perfeição que não deixou escapar nenhum (e outra coisa não seria de esperar, com uma unidade de elite dos Serviços Secretos Militares a tratar do assunto), e levou a equipa de Arbusto d’Oliveira à vitória mais folgada na história das Tonas. Não servira de nada. O povo, que 365 dias por ano se recolhia na sua tradicional apatia e indiferença, reagiu violenta e surpreendentemente quando viu que alguém estava a pôr em causa a sua velha e sacrossanta corrida da Tona, tentando aldrabá-la de forma violenta. Nuvens de uma revolta nunca vista caíram sobre o planeta. Explodiram motins nas cidades, grandes e pequenas por igual, a pilhagem generalizou-se, e até os polícias entraram na revolta à sua maneira, “restabelecendo a ordem” durante o tempo de serviço, em acções que resultavam em grande número de mortos e feridos, e participando dos saques durante as folgas, à paisana, chegando mesmo a envolver-se com os seus colegas em violentos tiroteios pelas ruas secundárias das cidades. As coisas só se acalmaram após intervenção do exército que, à boa maneira militar, levou tudo à frente, submergindo a revolta e a violência num mar de cadáveres desmembrados e chamuscados. Calculou-se mais tarde que o número de vítimas causadas pelos militares tinha sido equivalente ao total de mortos e feridos que seriam causados por três anos de violência civil contínua, mas os cálculos foram abafados, quem os realizou foi demitido, e acabou tudo debitado na conta das vítimas colaterais e esquecido.
Os motins nem sequer foram dirigidos especificamente contra as instituições: foram apenas uma explosão de raiva. Tudo foi tão desorganizado e espontâneo que ninguém se lembrou, por exemplo, de alvejar o dirigível presidencial, o centro óbvio da fraude. O aparelho ainda se encontrava em voo quando a violência começou, executando as manobras finais de aproximação aos jardins do palácio, para onde estavam marcadas, como sempre, as cerimónias de investidura do novo presidente no cargo, o que neste caso teria significado a recondução de Arbusto d’Oliveira.
Mas não foi bem isso que se passou. Assim que começaram a chegar à barquinha notícias de distúrbios, o dirigível voltou a ganhar altitude à pressa e foi aterrar no terraço do palácio, no mesmo local de onde tradicionalmente partia. Arbusto d’Oliveira saiu do aparelho em corrida, rodeado de seguranças que esforçavam os pescoços na tentativa de olhar para todos os lados ao mesmo tempo, e que o enfiaram, aos empurrões e em tempo recorde, com a sem-cerimónia das situações de emergência, na protecção das paredes do palácio. Nunca mais ninguém o viu. Os boatos, claro, espalharam-se como fogo em gasolina, alguns de nascimento espontâneo, outros, como se veio a saber mais tarde, propagados pelos próprios ajudantes de Arbusto d’Oliveira a fim de ocultar a sua fuga. Porque de fuga se tratou, de facto. Assim que soube do grau de violência que os motins tinham entretanto atingido, Veduplo Arbusto d’Oliveira fez uma rápida visita às caves do palácio, onde tinha sido preparada, para o caso de tudo correr mal, uma sala de operações repleta de tecnologia de ponta. Aí, foi transformado, no tempo recorde de duas horas de trinta e sete minutos, em Ágata Marisa. Na Ágata Marisa. Naquela Ágata Marisa que veio a conquistar, nos anos seguintes, o título de maior entertainer do país. Na Ágata Marisa que estava permanentemente nos cabeçalhos das notícias devido, por vezes, aos seus sucessos musicais, mas mais frequentemente às tórridas e escandalosas aventuras sexuais que mantinha com alguns dos mais altos vultos da política e da finança. Na Ágata Marisa dinamizadora do PIMBA — Programa Interdepartamental para a Massificação dos Bonitos Artistas —, cujo sucesso fez muita gente perguntar a si própria de onde lhe teriam vindo tais capacidades organizativas e tamanho poder.
Se sonhassem!...
Só quando Ágata Marisa morreu é que o seu passado (que sempre se recusara a desvendar, guardando ciosamente o mistério, o que contribuiu sobremaneira para o seu sucesso) veio a público, numa autobiografia cuja publicação deixou em testamento e que se transformou em best-seller instantâneo, enriquecendo do dia para a noite a pequena editora a que tinha sido confiada, causando ao mesmo tempo um dos maiores escândalos da história do planeta. Quem nunca ouviu falar do clássico “Duplo Veduplo?” Aí está!...
Feliz ou infelizmente, porém, o actual presidente não tinha qualquer intenção de se transformar numa segunda Ágata Marisa. Deixava essas esquisitices para o Janela.
Portanto, atiradores estavam fora de questão. “Sabotagem alimentar”, para usar um eufemismo que estivera na moda uns anos antes, também não era uma hipótese viável, porque os atletas eram vigiados 24 horas por dia durante os dois meses anteriores à Tona e nada escapava do escrutínio popular. Havia dois canais especialmente dedicados a mostrar a todos os espectadores interactivos o dia-a-dia dos atletas, dando particular atenção, como era natural, às partes que envolviam sexo e violência. Havia atletas que se tornavam estrelas de primeira grandeza apenas graças a estes canais e às suas próprias práticas sexuais escabrosas, que causavam à nação autênticos orgasmos colectivos. Rapidamente eram esquecidos uma vez corrida a Tona, mas enquanto a fama durava tiravam bom partido dela.
Outras formas de ataque, como bioarmas e nanoarmas, estavam também fora de questão, porque ainda não se encontrara nenhum meio de limitar os seus efeitos letais a um ou dois indivíduos, e iriam, por certo, afectar a assistência, num efeito colateral indesejável por poder levar, uma vez mais, à revolta do povo. E todos os presidentes temiam acima de tudo a revolta do povo.
Enfim... restava aguentar, aceitar o veredicto da Tona com o máximo de espírito democrático que desse para reunir, mesmo que à pressa, e perder as eleições com a dignidade possível.
Para o actual presidente, isso era muito mais fácil de dizer do que de fazer...
Mas uma coisa tinha de reconhecer-se: ele ficara junto ao ET, corajosamente (nas suas costas dizia-se que inconscientemente, apontando a atitude como um perfeito exemplo da bondade da mudança), enquanto a maioria das altas individualidades se afastava o mais possível do hoog e da eventual bomba que se lhe tinha colado ao corpo como se fosse um mutante de sanguessuga, tendo alguns chegado mesmo a preferir enfrentar a indignidade de uma descida através das cordas para a segurança do terraço do palácio presidencial a ficar dentro de uma estrutura praticamente inquebrável, feita de diamante, na companhia de um ET esquisito e dos seus aparelhos mais esquisitos ainda, a que os boatos atribuíam as mais diversas e explosivas utilidades.
Eram só boatos. Mas de boatos se fazem as vidas de todas as cortes. E que era aquilo senão uma versão moderna de uma corte?...
Só um golpe de teatro, um cataclismo qualquer, uma rabanada de vento competitivo e selectivo que varresse da Tona os atletas do Meneres.
Se ao menos fosse possível colocar atiradores de elite em pontos estratégicos!...
Mas, alguns mandatos antes, esse método fora levado à prática pelo presidente Veduplo Arbusto d’Oliveira, longínquo descendente do velho Jorge Arbusto d’Oliveira, o Grande Palhaço (a família Arbusto d’Oliveira era, aliás, uma frondosa árvore na política da República. Mesmo apesar do Grande Palhaço... ou talvez por causa dele). Atiradores de elite estrategicamente colocados no topo dos edifícios próximos da meta tinham dizimado os principais oponentes dos corredores de Arbusto d’Oliveira, numa acção coordenada na perfeição que não deixou escapar nenhum (e outra coisa não seria de esperar, com uma unidade de elite dos Serviços Secretos Militares a tratar do assunto), e levou a equipa de Arbusto d’Oliveira à vitória mais folgada na história das Tonas. Não servira de nada. O povo, que 365 dias por ano se recolhia na sua tradicional apatia e indiferença, reagiu violenta e surpreendentemente quando viu que alguém estava a pôr em causa a sua velha e sacrossanta corrida da Tona, tentando aldrabá-la de forma violenta. Nuvens de uma revolta nunca vista caíram sobre o planeta. Explodiram motins nas cidades, grandes e pequenas por igual, a pilhagem generalizou-se, e até os polícias entraram na revolta à sua maneira, “restabelecendo a ordem” durante o tempo de serviço, em acções que resultavam em grande número de mortos e feridos, e participando dos saques durante as folgas, à paisana, chegando mesmo a envolver-se com os seus colegas em violentos tiroteios pelas ruas secundárias das cidades. As coisas só se acalmaram após intervenção do exército que, à boa maneira militar, levou tudo à frente, submergindo a revolta e a violência num mar de cadáveres desmembrados e chamuscados. Calculou-se mais tarde que o número de vítimas causadas pelos militares tinha sido equivalente ao total de mortos e feridos que seriam causados por três anos de violência civil contínua, mas os cálculos foram abafados, quem os realizou foi demitido, e acabou tudo debitado na conta das vítimas colaterais e esquecido.
Os motins nem sequer foram dirigidos especificamente contra as instituições: foram apenas uma explosão de raiva. Tudo foi tão desorganizado e espontâneo que ninguém se lembrou, por exemplo, de alvejar o dirigível presidencial, o centro óbvio da fraude. O aparelho ainda se encontrava em voo quando a violência começou, executando as manobras finais de aproximação aos jardins do palácio, para onde estavam marcadas, como sempre, as cerimónias de investidura do novo presidente no cargo, o que neste caso teria significado a recondução de Arbusto d’Oliveira.
Mas não foi bem isso que se passou. Assim que começaram a chegar à barquinha notícias de distúrbios, o dirigível voltou a ganhar altitude à pressa e foi aterrar no terraço do palácio, no mesmo local de onde tradicionalmente partia. Arbusto d’Oliveira saiu do aparelho em corrida, rodeado de seguranças que esforçavam os pescoços na tentativa de olhar para todos os lados ao mesmo tempo, e que o enfiaram, aos empurrões e em tempo recorde, com a sem-cerimónia das situações de emergência, na protecção das paredes do palácio. Nunca mais ninguém o viu. Os boatos, claro, espalharam-se como fogo em gasolina, alguns de nascimento espontâneo, outros, como se veio a saber mais tarde, propagados pelos próprios ajudantes de Arbusto d’Oliveira a fim de ocultar a sua fuga. Porque de fuga se tratou, de facto. Assim que soube do grau de violência que os motins tinham entretanto atingido, Veduplo Arbusto d’Oliveira fez uma rápida visita às caves do palácio, onde tinha sido preparada, para o caso de tudo correr mal, uma sala de operações repleta de tecnologia de ponta. Aí, foi transformado, no tempo recorde de duas horas de trinta e sete minutos, em Ágata Marisa. Na Ágata Marisa. Naquela Ágata Marisa que veio a conquistar, nos anos seguintes, o título de maior entertainer do país. Na Ágata Marisa que estava permanentemente nos cabeçalhos das notícias devido, por vezes, aos seus sucessos musicais, mas mais frequentemente às tórridas e escandalosas aventuras sexuais que mantinha com alguns dos mais altos vultos da política e da finança. Na Ágata Marisa dinamizadora do PIMBA — Programa Interdepartamental para a Massificação dos Bonitos Artistas —, cujo sucesso fez muita gente perguntar a si própria de onde lhe teriam vindo tais capacidades organizativas e tamanho poder.
Se sonhassem!...
Só quando Ágata Marisa morreu é que o seu passado (que sempre se recusara a desvendar, guardando ciosamente o mistério, o que contribuiu sobremaneira para o seu sucesso) veio a público, numa autobiografia cuja publicação deixou em testamento e que se transformou em best-seller instantâneo, enriquecendo do dia para a noite a pequena editora a que tinha sido confiada, causando ao mesmo tempo um dos maiores escândalos da história do planeta. Quem nunca ouviu falar do clássico “Duplo Veduplo?” Aí está!...
Feliz ou infelizmente, porém, o actual presidente não tinha qualquer intenção de se transformar numa segunda Ágata Marisa. Deixava essas esquisitices para o Janela.
Portanto, atiradores estavam fora de questão. “Sabotagem alimentar”, para usar um eufemismo que estivera na moda uns anos antes, também não era uma hipótese viável, porque os atletas eram vigiados 24 horas por dia durante os dois meses anteriores à Tona e nada escapava do escrutínio popular. Havia dois canais especialmente dedicados a mostrar a todos os espectadores interactivos o dia-a-dia dos atletas, dando particular atenção, como era natural, às partes que envolviam sexo e violência. Havia atletas que se tornavam estrelas de primeira grandeza apenas graças a estes canais e às suas próprias práticas sexuais escabrosas, que causavam à nação autênticos orgasmos colectivos. Rapidamente eram esquecidos uma vez corrida a Tona, mas enquanto a fama durava tiravam bom partido dela.
Outras formas de ataque, como bioarmas e nanoarmas, estavam também fora de questão, porque ainda não se encontrara nenhum meio de limitar os seus efeitos letais a um ou dois indivíduos, e iriam, por certo, afectar a assistência, num efeito colateral indesejável por poder levar, uma vez mais, à revolta do povo. E todos os presidentes temiam acima de tudo a revolta do povo.
Enfim... restava aguentar, aceitar o veredicto da Tona com o máximo de espírito democrático que desse para reunir, mesmo que à pressa, e perder as eleições com a dignidade possível.
Para o actual presidente, isso era muito mais fácil de dizer do que de fazer...
Mas uma coisa tinha de reconhecer-se: ele ficara junto ao ET, corajosamente (nas suas costas dizia-se que inconscientemente, apontando a atitude como um perfeito exemplo da bondade da mudança), enquanto a maioria das altas individualidades se afastava o mais possível do hoog e da eventual bomba que se lhe tinha colado ao corpo como se fosse um mutante de sanguessuga, tendo alguns chegado mesmo a preferir enfrentar a indignidade de uma descida através das cordas para a segurança do terraço do palácio presidencial a ficar dentro de uma estrutura praticamente inquebrável, feita de diamante, na companhia de um ET esquisito e dos seus aparelhos mais esquisitos ainda, a que os boatos atribuíam as mais diversas e explosivas utilidades.
Eram só boatos. Mas de boatos se fazem as vidas de todas as cortes. E que era aquilo senão uma versão moderna de uma corte?...
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
12.
E ASSIM, O GRUPO CHEGOU junto do extraterrestre sem qualquer dificuldade. Mas o hoog, pelo contrário, parecia estar agora cheio de dificuldades, pois remexia-se sobre a manta, aparentando embora estar ainda inconsciente, e devia estar a emitir qualquer coisa de inaudível para os ouvidos humanos, visto que o tradutor automático tinha acordado da sua modorra, começando a empapar a manta com muco verde e dizendo palavras desconexas em várias línguas, enquanto fazia subir e descer o filamento que era usado como bocal.
Que se teria passado? À primeira vista não parecia haver alteração nenhuma no ambiente do ET: o filtro atmosférico mantinha-se bem colocado, o hoog estava praticamente na mesma posição em que tinha sido deixado, apesar dos movimentos que fazia, e a discussão com o segurança demorara pouco tempo. Não havia, portanto, nenhum motivo óbvio para a alteração do status-quo.
Que fazer?
Talvez perguntar-lhe? O ET parecia delirante, mas...
— Senhor Embaixador — disse Serra para o bocal — sou eu, o doutor Serra.
Nada aconteceu por algum tempo.
Mas depois o hoog estremeceu, esbracejou e, aparentemente, pipilou em ultrassom (pena não haver por ali cães para o confirmar) porque o tradutor grasnou, numa voz que era agora muito diferente do doce tom de soprano que tinha utilizado anteriormente:
— Motosserra?! Destruirá a cidade Repelim! Não! Não! Ide para longe da minha vista!
Inútil. Ou o hoog continuava inconsciente, ou o tradutor continuava avariado, ou as duas coisas. Repelim?! De que cartola saíra aquele coelho? E que teria dado ao tradutor, ou ao hoog, para começar de repente a falar em arcaico?
O melhor era usar, de uma vez por todas, o aparelho que tanta celeuma tinha levantado à entrada e ver que podia ele fazer pelo extraterrestre. E depressa, antes que o estrago fosse irreparável.
Se é que havia estrago. Se é que não era já irreparável. Se é que o aparelhómetro podia fazer alguma coisa pelo ET. Se é que...
— Joanina, passe-me o sintetizador por favor.
A Grandelasca começou a abrir o saco de plástico onde o aparelho se aninhava no meio de um pequeno lago de muco rosado. O burburinho ambiente recrudesceu.
— Ainda não — ordenou uma voz atrás de Serra, elevando-se, bem timbrada e hipnótica, sobre o ruído ambiente. O ainda presidente saíra da sua catatonia e estava de pé, a um par de metros do grupo que rodeava o extraterrestre, observando com atenção o que se passava e, obviamente, ouvindo todas as conversas. — Serra, você é capaz de me explicar o que é aquela coisa nojenta? Há por aí boatos de bomba, sabe? E é bom que você não esteja a preparar alguma, pelo menos ao pé de mim. — Dizendo isto, os olhos do presidente desviaram-se por um breve momento para o grupo do Meneres, que começava a ameaçar tomar conta de toda a barquinha, tal fora o crescimento que experimentara nos últimos minutos. Aproveitando a comoção causada pelo rumor de bomba no dirigível e os movimentos brownianos que esse rumor provocara na multidão, muitos dos mais altos funcionários do Estado, incluindo vários membros do actual governo, tinham descido até à zona ocupada pelos partidários do provável futuro presidente, procurando agora passar despercebidos pelos antigos correligionários, e ao mesmo tempo ser vistos, e bem vistos, pelos novos, um malabarismo social só ao alcance de um reduzido número de eleitos, seres abençoados com um talento especial.
— Não, Senhor Presidente, não há bomba nenhuma — respondeu Serra em voz alta, olhando em volta com uma expressão altiva onde se notava claramente o desprezo que sentia pela ignorância cobarde daquela gente. — Se se refere a isto — Serra apontou para o sintetizador, — trata-se de um aparelho hoog que tem propriedades médicas, e nos permitirá, se tudo correr bem, recuperar a saúde do embaixador. Não oferece qualquer risco para...
Não concluiu a frase. Foi interrompido por uma série de convulsões do ET e pelo tradutor automático, que mudou a cor do muco que segregava, agora para um verde muito escuro, quase negro, e declamou:
— Apodrecia c’um fétido e bruto / cheiro, que o ar vizinho infecionava / rais-parta, criatura! O fogo! O fogo!
Serra fitou o tradutor automático, perplexo. Aquelas palavras soavam-lhe vagamente conhecidas, mas ali estavam muito fora de contexto. Eram incongruentes, em boa parte porque o extraterrestre continuava, aparentemente, sem dar acordo de si. Seria alguma função automática dos hoog, que Serra nunca encontrara ou de que nunca, sequer, ouvira falar? Seria normal? Seria doença? Seria pior que doença?
— Será contagioso? — perguntou-lhe uma voz ao ouvido, tão próxima que o Chefe de Protocolo se sobressaltou. Era um dos ministros que ainda restavam ao Presidente, um homem de bigode farfalhudo, grandes olhos pestanudos e gestos efeminados que procurava virilizar, sem grande sucesso. Chamava-se Pedro Janela, era ministro da saúde e médico de formação (pelo menos assim rezavam as biografias oficiais) sem nunca ter exercido na vida a profissão.
— Disparate! — disparou Serra quase sem dar por isso, compreendendo tarde demais que, provavelmente, tinha pensado em voz alta. — Claro que não!...
— O que é que é disparate? Não cochiche tanto, Janela! — ordenou o Presidente, com ar zangado, tomando logo de seguida fôlego e abrindo a boca, enquanto coçava a comissura do lábio com a mão esquerda, um gesto muito seu, que usava sempre que se preparava para repreender alguém de forma firme. Mas ficou-se pelo gesto, porque de súbito, o tradutor fez soar, em voz trovejante:
— Viram gentes incógnitas e estranhas. O ar sabe a chuva, o ar é mau. Vendo vários costumes, várias manhas. Disparates, tonteiras, maluqueiras, desatinos, deu-lhe a louca e abriu a boca!
O Presidente já a tinha aberta e assim a manteve, mas Serra deu por si a deixar cair o maxilar inferior, cada vez mais espantado, momentaneamente sem reacção. Também a Grandelasca abriu a boca, pondo-lhe a mão à frente como se se tivesse assustado. O único que não acompanhou o movimento de maxilares colectivo foi o ministro Janela, que apertou muito os lábios, projectando-os para a frente e reduzindo a boca a um botãozinho cor de rosa. Quanto ao estafeta, já se tinha escapulido discretamente por entre as pessoas que rarefaziam cada vez mais aquela zona.
Por fim, Serra reagiu. Ajoelhou-se, arrancou o saco de plástico das mãos da Grandelasca, ignorou a voz autoritária do Presidente que o intimava com insistência, exigindo explicações, ameaçando consequências tenebrosas, rosnando pragas, abriu o saco, lutou alguns segundos contra o sintetizador, que teimava em escorregar-lhe por entre os dedos, ouviu vagamente, no limiar da consciência, os ruídos de pânico e nojo que soltava a multidão, ainda teve tempo para um fugaz pensamento acerca do motivo porque aqueles idiotas não estavam mas é a ver a Tona e não me deixavam de chatear duma vez por todas, que raios os partam, e colocou o aparelho, com todo o cuidado, sobre uma zona do corpo do extraterrestre onde a pele gelatinosa endurecia um pouco e se subdividia nuns apêndices minúsculos que pareciam algo de híbrido entre pêlos e tentáculos (tecnicamente, eram flagelos gigantescos), após o que premiu com suavidade duas áreas do sintetizador que serviam de controlo. A máquina parou imediatamente de segregar muco e ficou muito quieta, fazendo, no entanto, soar um zumbido de baixa intensidade.
— Estou ligada e a analisar a criatura — traduziu, fielmente, o tradutor automático.
— Arre! — berrou o presidente, ainda a tentar que Serra lhe prestasse atenção.
Que se teria passado? À primeira vista não parecia haver alteração nenhuma no ambiente do ET: o filtro atmosférico mantinha-se bem colocado, o hoog estava praticamente na mesma posição em que tinha sido deixado, apesar dos movimentos que fazia, e a discussão com o segurança demorara pouco tempo. Não havia, portanto, nenhum motivo óbvio para a alteração do status-quo.
Que fazer?
Talvez perguntar-lhe? O ET parecia delirante, mas...
— Senhor Embaixador — disse Serra para o bocal — sou eu, o doutor Serra.
Nada aconteceu por algum tempo.
Mas depois o hoog estremeceu, esbracejou e, aparentemente, pipilou em ultrassom (pena não haver por ali cães para o confirmar) porque o tradutor grasnou, numa voz que era agora muito diferente do doce tom de soprano que tinha utilizado anteriormente:
— Motosserra?! Destruirá a cidade Repelim! Não! Não! Ide para longe da minha vista!
Inútil. Ou o hoog continuava inconsciente, ou o tradutor continuava avariado, ou as duas coisas. Repelim?! De que cartola saíra aquele coelho? E que teria dado ao tradutor, ou ao hoog, para começar de repente a falar em arcaico?
O melhor era usar, de uma vez por todas, o aparelho que tanta celeuma tinha levantado à entrada e ver que podia ele fazer pelo extraterrestre. E depressa, antes que o estrago fosse irreparável.
Se é que havia estrago. Se é que não era já irreparável. Se é que o aparelhómetro podia fazer alguma coisa pelo ET. Se é que...
— Joanina, passe-me o sintetizador por favor.
A Grandelasca começou a abrir o saco de plástico onde o aparelho se aninhava no meio de um pequeno lago de muco rosado. O burburinho ambiente recrudesceu.
— Ainda não — ordenou uma voz atrás de Serra, elevando-se, bem timbrada e hipnótica, sobre o ruído ambiente. O ainda presidente saíra da sua catatonia e estava de pé, a um par de metros do grupo que rodeava o extraterrestre, observando com atenção o que se passava e, obviamente, ouvindo todas as conversas. — Serra, você é capaz de me explicar o que é aquela coisa nojenta? Há por aí boatos de bomba, sabe? E é bom que você não esteja a preparar alguma, pelo menos ao pé de mim. — Dizendo isto, os olhos do presidente desviaram-se por um breve momento para o grupo do Meneres, que começava a ameaçar tomar conta de toda a barquinha, tal fora o crescimento que experimentara nos últimos minutos. Aproveitando a comoção causada pelo rumor de bomba no dirigível e os movimentos brownianos que esse rumor provocara na multidão, muitos dos mais altos funcionários do Estado, incluindo vários membros do actual governo, tinham descido até à zona ocupada pelos partidários do provável futuro presidente, procurando agora passar despercebidos pelos antigos correligionários, e ao mesmo tempo ser vistos, e bem vistos, pelos novos, um malabarismo social só ao alcance de um reduzido número de eleitos, seres abençoados com um talento especial.
— Não, Senhor Presidente, não há bomba nenhuma — respondeu Serra em voz alta, olhando em volta com uma expressão altiva onde se notava claramente o desprezo que sentia pela ignorância cobarde daquela gente. — Se se refere a isto — Serra apontou para o sintetizador, — trata-se de um aparelho hoog que tem propriedades médicas, e nos permitirá, se tudo correr bem, recuperar a saúde do embaixador. Não oferece qualquer risco para...
Não concluiu a frase. Foi interrompido por uma série de convulsões do ET e pelo tradutor automático, que mudou a cor do muco que segregava, agora para um verde muito escuro, quase negro, e declamou:
— Apodrecia c’um fétido e bruto / cheiro, que o ar vizinho infecionava / rais-parta, criatura! O fogo! O fogo!
Serra fitou o tradutor automático, perplexo. Aquelas palavras soavam-lhe vagamente conhecidas, mas ali estavam muito fora de contexto. Eram incongruentes, em boa parte porque o extraterrestre continuava, aparentemente, sem dar acordo de si. Seria alguma função automática dos hoog, que Serra nunca encontrara ou de que nunca, sequer, ouvira falar? Seria normal? Seria doença? Seria pior que doença?
— Será contagioso? — perguntou-lhe uma voz ao ouvido, tão próxima que o Chefe de Protocolo se sobressaltou. Era um dos ministros que ainda restavam ao Presidente, um homem de bigode farfalhudo, grandes olhos pestanudos e gestos efeminados que procurava virilizar, sem grande sucesso. Chamava-se Pedro Janela, era ministro da saúde e médico de formação (pelo menos assim rezavam as biografias oficiais) sem nunca ter exercido na vida a profissão.
— Disparate! — disparou Serra quase sem dar por isso, compreendendo tarde demais que, provavelmente, tinha pensado em voz alta. — Claro que não!...
— O que é que é disparate? Não cochiche tanto, Janela! — ordenou o Presidente, com ar zangado, tomando logo de seguida fôlego e abrindo a boca, enquanto coçava a comissura do lábio com a mão esquerda, um gesto muito seu, que usava sempre que se preparava para repreender alguém de forma firme. Mas ficou-se pelo gesto, porque de súbito, o tradutor fez soar, em voz trovejante:
— Viram gentes incógnitas e estranhas. O ar sabe a chuva, o ar é mau. Vendo vários costumes, várias manhas. Disparates, tonteiras, maluqueiras, desatinos, deu-lhe a louca e abriu a boca!
O Presidente já a tinha aberta e assim a manteve, mas Serra deu por si a deixar cair o maxilar inferior, cada vez mais espantado, momentaneamente sem reacção. Também a Grandelasca abriu a boca, pondo-lhe a mão à frente como se se tivesse assustado. O único que não acompanhou o movimento de maxilares colectivo foi o ministro Janela, que apertou muito os lábios, projectando-os para a frente e reduzindo a boca a um botãozinho cor de rosa. Quanto ao estafeta, já se tinha escapulido discretamente por entre as pessoas que rarefaziam cada vez mais aquela zona.
Por fim, Serra reagiu. Ajoelhou-se, arrancou o saco de plástico das mãos da Grandelasca, ignorou a voz autoritária do Presidente que o intimava com insistência, exigindo explicações, ameaçando consequências tenebrosas, rosnando pragas, abriu o saco, lutou alguns segundos contra o sintetizador, que teimava em escorregar-lhe por entre os dedos, ouviu vagamente, no limiar da consciência, os ruídos de pânico e nojo que soltava a multidão, ainda teve tempo para um fugaz pensamento acerca do motivo porque aqueles idiotas não estavam mas é a ver a Tona e não me deixavam de chatear duma vez por todas, que raios os partam, e colocou o aparelho, com todo o cuidado, sobre uma zona do corpo do extraterrestre onde a pele gelatinosa endurecia um pouco e se subdividia nuns apêndices minúsculos que pareciam algo de híbrido entre pêlos e tentáculos (tecnicamente, eram flagelos gigantescos), após o que premiu com suavidade duas áreas do sintetizador que serviam de controlo. A máquina parou imediatamente de segregar muco e ficou muito quieta, fazendo, no entanto, soar um zumbido de baixa intensidade.
— Estou ligada e a analisar a criatura — traduziu, fielmente, o tradutor automático.
— Arre! — berrou o presidente, ainda a tentar que Serra lhe prestasse atenção.
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
11.
TAMBÉM É VERDADE QUE não teve muito tempo para tentar pôr um sentido naquela conversa, porque logo em seguida o nível de ruído voltou a aumentar e começou a dizer-se nas redondezas que os seguranças tinham interceptado qualquer coisa à entrada da barquinha. Serra pôs-se de pé e espreitou por cima da multidão, tentando entender o que se passava, temendo que fosse o que temia. E era. A Grandelasca e o estafeta tinham chegado, carregados de material com um aspecto que devia parecer altamente suspeito aos olhos da segurança, porque um cordão de homens devidamente espadaúdos formava uma barreira impenetrável em torno da entrada e procurava retirar a aparelhagem das mãos da técnica e do estafeta. Este cedia os aparelhos que carregava de bom grado, com um sorriso tímido afivelado num rosto que como que gritava inocência através de cada poro. Aquela, bem pelo contrário, lutava por manter a posse dos objectos que transportava, fazia ameaças, soltava gritos estridentes, exigia falar com Fulano, Sicrano e Serra, enfim, armava escândalo. À sua volta, a multidão de ricos, poderosos e candidatos a ricos e poderosos afastava-se, com receio de algum atentado, embora os homens não conseguissem evitar lançar à técnica longos olhares apreciadores, que tinham como consequência automática que as suas acompanhantes femininas os brindassem com puxões, beliscões, palmadas dadas com as mãos ou com carteiras e revistas de plástico e palavras rosnadas de forma enfática.
Serra tinha-se esquecido de avisar (ou de mandar avisar) a segurança da chegada daquele material. Ele próprio entrara sem qualquer problema porque já o conheciam. Trouxera o tradutor automático sem ser interceptado porque antes de colocar o aparelho ao serviço da comunicação com o Presidente, ainda lá em baixo, no palácio, os serviços secretos tinham-no examinado com todo o cuidado, para ver se era inócuo ou se traria, algures nos recônditos impenetráveis do seu interior biomecânico, uma super-arma qualquer. Mas a Grandelasca, e especialmente o material que transportava, não tinham autorização de segurança. Não tinham entrada automática em todos os lugares presidenciais. Muito menos no dirigível, em dia de Tona, um dos mais sensíveis locais do planeta.
Serra coçou a cabeça, indeciso. Devia ir ajudar, mas não podia deixar o ET ali sozinho. E se alguém o pisasse, pontapeasse ou esmagasse?
Por outro lado, quando chegara ele estava abandonado no chão e nada lhe acontecera de mais grave do que algo ou alguém lhe ter desencaixado o filtro atmosférico, o que podia até ter acontecido no momento em que o hoog caíra, sem intervenção de nenhuma força exterior à gravidade.
Mas e se o ET acordasse? Tinha de ter alguém que o introduzisse lentamente à situação e não o deixasse ver imediatamente o lugar onde se encontrava. Ou, melhor, o lugar acima do qual se encontrava...
O certo era que tinha de ir ajudar. Sem os aparelhos que a Grandelasca trazia, a probabilidade de o embaixador conseguir embaixadar em tempo útil eram remotas. Especialmente sem aquele aparelhómetro alienígena que mais dúvidas e cuidados devia levantar à segurança. Nem mesmo Serra estava muito convencido da sua inocuidade: a maior parte das funções da máquina, tão orgânica como o tradutor automático e mais misteriosa ainda, eram totalmente desconhecidas dos terrestres, que se limitavam a usá-la seguindo aquilo que fora possível decifrar das instruções recebidas dos hoog, um gigantesco ficheiro de quase três terabytes do qual só tinha sido decifrada uma percentagem muito reduzida.
O que se decifrara, no entanto, mostrara que aquilo podia funcionar como um médico automático para a fisiologia hoog.
Era imperativo que a segurança deixasse passar aquela máquina!
Serra olhou em volta, à procura de alguém que fosse suficientemente de confiança para ficar a guardar o extraterrestre enquanto ele ia conversar com a segurança e voltava. Não viu ninguém. Muitos dos que o rodeavam, parte da comitiva presidencial, mostravam-se ausentes, ou fechados em si próprios numa melancolia derrotada, imitando o futuro ex-presidente que continuava a fitar as peripécias da Tona com olhos aguados. Outros olhavam em volta, aparentemente à procura de alguma coisa. Outros ainda conversavam em sussurros conspiratórios, pelos comunicadores, com interlocutores invisíveis que lhes respondiam ao ouvido palavras cujo significado só era aparente pelas reacções inconscientes que causavam na fisionomia dos futuros ex-membros do gabinete. Cada um absolutamente absorvido nos seus próprios assuntos, cada um perdido nas paisagens cinzentas dos seus próprios pensamentos, nos montes e vales (mais vales que montes, naquele momento) dos seus territórios privados.
Eram todos imprestáveis. Sem excepção.
E entretanto, a confusão junto à porta subia de tom. Serra espreitou uma vez mais por sobre o mar de cabeças, que se começavam a voltar com maior insistência naquela direcção, incomodadas pelo ruído e curiosas com aquela perturbação da ordem pública (o que não deixava de ser irónico, se se tivesse em conta a gritaria que imperava naquele lugar — aparentemente uma coisa era gritar a favor ou contra os acontecimentos da Tona, e outra muito diferente era gritar a propósito de um conflito de interesses relacionado com o acesso ou não ao local. Mesmo que as palavras fossem quase iguais e os decibéis também). A Grandelasca tentava esbracejar, já sem o sintetizador nas mãos, agarrada por três dos casacos de basebol negros da segurança, disparando o mais sonoramente que era capaz longas rajadas de insultos e apelos, nos quais o nome Serra fazia aparições frequentes. Um quarto casaco negro afastava-se em direcção à saída, com um saco de plástico na mão, bem afastado na sua frente, contendo um sintetizador não muito bem tratado, que segregava muco cor de rosa com ar desanimado. Dos restantes aparelhos, já não havia nem sinal.
Merda!, pensou Serra, começando a correr em direcção da entrada, afastando quem quer que se lhe atravessasse no caminho com empurrões, encontrões, rasteiras, cotoveladas, insultos, o que fosse preciso, enquanto berrava:
— Parem! Parem! Parem! Parem!...
Pararam. Uma investida daquelas pararia qualquer um.
Mas os casacos negros, parando embora, sacaram das suas pistolas tranquilizantes e apontaram-nas ao investidor, pelo sim pelo não.
Serra, por sua vez, quando se apercebeu de que se tinha transformado em ponto de mira para um conjunto letal de pistolas tranquilizantes, um autêntico alvo Rorscharch em movimento, também parou, ergueu as mãos acima da cabeça e gritou:
— Óóóó! Calma! Calma! Está tudo bem!
Esboçou um sorriso, que lhe saiu amarelo-vivo, e acrescentou:
— Sou eu, o Serra, Chefe de Protocolo Para Contactos com Espécies não-Humanas. Alta figura do Estado. Vocês conhecem-me. Essa senhora é a Joanina Grandelasca, que trabalha comigo, e o jovem tem-me ajudado, como se pode ver pela cor da camisa. Tudo legal, no mais alto interesse do Estado. Certo?
Os casacos pretos entreolharam-se, acenaram uns para os outros e baixaram as pistolas. Um deles, certamente o mais graduado, falou:
— Pedimos desculpa, doutor. Mas estes dois indivíduos sem credenciais de segurança tentaram introduzir-se no dirigível, transportando objectos não-credenciados. É nosso dever detê-los para proceder a averiguações e avaliar o grau de risco que representam para a segurança do Estado, e remover imediatamente os objectos do local.
— Fui eu quem os mandou buscar — disse Serra — quer a eles, quer aos aparelhos. São inofensivos, mas fundamentais para prestar assistência ao extraterrestre.
— Peço desculpa, doutor, mas sem uma ordem directa do Presidente, teremos de seguir os procedimentos regulamentares para estas situações. Portanto se nos der licença...
— Espere! Sabe que as minhas competências me foram delegadas directamente pelo Presidente?
O casaco negro hesitou.
— Com o devido respeito, doutor, não me consta que Vossa Excelência tenha competências a nível da segurança do Estado. Se nos der licença...
— Não dou! A mulher e o estafeta podem não entrar, mas eu preciso desses aparelhos. Pelo menos daquele que ali o seu amigo tem no saco de plástico. Imediatamente. Cada minuto conta.
— Lamento imenso, doutor, mas não posso fazer isso. Se nos der...
— Você percebe, por acaso, que o extraterrestre corre perigo de vida? — gritou Serra, começando a ficar desesperado.
— Não sabia, doutor, mas não vejo o que é que isso tem a ver com a segurança...
— Não vê?! Não vê?! Aquilo é um embaixador, criatura! Um embaixador duma espécie capaz de viagem interstelar! Que pensa que nos acontecerá a todos e à sua querida segurança do Estado se ele volta para casa com más notícias a nosso respeito ou, pior, se não volta para casa de todo?
— Mas os objectos não estão cert...
— Qual é o seu nome, agente?
— Sombrio, senhor. José Sombrio. Mas não estou a ver...
— Posto?
— Tenente da Brigada Aerotransportada da Agência Central de Informações, senhor.
— E não quer deixar entrar no dirigível os aparelhos necessários para prestar assistência ao primeiro embaixador extraterrestre da história humana, contribuindo para o eventual agravamento do seu estado de saúde e, eventualmente, podendo vir a ser directamente responsável pela sua morte, é isso?
— Bem... eu...
— É isso?
O casaco negro olhou para os colegas, em busca de apoio, com ar infeliz. Os colegas olhavam fixamente para o vácuo por baixo dos seus pés.
— Pergunto mais uma vez: É isso?
— Não, senhor!
— Então? Posso introduzir os aparelhos no dirigível?
— Bem... a seg...
— Posso-ou-não-posso?
— Sim, senhor! Aquele aparelho, senhor!
— E os meus colaboradores, podem entrar?
— Sim, senhor!
— Lindo menino! — disse Serra, com um suspiro de alívio e, fazendo sinal para a Grandelasca e para o estafeta, acrescentou: — Venham!
Desta feita, não foi preciso usar os cotovelos nem abrir caminho à força de empurrão. A discussão tinha conseguido a proeza de desviar da Tona (que se encaminhava para o desfecho, de qualquer forma, e já parecia decidida) o interesse dos presentes, e o rumor de que havia uma potencial bomba dentro do dirigível já se tinha espalhado por toda a barquinha, criando ondas de preocupação nos presentes e abrindo clareiras em torno dos técnicos e do extraterrestre.
Em situações destas, o ser humano tem capacidades insuspeitadas de encontrar espaço vazio onde nenhum existia antes.
Quanto aos agentes da segurança, ficaram a observar o trio que se afastava, com grandes gotas de suor frio a nascer devagar das suas testas profissionalmente impassíveis, levando inconscientemente as mãos ao pescoço, tentando afastar a corda invisível que sentiam a apertá-lo, cada um pensando no azar insuperável de ter acontecido uma coisa daquelas precisamente no seu turno.
Pois é. O azar é parte da vida.
Serra tinha-se esquecido de avisar (ou de mandar avisar) a segurança da chegada daquele material. Ele próprio entrara sem qualquer problema porque já o conheciam. Trouxera o tradutor automático sem ser interceptado porque antes de colocar o aparelho ao serviço da comunicação com o Presidente, ainda lá em baixo, no palácio, os serviços secretos tinham-no examinado com todo o cuidado, para ver se era inócuo ou se traria, algures nos recônditos impenetráveis do seu interior biomecânico, uma super-arma qualquer. Mas a Grandelasca, e especialmente o material que transportava, não tinham autorização de segurança. Não tinham entrada automática em todos os lugares presidenciais. Muito menos no dirigível, em dia de Tona, um dos mais sensíveis locais do planeta.
Serra coçou a cabeça, indeciso. Devia ir ajudar, mas não podia deixar o ET ali sozinho. E se alguém o pisasse, pontapeasse ou esmagasse?
Por outro lado, quando chegara ele estava abandonado no chão e nada lhe acontecera de mais grave do que algo ou alguém lhe ter desencaixado o filtro atmosférico, o que podia até ter acontecido no momento em que o hoog caíra, sem intervenção de nenhuma força exterior à gravidade.
Mas e se o ET acordasse? Tinha de ter alguém que o introduzisse lentamente à situação e não o deixasse ver imediatamente o lugar onde se encontrava. Ou, melhor, o lugar acima do qual se encontrava...
O certo era que tinha de ir ajudar. Sem os aparelhos que a Grandelasca trazia, a probabilidade de o embaixador conseguir embaixadar em tempo útil eram remotas. Especialmente sem aquele aparelhómetro alienígena que mais dúvidas e cuidados devia levantar à segurança. Nem mesmo Serra estava muito convencido da sua inocuidade: a maior parte das funções da máquina, tão orgânica como o tradutor automático e mais misteriosa ainda, eram totalmente desconhecidas dos terrestres, que se limitavam a usá-la seguindo aquilo que fora possível decifrar das instruções recebidas dos hoog, um gigantesco ficheiro de quase três terabytes do qual só tinha sido decifrada uma percentagem muito reduzida.
O que se decifrara, no entanto, mostrara que aquilo podia funcionar como um médico automático para a fisiologia hoog.
Era imperativo que a segurança deixasse passar aquela máquina!
Serra olhou em volta, à procura de alguém que fosse suficientemente de confiança para ficar a guardar o extraterrestre enquanto ele ia conversar com a segurança e voltava. Não viu ninguém. Muitos dos que o rodeavam, parte da comitiva presidencial, mostravam-se ausentes, ou fechados em si próprios numa melancolia derrotada, imitando o futuro ex-presidente que continuava a fitar as peripécias da Tona com olhos aguados. Outros olhavam em volta, aparentemente à procura de alguma coisa. Outros ainda conversavam em sussurros conspiratórios, pelos comunicadores, com interlocutores invisíveis que lhes respondiam ao ouvido palavras cujo significado só era aparente pelas reacções inconscientes que causavam na fisionomia dos futuros ex-membros do gabinete. Cada um absolutamente absorvido nos seus próprios assuntos, cada um perdido nas paisagens cinzentas dos seus próprios pensamentos, nos montes e vales (mais vales que montes, naquele momento) dos seus territórios privados.
Eram todos imprestáveis. Sem excepção.
E entretanto, a confusão junto à porta subia de tom. Serra espreitou uma vez mais por sobre o mar de cabeças, que se começavam a voltar com maior insistência naquela direcção, incomodadas pelo ruído e curiosas com aquela perturbação da ordem pública (o que não deixava de ser irónico, se se tivesse em conta a gritaria que imperava naquele lugar — aparentemente uma coisa era gritar a favor ou contra os acontecimentos da Tona, e outra muito diferente era gritar a propósito de um conflito de interesses relacionado com o acesso ou não ao local. Mesmo que as palavras fossem quase iguais e os decibéis também). A Grandelasca tentava esbracejar, já sem o sintetizador nas mãos, agarrada por três dos casacos de basebol negros da segurança, disparando o mais sonoramente que era capaz longas rajadas de insultos e apelos, nos quais o nome Serra fazia aparições frequentes. Um quarto casaco negro afastava-se em direcção à saída, com um saco de plástico na mão, bem afastado na sua frente, contendo um sintetizador não muito bem tratado, que segregava muco cor de rosa com ar desanimado. Dos restantes aparelhos, já não havia nem sinal.
Merda!, pensou Serra, começando a correr em direcção da entrada, afastando quem quer que se lhe atravessasse no caminho com empurrões, encontrões, rasteiras, cotoveladas, insultos, o que fosse preciso, enquanto berrava:
— Parem! Parem! Parem! Parem!...
Pararam. Uma investida daquelas pararia qualquer um.
Mas os casacos negros, parando embora, sacaram das suas pistolas tranquilizantes e apontaram-nas ao investidor, pelo sim pelo não.
Serra, por sua vez, quando se apercebeu de que se tinha transformado em ponto de mira para um conjunto letal de pistolas tranquilizantes, um autêntico alvo Rorscharch em movimento, também parou, ergueu as mãos acima da cabeça e gritou:
— Óóóó! Calma! Calma! Está tudo bem!
Esboçou um sorriso, que lhe saiu amarelo-vivo, e acrescentou:
— Sou eu, o Serra, Chefe de Protocolo Para Contactos com Espécies não-Humanas. Alta figura do Estado. Vocês conhecem-me. Essa senhora é a Joanina Grandelasca, que trabalha comigo, e o jovem tem-me ajudado, como se pode ver pela cor da camisa. Tudo legal, no mais alto interesse do Estado. Certo?
Os casacos pretos entreolharam-se, acenaram uns para os outros e baixaram as pistolas. Um deles, certamente o mais graduado, falou:
— Pedimos desculpa, doutor. Mas estes dois indivíduos sem credenciais de segurança tentaram introduzir-se no dirigível, transportando objectos não-credenciados. É nosso dever detê-los para proceder a averiguações e avaliar o grau de risco que representam para a segurança do Estado, e remover imediatamente os objectos do local.
— Fui eu quem os mandou buscar — disse Serra — quer a eles, quer aos aparelhos. São inofensivos, mas fundamentais para prestar assistência ao extraterrestre.
— Peço desculpa, doutor, mas sem uma ordem directa do Presidente, teremos de seguir os procedimentos regulamentares para estas situações. Portanto se nos der licença...
— Espere! Sabe que as minhas competências me foram delegadas directamente pelo Presidente?
O casaco negro hesitou.
— Com o devido respeito, doutor, não me consta que Vossa Excelência tenha competências a nível da segurança do Estado. Se nos der licença...
— Não dou! A mulher e o estafeta podem não entrar, mas eu preciso desses aparelhos. Pelo menos daquele que ali o seu amigo tem no saco de plástico. Imediatamente. Cada minuto conta.
— Lamento imenso, doutor, mas não posso fazer isso. Se nos der...
— Você percebe, por acaso, que o extraterrestre corre perigo de vida? — gritou Serra, começando a ficar desesperado.
— Não sabia, doutor, mas não vejo o que é que isso tem a ver com a segurança...
— Não vê?! Não vê?! Aquilo é um embaixador, criatura! Um embaixador duma espécie capaz de viagem interstelar! Que pensa que nos acontecerá a todos e à sua querida segurança do Estado se ele volta para casa com más notícias a nosso respeito ou, pior, se não volta para casa de todo?
— Mas os objectos não estão cert...
— Qual é o seu nome, agente?
— Sombrio, senhor. José Sombrio. Mas não estou a ver...
— Posto?
— Tenente da Brigada Aerotransportada da Agência Central de Informações, senhor.
— E não quer deixar entrar no dirigível os aparelhos necessários para prestar assistência ao primeiro embaixador extraterrestre da história humana, contribuindo para o eventual agravamento do seu estado de saúde e, eventualmente, podendo vir a ser directamente responsável pela sua morte, é isso?
— Bem... eu...
— É isso?
O casaco negro olhou para os colegas, em busca de apoio, com ar infeliz. Os colegas olhavam fixamente para o vácuo por baixo dos seus pés.
— Pergunto mais uma vez: É isso?
— Não, senhor!
— Então? Posso introduzir os aparelhos no dirigível?
— Bem... a seg...
— Posso-ou-não-posso?
— Sim, senhor! Aquele aparelho, senhor!
— E os meus colaboradores, podem entrar?
— Sim, senhor!
— Lindo menino! — disse Serra, com um suspiro de alívio e, fazendo sinal para a Grandelasca e para o estafeta, acrescentou: — Venham!
Desta feita, não foi preciso usar os cotovelos nem abrir caminho à força de empurrão. A discussão tinha conseguido a proeza de desviar da Tona (que se encaminhava para o desfecho, de qualquer forma, e já parecia decidida) o interesse dos presentes, e o rumor de que havia uma potencial bomba dentro do dirigível já se tinha espalhado por toda a barquinha, criando ondas de preocupação nos presentes e abrindo clareiras em torno dos técnicos e do extraterrestre.
Em situações destas, o ser humano tem capacidades insuspeitadas de encontrar espaço vazio onde nenhum existia antes.
Quanto aos agentes da segurança, ficaram a observar o trio que se afastava, com grandes gotas de suor frio a nascer devagar das suas testas profissionalmente impassíveis, levando inconscientemente as mãos ao pescoço, tentando afastar a corda invisível que sentiam a apertá-lo, cada um pensando no azar insuperável de ter acontecido uma coisa daquelas precisamente no seu turno.
Pois é. O azar é parte da vida.
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