segunda-feira, 25 de Agosto de 2008

5.

SERRA ERA O NOME por que era conhecido o Chefe de Protocolo. E, no momento em que o Presidente deu a sua ordem esganiçada, o Serra, objecto dessa ordem, encontrava-se no laboratório, num afã, lutando freneticamente contra a resistência do tradutor automático em ser recalibrado. Minutos mais tarde, quando o estafeta portador da ordem presidencial entrou esbaforido na sala, o Serra recitava o Canto Terceiro dos Lusíadas (Com Tingitânia entesta; e ali parece / que quer fechar o mar Mediterrano) para o filamento que servia ao tradutor de microfone, ou de bocal, e que se erguia de uma zona descolorida da coisa de aspecto orgânico e sem uma forma de que se pudesse dizer “Olha, parece-se com tal coisa”, ou “Tem assim a forma disto e tal”, que era a máquina propriamente dita. Esta, para variar, parecia satisfeita, traduzindo a velhíssima obra do poeta português há muito morto para um conjunto incompreensível de estalidos em ultrassom, cuja modulação era atentamente seguida por um batalhão de quinze técnicos e respectivos ecrãs e demais aparelhagem, toda ela reluzente de nova, toda ela retorcendo-se em volutas e espirais, como exigia a moda mais recente do design high-tech, inspirada em ilustrações antiquíssimas, a preto e branco ou em desfocados padrões de três cores, dos primórdios da Era das Revistas de Papel. Os técnicos é que não se mostravam lá muito satisfeitos, porque, tanto quanto eles eram capazes de entender os padrões linguísticos dos hoog, a tradução até podia estar a acontecer com grande suavidade, mas estava quase toda errada.

O estafeta parou à porta, respirando pesadamente, sem fôlego, e tentou pigarrear para chamar a atenção do Chefe de Protocolo Serra (Com nações diferentes se engrandece), mas sem resultado. Depois tentou a tosse (Todas de tal nobreza e tal valor), velho maneirismo de discrição que, embora fosse quase tão velho como as regras da boa educação, obteve resultado idêntico. Finalmente (Já foram, contra a gente Mahometa), dado o falhanço das tácticas indirectas, tentou o ataque directo sob a forma de um murmúrio:

— Senhor Serra...

— Raios te partam, criatura! Não vês que estou ocupado? Não vês que estou a meio duma operação delicada? Porra! — explodiu o Serra, esquecendo-se por completo de que o bocal do tradutor automático se encontrava ligado e atento mesmo em frente da sua fúria. O tradutor, a meio do processo de recalibração, totalmente ignorante quanto à pertença ou não daquelas palavras à velha epopeia decassilábica lusitana, pegou nelas e traduziu-as, integrando-as o mais harmoniosamente que lhe foi possível na versão em hoog d'Os Lusíadas, canto terceiro. Os técnicos, assustados pelo grito, com a atenção desviada dos seus monitores pela iminência de violência física que as palavras exaltadas deixavam entrever, nada notaram de invulgar.

— P-p-perdão, s-senhor — tartamudeou o estafeta, assustadíssimo — mas... mas Sua Excelência chama por... por... por Vossa Excelência.

— Arre! Que espere! — berrou o chefe de protocolo. Mas, depois de uma pausa em que só se ouviu na sala o som da sua respiração acelerada, achou por bem corrigir: — Não. Diz-lhe que vou já. Daqui a cinco minutos.

Afinal de contas, o “ele” ali implícito era o homem mais poderoso do mundo. Convinha ter algum cuidado...

Serra virou-se de imediato para o tradutor automático (que continuava a traduzir tudo, fazendo os possíveis por que esta conversa fizesse sentido como sequência para "tem o Galego cauto e grande e raro / Castelhano, a quem"), suspirou, e recomeçou a recitar o canto terceiro, em voz tensa:

— Portanto... "fez o seu Planeta / restituidor de Espanha e senhor dela; / Bétis, Leão, Granada, com Castela"...

segunda-feira, 18 de Agosto de 2008

4.

AGORA JÁ PERCEBERAM o "bolas", não é verdade? O Presidente já não era o Arbusto, nem mesmo um Arbusto, mas não podia estar ausente da Corrida. Nunca! Nem por sombras! E muito menos por causa duma coisa tão insignificante como o Primeiro Contacto, conversas com ETs que não contribuíam para arranjar melhores atletas para a Tona seguinte, ou pelo menos não directamente, e nem adiantavam nem atrasavam relativamente a esta, que estava prestes a começar. Sim, porque ninguém acredita mesmo em ETs armados de milagrosas armas de raios que são capazes de concretizar num instante o mais insignificante ou o mais grandioso dos desejos, pois não?

Pois.

Estar ausente era pedir para perder a reeleição. Como poderiam correr bem os seus campeões sem o estímulo constante que lhes era transmitido através dos amplificadores? Como seria possível, sem os slogans presidenciais de apoio à equipa, espalhados por toda aquela zona da cidade em ondas de trovejante palavreado, contrariar os gritos de incentivo que a populaça entregava aos adversários? Sim, porque a populaça, essa ralé, essa cambada de ingratos, torcia sempre por quem não estava no poder!...

Sempre!...

Que podia ele fazer? Haveria alguma dúvida?

— Senhor Embaixador — decidiu-se, enfim, o Presidente —, se não estiver muito fatigado, atrever-me-ia a convidá-lo a assistir à mais importante tradição do nosso planeta a qual, por incomparável coincidência, está mesmo quase a começar.

Os humanos presentes na sala entreolharam-se e ouviu-se um bruáá de conversas abafadas enquanto o tradutor automático estalava e zumbia em ultrassons. Algures, lá fora, um cão ganiu.

Depois disso, foi o embaixador quem estalou e zumbiu em ultrassons durante um tempo considerável, numa linguagem inaudível para os terrestres, mas que os seus aparelhos traduziam visualmente em bonitos mas totalmente incompreensíveis esquemas coloridos, cheios de inflexões e ritmos subtis.

Quando o extraterrestre se calou, o tradutor automático chamou a si as luzes da ribalta:

Rzfarrtum. Iá, meu. Bora! — disse.

O burburinho aumentou na sala, e vários dos presentes mudaram de cor, tentando conter o inconveniente riso que os tomava de assalto, escondendo os olhos dos de quem os rodeava, com medo de perder o controlo se por acaso nalgum desses olhos alheios encontrassem idêntica hilaridade. Houve quem pigarreasse, houve quem olhasse para as rachas do tecto (inexistentes), houve quem verificasse o aprumo dos sapatos formais de ténis, houve quem franzisse o sobrolho devido a falhas micrométricas descortinadas no verniz das unhas, e houve mesmo quem não se contivesse, quem não resistisse, quem se descaísse. As duas ou três gargalhadinhas abafadas que se chegaram a ouvir foram, no entanto, suprimidas de imediato com a ingestão de um desumorizador sacado à pressa e à socapa de bolsos secretos embutidos no cós elástico dos calções. E assim se manteve a dignidade da ocasião.

O Chefe de Protocolo, esse, talvez tivesse ingerido o desumorizador em casa, antes da cerimónia. Ou talvez não precisasse, talvez fosse naturalmente desprovido do sentido do ridículo. O certo é que se manteve impassível e limitou-se a esclarecer em voz átona:

— Mil perdões, Senhor Presidente. Obviamente, o aparelho está a necessitar de ser recalibrado. É só um momento. — Virou-se para a coisa de ar orgânico e disse com voz clara e pausada: — Vossa Excelência, Agtar do Ninho de Madeira Verde e Mastigada, perdoar-me-á, mas sou obrigado a levar o tradutor para calibração. É só um momento.

Depois de ouvir a tradução, o extraterrestre limitou-se a sacudir os braços superiores, num movimento rápido. O Chefe de Protocolo, com uma vénia, calçou um par de luvas grossas e agarrou no aparelho, resmungando para os seus botões enquanto se encaminhava para a porta:

— Espero que aquilo tenha sido um assentimento!...

O Embaixador ficou, pois, sozinho com o Presidente e com os restantes terrestres presentes na sala, sem quaisquer possibilidades de comunicação.

Passaram-se alguns minutos de algum desconforto, aproveitados pelos humanos para sussurrar circunspectamente coisas importantes ao ouvido uns dos outros, e para trocar sorrisos tímidos e acenos de circunstância. Ao Presidente, cada vez mais nervoso, tremia-lhe a perna esquerda, e as mãos não largavam a poupa, ajustando-lhe forma e grau de inclinação em movimentos compulsivos. Sempre que o seu olhar encontrava o pequeno extraterrestre, os lábios arreganhavam-se-lhe num sorriso breve, e a cabeça inclinava-se-lhe num leve aceno, independentemente da sua vontade, como se um e outro órgão estivessem em piloto automático.

E só podiam estar, porque o pensamento, esse, estava muito longe dali.

Nisto, um assessor de cerimónia (nome pomposo atribuído aos moços de recados presidenciais que substituíam as telecomunicações com grande desvantagem na eficiência mas com grande vantagem na capacidade de impressionar) assomou à porta, trocou com o Presidente um par de mensagens não-verbais, e quando este lhe fez um aceno, aproximou-se em passo enérgico e murmurou-lhe ao ouvido:

— Vai começar, Senhor Presidente.

Sem pensar, o grande líder arrancou na direcção da porta que o levaria ao dirigível que, segundo a tradição, servia de tribuna presidencial para a Corrida da Tona. Ao chegar à soleira, no entanto, caiu em si, hesitou, olhou para o extraterrestre, soltou um suspiro fraco mas audível naquela sala em que caíra um silêncio quase completo, fez um movimento hesitante, que pretendia ser um sinal para que o embaixador o acompanhasse, mas que nem foi compreendido pelo hoog nem por nenhum dos seres humanos ali presentes, voltou a hesitar e, por fim, já visivelmente irritado, perguntou em voz alta:

— Alguém sabe como se diz a esta coisa para vir connosco?

Ninguém disse nada. Mas mais desumorizadores foram sacados à pressa.

Chamem-me o Serra!

segunda-feira, 11 de Agosto de 2008

3.

NA ALTURA TODA A GENTE se riu, incluindo o próprio Cisco Sadio. Houve gargalhadas no estúdio, houve gargalhadas nos estados-maiores das candidaturas, houve gargalhadas em quase todas as casas que tinham a Interactiva ligada naquele momento, e houve gargalhadas mais tarde em muitas outras casas espalhadas pelo mundo, à medida que aquela sugestão absurda (daí as gargalhadas) ia sendo repetidamente retransmitida por quase todos os media de alguma relevância a nível global. Sadio transformou-se numa figura reconhecida por todos, o que lhe trouxe compensações e dissabores em partes iguais. Por um lado, enriqueceu. Por outro, deixou de poder sair à rua sem deixar atrás de si um rasto de sorrisinhos e gargalhadinhas abafadas, quando não era alvo de chacota directa e honesta.

Arbusto, no entanto, não se riu. Não só porque no dia seguinte toda a gente falava da ideia de Sadio e não do seu discurso de vitória, cuidadosamente preparado pelo seu staff ao longo de duas semanas e sistematicamente sabotado por ele próprio, com os seus sucessivos e habituais enganos, falhas de pronúncia e improvisações desastradas, como também porque, dizem as más línguas, não percebeu a piada e, pelo contrário, achou a ideia genial.

Seja isto verdade ou não, o que é certo é que quatro anos mais tarde o país assistia à primeira Corrida da Tona, corrida no mesmo dia das eleições, e transmitida no canal TodoSpor, da interactiva, e também, pela primeira vez com imersão completa, na virtual. Arbusto ganhou ambas as competições. Na Tona venceu por larga margem, visto os seus adversários terem investido pouco na corrida — afinal de contas, era a primeira vez —; nas urnas, pelo contrário, e apesar de uma abstenção recorde de 93,4%, venceu à tangente, o que o terá convencido em definitivo das vantagens do método da Tona sobre o eleitoral. Nas eleições seguintes, quatro anos depois, já não houve eleições propriamente ditas — só Tona.

Dessa vez, Arbusto não esteve presente. Tinha resolvido montar no palácio um sistema sofisticado de televisionamento da corrida e organizou uma recepção a todo o corpo diplomático para mostrar ao mundo, ali, em directo mas não ao vivo, o triunfo que previa tão estrondoso como na corrida anterior.

Mas daquela vez os adversários tinham-se preparado, e Arbusto foi derrotado, o que lhe causou um dos maiores ataques de fúria de toda a vida, transmitido em directo para o mundo inteiro.

Foi um sucesso. As audiências dispararam até níveis nunca vistos anteriormente.

E por isso, sob pressão dos media locais e globais, no resto do planeta outros países começaram a implantar sistemas semelhantes até que, com a Unificação (também conhecida como o Grande Golpe do Cartel Vegetal, ou GGCV), o sistema se tornou global. Bastaram meses para que, entre muitas outras mudanças menores, se tornasse obrigatória a tradução dos nomes para a língua franca mundial (uma espécie de inglês simplificado e cheio de palavras importadas), se adoptasse uma moeda única, o doleuro, se proibisse o ateísmo e se proclamasse a incontestável veracidade de todas as religiões reconhecidas pelo Estado, ainda que este fosse separado daquelas, e se decretasse que o palácio do Governo Central e arredores passariam definitivamente a servir de palco às Tonas, sempre com os presidentes presentes a fim de torcer pelos seus atletas.

Tinha sido atingida a Utopia.

Ou a Distopia, vá-se lá saber...

segunda-feira, 4 de Agosto de 2008

2.

— MARIA! LARGA ISSO! Anda ver, que tá quase a começar!

Lá fora, o ruído do trânsito era ensurdecedor. Veículos de todos os tamanhos, cores e cheiros cruzavam-se nos corredores caóticos da cidade, enchendo o ar de buzinas e do ruído de motores. Sacolejantes díeseis raspavam por velhos gasolinas, repletos da dignidade fragilizada da aristocracia decadente, e estes competiam com gases naturais, mais modernos mas mais pachorrentos. Motores engasgavam-se, exalando fumos e cheiros oleosos que entravam pela janela aberta, trazendo consigo o bafo escaldante da canícula. A era do petróleo chegava ao fim, mas a avaliar pelo nariz ninguém diria

— Já vou, Alfredo, já vou. Tenho de ligar a máquina de lavar. — gritava Maria da cozinha, a voz abafada pelas curvas e contracurvas do corredor.

— Zé, tu vens? — insistia o homem da casa, agora gritando na direcção oposta, para o quarto do filho. Nenhuma resposta. Outra tentativa: — Zé, tu tás-me a ouvir, ou tás outra vez metido nessa merda da virtual?

Nada. Nem um pio, que de qualquer forma teria sido abafado pelo rugido do voo intercontinental da semana, que aterrava naquele momento, queimando naqueles poucos segundos finais de voo tanta querosene quanta a que todo o orçamento anual daquela família teria podido comprar.

Alfredo levantava-se, resmungando, levando a mão à pontada habitual no fundo das costas, e entrava no quarto do puto sem pedir licença. Pegava no microfone esquecido ao lado do portátil, ligava o botão e gritava (não havia necessidade, até assustava o filho lá na virtual, mas nunca resistia à tentação de gritar):

— Zé, tá a começar. Vens ou não vens?

Zé saltava na cama, enrodilhando-se nos fios, e dessubmergia num rompante, berrando, por sua vez:

— Porra, velho! Raio de susto! Já vou! Caraças! Chatice! Sempre a mesma merda! Porra! Caraças! — e por aí fora, um rio de palavras sincopadas pelas setas verticais dos pontos de exclamação e pelas batidas aceleradas do seu coração assustado.

Alfredo regressava à sala, com um sorrisinho a saltitar entre o lábio superior e o inferior (um sorrisinho de cabrão, pensava o filho sempre que o entrevia), e voltava a instalar-se no sofá, na frente da TV interactiva, reapoderando-se do comando e recomeçando a praticar o seu desporto favorito: telezapping.

Passados cinco minutos, chegava Zé, esfregando as olheiras e coçando a nuca despenteada, e perguntava, ainda com a irritação a mostrar-se na rouquidão da voz: — Atão? Não tinha já começado?

— Tá nos anúncios — respondia o pai, enquanto fixava a imagem por uns 20 segundos numa tórrida cena de sexo explícito que teria enchido a casa de gemidos se o som não estivesse desligado, sobrepondo-se, pelo menos em interesse, ao contínuo ruído de fundo do trânsito. O pai lembrava-se então de que tinha ali ao lado o seu rebento mais novo, ainda adolescente, ainda sujeito às suas responsabilidades educativas, e mudava rapidamente de canal e de assunto: — Sabes da tua irmã?

— Ná. Anda por aí — respondia Zé, irritação subitamente desvanecida. — Mas mete lá isso onde estava, que eu queria ver uma coisa prá...

— Rapazinho engraçadinho — interrompia Alfredo, rosnando um bocadinho, deitando um olhar de esguelha ao filho. — Senta-te aí sossegado, que tá mesmo quase. Maria!

A mulher não lhe dava resposta, mas ouvia-se de repente o ruído de um aparelho eléctrico e decrépito que estrondeava na cozinha, calando-se de seguida, voltando a tossir uma, duas vezes, e finalmente começando a trabalhar de forma contínua, ainda que pouco firme, ao mesmo tempo que se ouvia o habitual guincho — Ai! — que Maria dava sempre que se endireitava, por causa da espandelose que os comprimidos que o médico lhe receitara, Ossex, curariam em dois ou três meses, mas que ela se recusava a tomar, vá-se lá saber porquê.

Reunia-se então, e por fim, a família quase completa em frente ao visor, mesmo a tempo de assistir ao início do programa. Abria este numa cacofonia que se pretendia impressionante, em som estéreo surround 3D, e com o ecrã desmultiplicado em miríades de imagens de rostos, que surgiam e se esfumavam tão rapidamente que quase não era possível reconhecer quem quer que fosse.

Quase.

Mas mesmo que fosse de todo impossível esse reconhecimento, mesmo que as imagens se confundissem por completo na nuvem desfocada em que ameaçavam transformar-se, todos os presentes conheciam na perfeição os rostos dos candidatos a presidente, a vice-presidente e a membros do governo, com pasta ou sem ela. Jorge Arbusto d’Oliveira e os outros. As imagens deles estavam por todo o lado, e nenhum perdia uma oportunidade de aparecer, por ínfima que fosse. Eram aparições nos noticiários, sorrisos de pasta dentífrica a relampejar em direcção aos olhos desprevenidos de quem calhasse olhar, eram os tempos de antena não anunciados que interrompiam a telenovela e o futebol, penteados milimetricamente domados a lançar mensagens subliminares de competência e ordem, eram anúncios ao produto X ou Y, protagonizados por um ou outro (ou até vários) dos candidatos, vozes artificialmente melhoradas a ressoar em frequências sedutoras para os membros de um ou de outro sexo, eram as imagens de arquivo do último escândalo sexual ou financeiro, e os candidatos mostravam que apesar de tudo eram humanos como você aí em casa, etc., etc., etc. Os políticos eram omnipresentes e quase pareciam ser também omnipotentes na interactiva. E até começavam já a dar os primeiros passos também na virtual.

— Ó velho, — perguntava Zé com voz ensonada — tu não tinhas dito que desta vez ias votar?

Alfredo encolhia os ombros, e observava a actividade de Maria, que ajeitava meticulosamente o vestido de tecido sintético e elástico que lhe envolvia o corpo, fazendo sobressair cada uma das pregas de gordura em que se ia derretendo com a idade, mas que, segundo ela dizia, era não só muito confortável como, e acima de tudo, altamente. E quando Maria dizia que uma coisa era altamente, não valia a pena tentar contradizê-la porque ela nunca se deixava convencer, por mais racionais que fossem os argumentos.

Argumentos?

Racionais?

Que é isso?

— Pois disse, mas não fui. Nem eu nem a tua mãe. E depois? Seja como for não serve de nada... — resmungava Alfredo, sentindo-se vagamente culpado apesar do que dissera, pois pura e simplesmente se esquecera por completo de carregar no botão do telecomando que o levaria ao Elections Channel, onde 16 movimentos do indicador seriam suficientes para cumprir o velho e desacreditado dever cívico.

— OK, OK — dizia o filho, levantando os braços com indolência. — Perguntar não ofende! Chiça!

— Deixa o teu pai, Zé — ordenava a mãe, na sua primeira e última intervenção na conversa. — Ele tem mais em que pensar.

Zé olhava para a mãe pelo canto do olho, encolhia os ombros, suspirava e não dizia nada.

Entretanto, terminava o genérico e o rosto bronzeado de um dos clones precocemente envelhecidos do José Alberto Carvalho (que na realidade não passavam de simulações por computador colocadas por cima da imagem de um sósia — mas isso era um segredo muito bem guardado e, apesar dos boatos, quase todos acreditavam tratar-se do produto genuíno), apresentador de televisão morto um par de décadas antes, célebre no país e arredores culturais, começava a anunciar, com um entusiasmo gritante incaracterístico na sua voz grave, os últimos dados daquela tarde eleitoral:

— Encerradas as votações, — esganiçava-se o Zé Alberto artificial, — os resultados estão agora disponíveis para consulta na virtual, Elections Channel 3D, mediante pagamento da módica quantia de 99 euros e 45 cêntimos, e ser-vos-ão dados por nós, aqui, em rigoroso exclusivo da interactiva gratuita, logo a seguir a um breve intervalo. Não saia do seu lugar.

O intervalo, como é evidente, era tudo menos breve. Alfredo, dono e senhor do telecomando, navegava pelos menus de opções da publicidade interactiva sem se preocupar minimamente com a opinião ou a vontade do resto da família. Acabou por encomendar uma blusa às flores para oferecer à mulher, perante a indiferença desta, e um conjunto de almofadas para espalhar pelo sofá, que as que lá tinha começavam, achava ele, a ficar gastas e a gerar grumos que lhe iam afligir as costas. Tudo do mais baratucho, que a vida não estava para brincadeiras. O puto ainda insistia com o pai para que este lhe arranjasse um novo conjunto de programas de intensificação táctil para a sua ultrapassadíssima aparelhagem virtual, mas sem grande insistência ou esperança, visto que conhecia bem a atitude do velho perante essas coisas.

Ainda havia intervalo quando um apito saía da porta, e a irmã mais velha de Zé, Sara, entrava em casa, trazendo consigo uma nuvem de perfume barato e de cheiro e ruídos de escada.

— Então? Já começou? — perguntava, enquanto toda ela tilintava graças aos bocadinhos de metal multicolorido que lhe cobriam os dedos, os pulsos e o pescoço e lhe pendiam das orelhas e do nariz.

— Tá quase — resmungava o pai. — Por onde andaste?

— Oh, por aí — respondia Sara, sem se dar conta da banalidade da situação e da conversa. E mesmo se tivesse perspicácia e conhecimentos para reparar nesse detalhe, dificilmente se importaria. Não era mulher para se prender em pensamentos mais profundos que as pequenas nuances sociais do seu dia-a-dia e do seu círculo de conhecimentos pessoais. Nem valia a pena perguntar-lhe se tinha votado. A resposta era clara e evidente, e se o caro leitor não sabe qual é, feche o livro e comece a passear com mais frequência.

— Volto já. Vou à casa de banho. — anunciava em seguida, dando uma meia-volta tilintante e desaparecendo corredor fora.

Alfredo ainda abanava a cabeça num gesto de reprovação resignada, quando voltava a surgir no ecrã da interactiva a cara bronzeada e sorridente do pivot, José Alberto Carvalho.

— Bem vindo ao nosso canal! Espero, em nome da equipa que leva até si este especial eleições, que as compras tenham sido a seu gosto. Tudo produtos da maior qualidade, certificados pela Associação Nacional de Televendas, em rigoroso exclusivo para si, o nosso espectador preferido. Mas não vamos perder mais tempo e seguimos já de seguida para o nosso centro de análise, onde os comentadores residentes do Jornal do Mundo se preparam para analisar os resultados das eleições que terminaram há minutos. Boa noite, meus senhores. Contrariamente ao que era indicado por metade das sondagens, foi Jorge Arbusto d’Oliveira o vencedor destas eleições e, portanto, será Arbusto d’Oliveira o presidente do país durante o próximo mandato. Aproveito para dizer que a intervenção do presidente eleito está marcada para dentro de dez minutos na sede de campanha, onde já se começam a juntar os principais apoiantes. Dr. Rogério Nunes, que nos pode dizer da vitória de Arbusto d’Oliveira? Foi surpresa?

— Bem, — respondia o interpelado, afastando a poupa dos olhos — foi e não foi. Já se sabia que, obviamente, Arbusto tinha boas possibilidades de vencer, dadas as suas ligações aos mercados e vistos os fundos dispendidos na sua campanha. Mas realmente a magnitude da vitória foi algo surpreendente. Não é sempre que, nomeadamente, o candidato da direita clássica alcança uma vitória à primeira volta por números tão expressivos, e...

— Este gajo é uma autêntica matraca — comentava Zé, enfiando o dedo médio da mão direita na narina esquerda — que seca!

— Cala-te, puto. Deixa ouvir.

Zé encolhia os ombros, olhando com alguma inveja o comando que descansava na mão do pai. Entretanto, indiferente ao que se passava naquele e em milhões de lares semelhantes país fora, Rogério Nunes prosseguia:

— ... não é possível neste momento prever como irá decorrer, efectivamente, o mandato de Arbusto. Mas uma coisa é certa: algo irá mudar...

— Aproveito essa deixa, Dr. Nunes — e já voltamos a si daqui a bocadinho — para apresentar aos nossos espectadores (e não se esqueça, você aí em casa, de que tem acesso à mais variada gama de produtos no canal 18 da Interactiva. Basta digitar o código que aparece no canto inferior direito do seu ecrã e obterá magníficos descontos junto dos nossos patrocinadores), como dizia: para apresentar aos nossos espectadores o nosso outro convidado. Dr. Cisco Sadio, que nos pode dizer do resultado destas eleições?

— É evidente que é um resultado manipulado num acto eleitoral profundamente antidemocrático, em que, e tal como disse o Dr. Rogério Nunes, quem elegeu de facto o presidente foi o poder económico de uns quantos...

— Desculpe, mas eu não disse nada disso! — interrompia Nunes — O que eu disse foi que...

— Se não me interrompesse — contra-interrompia Sadio, conseguindo sobrepor a sua voz sussurrada à voz potente do outro comentador, fenómeno que deixava sempre perplexos os espectadores e que em muito contribuía para aumentar a sua popularidade — talvez conseguisse compreender o que eu quero dizer.

— Já começam — resmungava, por seu turno, Alfredo, e Zé confirmava:

— Iá. É sempre a mesma merda. Ninguém consegue dizer nada até ao fim. Pai, põe aí isso no...

— Chiu! — ordenava Alfredo, fazendo com que o permanente sorriso de Maria esmorecesse um pouco. Não gostava nada de discussões na família.

— ...mente não podemos consentir que continue esta pouca-vergonha que é termos eleições que não interessam a ninguém… e o desinteresse é activamente incentivado por todos os... desculpe... eu não o interrompi, portanto se fizer favor... desculpe... ó doutor Nunes, toda a gente sabe de onde veio o dinheiro para a campanha de Arbusto, quem lhe pagou os talk-shows na Interactiva, para quem ele gravou anúncios, quem lhe escreve os gags que põem milhões de cidadãos a rir-se do que ele diz (sem prejuízo do talento natural que tem, e que eu sou o primeiro a reconhecer, para dizer disparates genuínos e originais), enfim, quem lhe oleia a máquina! Toda a gente já percebeu tudo isto, e daí boa parte do desinteresse popular pelas eleições... deixe-me só concluir, Zé Alberto Carvalho... toda a gente já percebeu que não serve de nada votar quando o voto está condicionado ao poderio financeiro dos candidatos. Desculpe... ó Dr. Nunes... Dr. Nunes... desculpe... deixe-me concluir o meu raciocínio... diga-me... Dr. Nunes, diga-me só se se admitem taxas de abstenção de 87%? Oitenta-e-sete-por-cento?! Em cada dez cidadãos, nove nem sequer se dignaram ligar para o Elections Channel! As audiências do EC foram pavorosas, mesmo durante a transmissão do concerto dos Silêncio! Isto admite-se?...

— Pois... — começava Zé, mas calava-se de imediato ao ver a olhadela perigosa que o pai lhe enviava. Cisco prosseguia:

— Desculpe, e eu sei que estou a falar mais do que devia, mais tarde logo se faz a compensação dos tempos, e prometo que fico calado, mas o que é certo é que o nosso regime chegou a um ponto que só tem um nome: ridículo. A continuar assim, mais vale que o presidente seja escolhido por sorteio, ou por outro método qualquer esquisito. Qualquer coisa é melhor que esta palhaçada. Olhe, ponha-se os candidatos a correr uma maratona e entregue-se o cargo a quem conseguir chegar ao fim, por exemplo! Não há-de ser um método pior, ou mais anti-democrático, que este...