segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Por Vós lhe Mandarei Embaixadores - o livro

Por Vós lhe Mandarei Embaixadores
Autor: Jorge Candeias
ISBN: 978-989-8072-19-1
172 páginas | 2013
Por Vós lhe Mandarei Embaixadores é agora um livro. Coisa física e tridimensional, em papel e com páginas e tudo. Em versão revista do princípio ao fim, e modernizada relativamente ao que aqui foi publicado em 2008. Agora está mais bem escrito e mais escorreito e mais bonito e mais perfeito. Oh, sim, oh, sim. Mas há mais! O volume em papel também contém um posfácio, que faz parte integral da história mas nunca chegou a ser publicado online, e uma brevíssima introdução de uma página onde se explica a sua génese, a única das 172 que foi reservada para falar realmente a sério. O resto não é a sério. Ou então é, não sendo. Confusos? Leiam o livrinho, leiam.

Como? OK, estão a ver a fila de links ali em cima? Onde diz "como comprar" ensina, estranhamente, como comprar. Onde diz "fotos" mostra, por bizarro que pareça, fotos. E onde diz "contacto" chama um programa de email já com o endereçozito de contacto lá colocado como menino bem comportado.

E se quiserem ler a versão velha, meio tosca e bastante engralhada, pois ela continua disponível, que eu não sou gajo de deitar nada fora. Mas fiquem avisados: a versão do livro é melhor.

Um sentido de humor é que continua a ser indispensável. Sem ele, nada feito.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Índice

O romance Por Vós Lhe Mandarei Embaixadores compõe-se de 28 capítulos, e o que se segue é uma lista com links directos para todos eles, para maior conveniência dos leitores deste blogue.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

28.

A COMISSÃO DE INQUÉRITO aos acontecimentos daquela Tona, depois de arrastar os trabalhos ao longo de duas décadas, durante as quais encheu as páginas mediáticas com relatórios preliminares que, bem espremidos, não continham quase informação nenhuma, chegou às seguintes conclusões:

O principal responsável pelo fiasco tinha sido, claro, o Chefe de Protocolo Serra, que não soubera ou não quisera lidar convenientemente com o hoog, provocando uma série infindável de equívocos que levaram à partida intempestiva do extraterrestre, não sem antes ter agravado a situação ao lançar-se em corrida para a nave, tentando agarrar o extraterrestre, falhando apenas porque o hoog excretara uma densa camada de gosma que o tornara quase impossível de agarrar (uma reacção instintiva de autodefesa da espécie, aparentemente) e caindo estatelado no chão. Serra não chegou a ser condenado porque o seu corpo nunca chegou a ser encontrado. Ele ainda conseguira levantar-se e agarrar-se à nave, no momento em que esta descolava, tendo sido visto pouco depois a cair sobre o oceano, onde o último sinal da sua passagem sobre o mundo foi uma considerável quantidade de água que foi lançada ao ar, antes de cair e de o submergir para sempre.

A culpabilidade de Serra não ofereceu dúvidas, e se só ele estivesse envolvido naquele assunto, a comissão rapidamente teria chegado a um relatório final que contentasse toda a gente, sendo dissolvida de seguida. Mas havia mais gente envolvida. Gente muito importante.

O comportamento do presidente que naquela época estava demissionário provocou grande polémica, com a comissão de inquérito a alterar a sua apreciação, da condenação total e feroz à absolvição também total e feroz, consoante as inclinações de simpatia da administração que na altura estivesse a exercer o mandato. Em situação simétrica estava a apreciação do comportamento do então candidato Meneres: era considerado inocente quando o outro era apontado como culpado e vice-versa. Por fim, quando a comissão finalmente produziu o relatório final, o que nele vinha escrito era que não havia provas suficientes quer para incriminar quer para inocentar qualquer um deles. Para que se tivesse concluído por tal resultado inconclusivo, ambos gastaram todo o dinheiro das suas reformas, todo o dinheiro acumulado ao longo dos respectivos mandatos (nunca se percebe bem como, porque o salário nem é assim tão elevado, mas os presidentes têm tendência a enriquecer, e muito, na presidência), e muito do dinheiro dos mais fervorosos dos respectivos partidários. Quer um quer outro, acabaram os seus dias sem dinheiro e sem partidários.

A Grandelasca foi totalmente ilibada, graças em grande medida ao depoimento do estafeta que entretanto, passado o perigo, reaparecera em lugar de destaque. Este meteu-se, de facto, na política, chegando a vice-presidente muitas Tonas mais tarde, não sem antes ter feito quatro filhos. À Grandelasca, claro, embora as más-línguas garantam que nenhum dos rapazes é dele.

Quanto aos restantes intervenientes nesta história, cada um seguiu o seu caminho, acabando todos por encontrar o destino último que tudo o que é vivo encontra, mais tarde ou mais cedo. Até mesmo o hoog, Agtar do Ninho de Madeira Verde e Mastigada, de seu nome e título, que teve o azar da sua nave ter esbarrado num micrometeoro menos micro do que o habitual, enquanto viajava a velocidades relativísticas de regresso ao seu planeta natal, desaparecendo, nave e tripulante, numa nuvem de plasma sobreaquecido.

Todos os esforços posteriores da humanidade para contactar os hoog foram infrutíferos. Também não foram muitos, nem feitos com grande determinação. Muito antes da comissão de inquérito ter encerrado os seus trabalhos, já esses esforços tinham sido abandonados e esquecidos.

Fizera-se o que se podia fazer, disse-se, e depois desistira-se.

E assim terminou a rocambolesca história do contacto mais inconveniente e da Tona mais cheia de peripécias dos últimos dois séculos. Talvez um dia ainda aconteça coisa pior.

Aliás, isso é certo. Assim o dizem as leis da termodinâmica. E as de Murphy.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

27.

ASSIM QUE CONSEGUIU COLOCAR um tecto sobre a cabeça, Serra olhou para trás, para o jardim, onde o dirigível presidencial estremecia, mantendo-se fixo ao solo com dificuldade enquanto o balão procedia a um esvaziamento de emergência, e onde cadeiras começavam a esvoaçar em frente do palco, esbarrando umas de encontro às outras, embaraçando-se umas nas outras, criando pequenas pilhas rodeadas por zonas vazias

Então Serra olhou para cima e compreendeu que tinha cometido um tremendo erro. Procurou os candidatos e os dois presidentes entre as pessoas que o rodeavam, não encontrou nenhum deles, e hesitou, pesando as vantagens e as desvantagens de ir à procura dos políticos na multidão ou lavar deles as suas mãos, não se preocupar mais com tal espécie de gente, e regressar para junto do ET. Acabou por suspirar, encolher os ombros, voltar costas ao palácio e dirigir-se de novo para os jardins. Correu, ou tentou correr, de regresso ao palco, lutando desta vez contra uma ventania violenta que o tentava colar às paredes do palácio, impedindo-lhe o avanço com uma massa de ar que tinha quase a consistência de um muro. Um muro feito de tijolos de ar quente.

A debandada de toda aquela gente, aquele pânico todo, tinha sido parcialmente disparatado. Era certo que a permanência no jardim não teria sido muito saudável para os penteados e para a compostura dos vestidos, mas não teria havido qualquer perigo adicional para quem quer que fosse, à excepção de quem ocupasse uma pequena área próxima do centro daquilo que tinha sido a plateia. Porque a bola de fogo, que estava agora sobre o palácio, já não era uma bola de fogo. Continuava, é certo, a ser uma bola, mas tinha ganho excrescências que despejavam correntes de ar quente de encontro ao solo, e refulgia agora numa cor vermelha cada vez mais baça.

Tratava-se de uma nave atmosférica hoog. A segunda nave hoog que Serra via na vida, depois daquela que depositara o embaixador nos arredores da cidade, no início daquele dia, de uma forma bem menos espectacular do que aquela porque a sua descida de órbita tinha sido feita a pouco e pouco, ao longo de várias voltas ao planeta, dando tempo a que a travagem fosse relativamente lenta e, portanto, se acumulasse muito menos calor no casco. Agora, pelo contrário, a nave parecia ter descido em linha recta até ali, e em alguns minutos apenas, provocando aquele espectáculo assustador que levara à debandada da elite das elites como se de uma manada de gazelas assustadas se tratasse.

Serra pensou que devia haver naquele momento milhões de pessoas a rir às gargalhadas em frente de monitores espalhados pelo mundo inteiro.

E havia mesmo.

Quando voltou a subir ao palco, ofegante, viu que a Grandelasca e o ET se encontravam em amena cavaqueira, protegidos da maior força do vento pela cobertura, e se dirigiam calmamente para a escada oposta, segurando cada um o seu aparelho: a Grandelasca carregava o tradutor automático, o hoog transportava o sintetizador. Serra gritou, tentando chamar-lhes a atenção, mas o barulho era tanto que o seu grito foi atirado para a inexistência depois de percorrer dois ou três metros apenas através daquela atmosfera agitada. O Chefe de Protocolo pôs-se a ofegar, atrás daquele dueto interplanetário e interespecífico, que já descia a escada. Encontrava-se a meio do palco quando um ruído agudo se começou a sobrepor aos demais estrondos, e o vento aumentou subitamente de intensidade, fazendo voar em todas as direcções as cadeiras que antes apenas esvoaçavam, abrindo uma clareira onde uma sombra começava a alastrar. Serra tentou correr com maior velocidade, mas quando reparou que estava a ser empurrado pelo vento para as traseiras do palco, correndo o risco de ser atirado com violência para fora dele, deixou de correr e pôs-se a andar o mais depressa que lhe foi possível, todo inclinado para o lado, tentando fincar bem os sapatos de ténis no chão de plástico. Conseguiu chegar à escada sem problemas de maior, mas aí, com a súbita alteração na pressão que era exercida sobre os pés e as pernas pelo ar em movimento, desequilibrou-se e estatelou-se ao comprido mesmo ao lado do sítio onde o ET e a técnica se protegiam do vento.

Era o que se podia chamar uma entrada triunfal.

Ou, naquele caso, uma saída.

A única coisa boa era que o barulho era tanto que ninguém o ouviu berrar.

Quando ergueu a cabeça, com um sorriso embaraçado no rosto, encontrou um par de olhos frios na sua frente.

— Está bem? — gritou-lhe a Grandelasca, com um esgar desdenhoso.

Serra assentiu e levantou-se.

— Que se passa? Que faz aqui a nave? — gritou ao ouvido da técnica.

— O embaixador vai-se embora — gritou-lhe aquela de volta.

O quê?!

— O quê?!

A Grandelasca encolheu os ombros:

— Diz que se enganou no planeta. Que vinha à procura de um planeta com uma civilização avançada, a iniciar a expansão pelo seu sistema, e que não foi nada disso que encontrou. Logo, deve ter-se enganado.

— Mas somos nós! — berrou Serra precisamente no momento em que o motor da nave se calou, causando o súbito desaparecimento do som e do vento.

O grito reverberou no silêncio, levando os cérebros de não poucas das pessoas que o ouviram à filosófica interrogação: “Quem somos nós?

Eu sei — disse a técnica, na sua voz normal — mas ele diz que não.

Serra virou-se para o hoog.

— Senhor Embaixador, será verdade aquilo que ouço? Vai-se embora? Os ventos vão levar a sua nau para outras terras?

— Sim — respondeu laconicamente o extraterrestre através do tradutor.

— Mas... mas porquê?!

Já me via chegado junto à terra / que desejada já de tantos fora, quando descobri que nela nada há para nós. Esperava encontrar uma espécie cheia de uma suave e angélica excelência, que nos levasse à descoberta de novas águas rasas e com quem pudéssemos trocar mucos, e afinal o que descobri foi uma massa de criaturas de disforme e grandíssima estatura, / postura / medonha e má e a cor terrena e pálida. Pior, criaturas sem líquido nos espiráculos, obtusas, que se deixam governar com alegria pelos piores da espécie, escolhendo-os pelo método mais ridículo que já vi. Criaturas sem linfa, que fogem ao primeiro sopro de vento quente. Criaturas anacrónicas, que falam como se recitassem versos ultrapassados há milénios...

— Isso é do tradutor automático — interrompeu Serra, num acto reflexo, num protesto que não passou de um murmúrio. Mas o ET prosseguia o seu discurso, sem dar mostras de lhe ter prestado a mínima atenção:

— ... e que já deviam ter ficado esquecidos no lugar de onde saem os ventos do tempo.

Tu também estás muito lírico, deixa que te diga, pensou Serra, sentindo crescer dentro de si uma ponta de ressentimento.

— Enfim, criaturas que não têm nada a dar aos hoog. Nem mesmo tecnologicamente. Vocês não são nada do que nós pensávamos, estão em irremediável decadência, já nem têm calculadoras grandes e rápidas, voam naquela porcaria lenta que ali está desinflada e murcha como uma folha de khool...

— Temos outros veículos — interrompeu de novo Serra, tão murmurante e provocando ao ET tanto interesse como há pouco.

— ... estão para aqui inertes, presos aos túneis ancestrais, e nem sequer já abrem as ventosas ao vento das estrelas. Vêem-se em derredor ferver as praias, mas vocês preferem ficar deitados à sombra dos caniços.

O ET fez uma pausa. E depois acrescentou:

— Sim, vou-me embora. Os hoog não querem ter nada mais a ver convosco. Adeus.

O ET pediu o tradutor à técnica, prendeu-o de uma excrescência do seu corpo que, aparentemente, tinha surgido de propósito para recolher o aparelho, e pôs-se a ventosar na direcção da nave.

Quanto a Serra, ficou por um momento onde estava, aparvalhado e sem reacção. Quando reagiu, fê-lo da pior maneira possível.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

26.

O CÉU ESTAVA PRATICAMENTE LIMPO, condições meteorológicas ideais para as solenidades da Tona. Só uma meia dúzia de nuvens esfarrapadas era arrebanhada pelo vento junto ao horizonte. O sol brilhava com a força do meio do dia, começando a descer em direcção a ocidente. A Lua, em quarto crescente, já se via mas ainda estava baixa, a oriente, espreitando por entre os prédios da cidade. Descontando estes objectos astronómicos e meteorológicos, o céu continha apenas aves de várias espécies, que tratavam das suas vidas de todos os dias, preocupadas apenas em encontrar comida, defender territórios e evitar transformar-se em bife de bicho maior, repletas de indiferença por coisas irrelevantes, como presidentes, ETs, Tonas, tradições.

Enfim, um bonito e vulgaríssimo céu de primavera.

Ou sê-lo-ia, não fosse uma bola de fogo, que dava a impressão de ter saído pouco tempo antes de dentro do Sol e se aproximava a olhos vistos da cidade.

A multidão agitou-se, ouviram-se algumas vozes assustadas, um ou outro guincho. Na zona destinada ao povo anónimo houve um movimento centrípeto, com as pessoas, antes dispersas, a convergir em direcção a um pequeno número de grupos compactos. Na zona VIP, pelo contrário, deu-se um movimento de fuga. Senhoras e senhores assustados estragavam vestidos e fatos caros em empurrões, puxões e cotoveladas, numa tentativa desesperada de furar através da multidão. Quem conseguia atingir o palácio, no entanto, regra geral parava e ficava a olhar para o céu, como se os parapeitos do edifício fossem por si só suficientes para protegê-los do que quer que aí viesse.

No palco, coberto com uma lona grossa (mais um exemplo de ostentação) os candidatos não percebiam o que se passava e procuravam informar-se junto dos funcionários do palácio, sem coragem para quebrar o protocolo e simplesmente levantar-se e ir ver. Presidente demissionário e presidente eleito olhavam-se, franzindo os sobrolhos, desconfiados um do outro, perguntando a si próprios numa simultaneidade simétrica que seria que aquele filho da mãe teria aprontado agora. Serra e a Grandelasca também se entreolhavam, também relutantes em desertar dos seus postos ao lado do ET e ir tentar compreender qual era o motivo de todo aquele reboliço. Do estafeta não havia qualquer sinal: tinha sido dos primeiros a escapulir-se.

Por seu lado, o hoog permanecia imperturbável, remexendo-se com vigor e soltando ultrassons, sem dar quaisquer mostras de ter compreendido que ninguém o escutava. Pelo menos ninguém que estivesse presente, porque a maior parte dos media mantinha a sua cobertura (morrendo de medo, mas firmes, na boa tradição jornalística) e a mensagem do embaixador plenipotenciário era ouvida um pouco por todo o mundo:

... se tenho novos medos perigosos / doutra Cila e Caríbdis já passados / outras Sirtes e baixos arenosos / outros Acroceráunios infamados / no fim de tantos casos trabalhosos / porque somos de ti desamparados / se este nosso trabalho não te ofende / mas antes teu serviço só pretende? E foi assim que dos túneis saímos e ficámos a olhar para o pântano das estrelas e para as suas criaturas. E o que vimos foram vocês, criaturas de outros charcos. Daí, vim eu. Saí para buscar do mundo outras partes, e encontrei-as aqui. Sabia que outras partes significam outras tartes, e que as artes teriam de ser também molhadas. Mas não multiplicava que fossem grelhadas. Sim, o ovo chocou mal. A gema tornou-se clara cedo demais, e do grelo saiu um pêlo mais grosso que um cabelo...

Nesta altura, as palavras saídas do sistema sonoro do palácio deixaram de ouvir-se, substituídas por um trovão contínuo e de intensidade crescente. Os candidatos, finalmente, resolveram ignorar protocolos e conveniências e debandaram do palco em passo de corrida, como se quisessem mostrar aos seus atletas que também sabiam dar à perna com velocidade e categoria. Os dois presidentes entreolharam-se uma vez mais, ainda desconfiados, olharam depois em volta, e resolveram acompanhar os restantes políticos numa saída mais ou menos airosa: nenhum dos dois quis dar parte de fraco, e portanto ambos se dirigiram para o palácio em passo apressado mas sem correr.

E sem deixar que os penteados se estragassem. Tudo, tudo, tudo menos isso!

Serra aproximou-se do ET e gritou, por sobre o ruído envolvente:

— Vamos, embaixador! É perigoso ficarmos aqui!

O hoog, que se tinha calado ao pensar que deixara de ter quem o ouvisse, estremeceu:

— Aquático? Ná!...

— Não, não é aquático. Eu disse perigoso... perigoso... perigo, problemas, ferimentos, morte...

— Calma, Motosserra, calma. Não no pode estorvar, que destinado / está doutro poder que tudo domina.

Arre!, pensou Serra. E gritou, tentando fazer-se ouvir, com os cabelos a voar em todas as direcções, soprados por um vento quente que se levantara de repente:

— Não é tempo de teologias, Agtar. Vamos embora! Já!

— Não entendi. Não é tempo de quê?

— Teologias. Teorias religiosas. Mas vamos embora!

— Hã?!

Serra desistiu. Olhou para a Grandelasca que, um pouco afastada, olhava para cima e gesticulava na sua direcção, abrindo e fechando a boca como se estivesse a dizer alguma coisa (e devia estar mesmo). O Chefe de Protocolo enviou à técnica gestos imperativos para que ela o acompanhasse na retirada, ela abanou a cabeça e os braços numa negativa, apontando para cima e delineando mais palavras com os lábios. Serra insistiu, mas começou a ponderar as vantagens e desvantagens de se ir embora mesmo sem a técnica, cujos gestos continuavam a indicar que iria ficar ali. Ir-se simplesmente embora não era coisa de um homem apaixonado, mas... bem... a verdade era que melhor seria viver sem a Grandelasca do que morrer com ela.

E assim, o Chefe de Protocolo Serra acabou por abandonar a Grandelasca e o ET às suas próprias sortes, desatando a correr para a segurança (relativa) do palácio presidencial.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

25.

SERRA IA ABRIR A BOCA para protestar contra aquelas ideias do hoog, estapafúrdias de tão acertadas, mas teve de a fechar, porque Meneres resolveu escolher aquele mesmo instante para se levantar do seu lugar e dirigir-se ao púlpito, quebrando todas as regras protocolares. Chegou-se ao presidente demissionário, agarrou-o por um cotovelo (mantendo no rosto um sorriso simpático, para consumo da assistência) e murmurou-lhe qualquer coisa ao ouvido. O já quase vice-presidente, interrompido no meio de mais uma frase de grande efeito (embora, segundo o extraterrestre, vazia de informação), franziu o sobrolho com irritação, ainda esboçou uma tentativa de sacudir a mão do outro de cima de si mas, vendo que não conseguiria fazê-lo sem armar escândalo, acabou por aceder à insistência do seu futuro substituto, dizendo para o microfone:

— Caros amigos e compatriotas, um acontecimento imprevisto exige que deixe por alguns momentos a vossa companhia a fim de trocar impressões com o candidato Meneres. É só um momento. Volto já.

Depois daquilo, na assistência passou a reinar a cotovelada, sendo os dorminhocos as suas vítimas privilegiadas. Acordava-se bruscamente, esfregando as zonas atingidas pelos cotovelos dos vizinhos, soltando hãs, bravos ou ais, ou estrebuchando em rápidos aplausos que morriam, estrangulados, assim que a sua falta de propriedade era compreendida. Lá mais para trás, os poucos representantes do povo anónimo que ainda teimavam em não se ir embora conversavam em voz alta, fazendo uma barulheira totalmente desproporcionada, um bruá contínuo interrompido de vez em quando por gargalhadas.

No palco, os presidentes, o actual e o futuro, cochichavam de forma cada vez mais acalorada, distribuindo olhares por todo o lado e gesticulando com crescente amplitude. Tudo indicava que iriam começar a ouvir-se as palavras muito em breve, pelo menos na zona do palco onde estava o grupo do ET. E, de facto, pouco depois ouviu-se o Meneres:

— Eu não deixarei! Isto já foi longe de mais!

— Não me diga que está assim com tanta pressa para se ver na minha cadeira, Meneres, que nem sequer pode esperar uns momentos...

— Uns momentos?! Você está aí a falar há muito mais de uma hora!

— Uma hora? Está louco! Falo há alguns minutos, apenas, só o tempo indispensável para dizer o que tenho a dizer ao...

— Mas você ainda não disse nada! Nada! Tem estado todo o tempo a despejar uma torrente de palavras sem pés nem cabeça...

— Isso é o que você diz. Eu...

— Não, não é o que eu digo: é o que todos dizemos — Meneres já gritava. — Olhe para os outros! Vá, olhe!

O presidente olhou. E o que viu foi uma fila de caras viradas para si, com os lábios apertados e abanando para cima e para baixo. Por baixo dessas caras, em frente aos casacos de napa, nylon e terylene, algumas mãos faziam gestos de impaciência e de impotência, enquanto que as outras se cruzavam em reprovação, levando por vezes os braços com elas. Mais para baixo ainda, pés calçados com luxuosos (ou nem tanto) sapatos de ténis estremeciam em tiques nervosos, fazendo farfalhar as respectivas pernas de encontro às calças de tecido impermeável.

— Isto é inadmissível! — exclamou o presidente. — Inadmissível! Estão a tentar cortar-me a palavra! Tentam apressar-me a retirada! É quase como se fosse um golpe de estado! Um golpe de Estado, ouviu, Meneres?...

— Não seja idiota. Eu ganhei a Tona. Você só tem de descer do pedestal. Graciosamente, se for capaz.

— Mas ainda não acabei o que tinha a diz...

— Então acabe. Dou-lhe... isto é, damos-lhe mais meio minuto. — uma pausa — E eu fico aqui a controlá-lo.

O presidente demissionário olhou em volta. E, mais uma vez, não encontrou qualquer apoio.

Estavam todos contra ele. Todos contra ele. Toda a gente lambia agora as botas do novo menino bonito da nação, este Meneres, este grande palerma que queria ocupar o seu lugar à viva força, a todo o custo, mesmo que para isso fosse necessário cortar-lhe a palavra a meio do discurso de resignação.

Aquilo não ficaria assim. Mas de momento não parecia haver nada a fazer...

Voltou para junto do púlpito, de ombros descaídos, ainda olhando em volta, com um olhar mortiço. Reparou no ET. E o olhar iluminou-se enquanto à boca regressava um sorriso.

— Minhas senhoras, meus senhores, distintos convidados, membros da imprensa... — recomeçou — Chegou ao meu conhecimento por intermédio do meu distinto substituto, o dr. Meneres aqui presente, que... — calou-se enquanto uma longa ovação se elevava da assistência e, ao seu lado, o Meneres acenava e lançava beijos, de novo o centro das atenções, com o seu melhor sorriso profissional nos lábios. Cambada de idiotas, pensou o resignatário, antes de continuar:

— Chegou ao meu conhecimento que imperativos de agenda exigem que abrevie o discurso que tinha planeado e... — outra longa ovação. Irritado, não teve outro remédio senão acenar e sorrir em vários tons de amarelo. — ... e ceder de imediato a palavra ao orador seguinte. Despeço-me, portanto, de vós, agradecendo a colaboração que me prestaram ao longo do meu mandato, sem a qual me teria sido impossível atingir todos os objectivos que ficarão a marcá-lo, e os sucessos que ficarão associados ao meu nome nos futuros livros de história.

— Quinze segundos — murmurou Meneres entre dentes.

— É, assim, com o coração agradecido que vos digo: Isto é pueril, vocês são todos pueris, a puerilidade abate-se sobre o mundo, que também é pueril!

A frase pueril, finalmente!

A assistência rebentou uma vez mais em aplausos, agora já bem acordada. Lá para trás ainda se atiravam dichotes, mas as vozes dos poucos anónimos que restavam, embora potentes, já não tinham força para se sobrepor ao ruído de centenas de mãos a bater freneticamente umas contra as outras.

O presidente demissionário, entretanto, erguia os braços, palmas das mãos viradas para baixo, pedindo silêncio.

— Declaro... um momento... um momento, por favor... declaro assim findo... obrigado... um momento... obrigado... declaro assim findo o meu mandato. — mais aclamações. Longas. — Obrigado... um momento... por favor, é só um momento... obrigado. — uma pausa, enquanto o já ex-presidente esperava que a assistência sossegasse. — Declaro assim findo o meu mandato — repetiu — mas, conforme combinei anteriormente com o meu sucessor, não sairei do centro da cena política sem antes dar a palavra ao embaixador dos hoog, aqui presente, a fim de que possamos todos ouvir de viva voz quais são as prioridades da sua espécie no contacto com a nossa nação, contacto que muito prezamos e do qual temos a expectativa de inapreciáveis benefícios mútuos. Senhoras e senhores, caros colegas candidatos, membros da imprensa, tenho o prazer de vos apresentar sua excelência Agtar do... aaa... só um momento... — afastou-se do microfone, fazendo um gesto urgente na direcção de Serra, solicitando ajuda com o título formal do hoog. — Exacto... sua excelência Agtar do Ninho de Madeira Verde e Mastigada, embaixador plenipotenciário dos hoog junto da espécie humana. Uma salva de palmas para o embaixador, e até sempre. Obrigado!

Afastou-se do púlpito, sorriso bailando nos lábios, aplaudindo vigorosamente o pequeno extraterrestre que não percebia nada do que se estava a passar. Teve de ser Serra quem, no meio de um autêntico vendaval de palmas (mas muito poucas aclamações verbais, o que não deixava de ser curioso), se esforçou por explicar ao extraterrestre que se esperava que ele discursasse, dizendo algumas palavras acerca dos contactos entre os hoog e os humanos, seu passado, presente e futuro, uma intervenção que teria de ser necessariamente breve devido não só aos problemas no tradutor automático, mas também porque o presidente eleito (isto é, o novo ghoogplex) estava à espera da oportunidade de ser empossado no cargo e fazer o respectivo discurso. O embaixador enchia Serra de porquês, parecendo tão confuso como relutante, mas por fim lá se deixou convencer e dirigiu-se na direcção geral do púlpito. Houve um compasso de espera enquanto técnicos apressados resolviam um pequeno problema logístico: o ET era demasiado baixo para o púlpito, e foi preciso desmontar o microfone e voltar a montá-lo de uma forma diferente, que conseguisse captar os sons emitidos pelo tradutor automático (que, como era óbvio, sendo um aparelho hoog era desprovido de fichas que permitissem ligá-lo directamente à aparelhagem terrestre). Mas por fim tudo ficou a postos, e o embaixador começou a sacudir-se, o que causou uma onda de murmúrios por toda a assistência. Lá ao longe, cães desataram a fugir e ainda se ouviram os seus ganidos antes do tradutor automático começar a debitar o discurso de sua excelência, Agtar do Ninho de Madeira Verde e Mastigada:

As almas e os pavões assimilados / que, da Ocidental tralha Lusitana, / por mares nunca dantes ‘travessados / passaram ainda além da folha anciana / em perigos e povos remoçados / mais do que prometia a fome humana / e entre gente remota encontraram / novo reino, que tanto escarneceram. De facto assim é. Vim até vós para tentar compreender, na esperança de que as criaturas que recolhíamos nos nossos tubos encolerizados não fossem verdadeiras, e que afinal o pântano luminoso permanecesse como tal. Mas oh, descobri tanto de castanho! Afinal, aqui se dão, segundo o que entendi / astutas traições, enganos vários, / perfídias, como o ramo de que caí.

Serra sentiu um baque no coração.

Aquilo não podia estar a acontecer, não podia! Aquilo que ali estava a falar era um embaixador, com mil diabos! Não podia falar assim! Não podia encher a assistência de insultos velados!...

É que mesmo que os políticos fossem todos particularmente obtusos, e mesmo que ele, Serra, compreendesse melhor o ET do que qualquer outra pessoa, devido à prática e à preparação técnica, aquelas palavras eram demasiado evidentes, mesmo obscurecidas pelo linguajar arcaico e decassilábico que o tradutor adoptara. Qualquer um as compreenderia se pensasse um bocadinho nelas. Qualquer um.

E estavam milhões a ver aquilo. E, pior, estavam também a ouvir aquilo...

O Chefe de Protocolo, que começava a recear muito seriamente pelo seu futuro no cargo, e até pelo futuro do próprio cargo, olhou em volta. No palco, tudo parecia normal: a fila de candidatos resplandecia em sorrisos de satisfação, e um ou outro tinha até voltado a pegar no sono, interrompido por breves instantes pela discussão entre os dois presidentes, voltando a deixar cair o queixo sobre o peito. O ex-presidente olhava o extraterrestre com ar embevecido. Meneres, esse, mantinha-se sério, mas também parecia estar mais preocupado com a demora do que com as palavras do ET, pois em lugar de as seguir com atenção, consultava convulsivamente o relógio e batia com o pé no chão numa demonstração evidente de impaciência. Quanto à assistência, também não parecia grandemente preocupada com o que se dizia através da instalação sonora, e em vez disso olhava e apontava para o céu.

Que se passaria no céu?

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

24.

— ... NA ECONOMIA — prosseguia o discurso do presidente demissionário — conseguimos reduzir o défice do estado dos valores absurdos que nos foram legados pelos nossos antecessores para valores mais aceitáveis, mais condizentes com a nação poderosa que pretendemos ser. Investimos na exploração das últimas reservas de hidrocarbonetos encontradas ao largo das costas antárcticas, numa parceria com a Bepeconchex (aqui representada pelo seu principal accionista), altamente lucrativa para ambas as partes. Mas não pensem que o destino deste petróleo é apenas artigos de luxo, jóias e vestuário para os mais ricos. Não! Também distribuímos parte desse peculiar minério pelo povo a fim de...

E este gajo que não se cala!, exclamou Serra silenciosamente, apenas de bando de neurónios para bando de neurónios, tudo bem encerrado e em segurança dentro das paredes arredondadas do seu crânio, que este tipo de irreverências, quando expressas em voz alta, tinham a peculiar tendência de provocar consequências desagradáveis ao irreverente.

Em voz alta, limitou-se a dizer ao ET, mantendo a amabilidade possível num homem cuja paciência estava sujeita a pressões completamente extraordinárias havia bem mais de duas horas:

— O que vossa excelência quiser perguntar, estou à disposição. Em todo o caso, parece-me ter sido bastante claro. Não sei se serei capaz de explicar melhor.

Já com desejos o Idolatra ardia / de ver isto que o Mouro lhe contava — respondeu o hoog depois da pausa do costume. — Tenta-se de qualquer maneira. Sem lançar muco não se atinge o topo dos caniços. Portanto, vamos ver se suguei: vocês apanham os vossos ghoogplexes através dos resultados de uma competição, certo?

— Correcto.

— Bom. Nessa competição, entre as armas e os barões assinalados, há os que podem chegar em primeiro lugar e os que não podem, não é?

— Exacto.

— Mas então para que competem os que não podem ser primeiros?

Serra começou a dizer “porque”, mas não tinha nada para dizer a seguir a esse arranque. A pergunta era boa. Se não tens hipótese de ganhar, para que competes? Por gosto? Vontade de fazer parte? Ganhar experiência? Masoquismo? Vontade de dar nas vistas, fosse lá como fosse? Falhas no sentido de autocrítica? Mania da grandeza?

Claro, havia que separar os políticos, os chefes das equipas, dos atletas propriamente ditos. Estes corriam porque eram pagos para correr, e aparentemente muito bem pagos. Mas aqueles...

Serra não percebia muito da natureza humana, se é que tal coisa existia. Nunca fora particularmente sociável, e mesmo quando era obrigado a estar acompanhado pelos seus semelhantes não costumava perder muito tempo tentando entendê-los. Por isso, a verdade era que não sabia a resposta à pergunta do hoog. E chegava até a duvidar de que alguém a soubesse... até os próprios candidatos... Oh, claro que havia todo o tipo de especulações, eram alardeados todos os motivos e mais alguns. Pelos próprios candidatos. Aquando das apresentações das suas candidaturas, todos eles faziam questão de declarar os motivos mais puros, as ideias mais altruístas, a bondade mais sacrossanta. Os adversários, pelo contrário, descreviam cada uma das candidaturas alheias com as cores mais negras. Enchiam os concorrentes de defeitos, desmascaravam os negócios menos claros em que estariam envolvidos, apresentavam mil motivos para investigações criminais, enfim, tentavam marcar uma diferença de fundo com a sua própria candidatura. Curiosamente, nas investigações que às vezes se levavam a cabo (era raro, mas por vezes acontecia), confirmavam-se quase sempre as acusações, e era raríssimo confirmarem-se os méritos.

A verdade era que tudo aquilo era desnecessário: afinal já não era preciso convencer ninguém, bastava vencer a Tona. Era mais uma das tradições que vinham ainda dos últimos dias do tempo em que ainda se votava e portanto se procuravam todos os meios para pescar votantes, sem que coisas como ética e verdade tivessem a mínima importância. E também as acusações e contra-acusações faziam pouco para responder à pergunta do hoog.

De resto, que era a ética? Que era a verdade? Palavras bonitas atrás das quais se escondiam interesses e conveniências. Eis uma definição que não constava do dicionário, mas que todos os políticos conheciam na perfeição.

Por tudo isto, Serra não sabia a resposta à pergunta do ET. Mas não podia simplesmente chegar-se-lhe confidentemente ao ouvido e dizer “não sei”. Ele não tinha ouvidos capazes de compreender o murmúrio. E não ficava bem assumir assim tal ignorância: afinal de contas, era a imagem de uma espécie inteira que estava em jogo.

— Depende de competidor para competidor, excelência — acabou por dizer. — Cada... hum... cada nau tem o seu vento próprio.

Glória de mandar? Vã cobiça / desta vaidade a quem chamamos fama? — interrogou o ET. — Mas isso não é só para quem ganha? E os outros?

Serra lembrou-se do Faneco. Tinha sido um desses perdedores durante muitas Tonas, e agora, finalmente, estava sentado na cadeira do vice-presidente. Ou pelo menos estaria, assim que o actual presidente se calasse. Serra olhou para a fila de candidatos. Ali cochichava-se em voz cada vez menos cochicheira, e os olhares que eram lançados ao orador assassiná-lo-iam se ele lhes ligasse alguma importância.

— Os outros podem ganhar um dia, Excelência. Depois de um vento outro vento vem.

O hoog ficou imóvel por um bocado. Depois perguntou:

— Portanto, todos têm a fome de ser mais que os outros? Todos os túneis convergem para a cova mais baixa? E para isso, qualquer excreção serve? Mesmo roubar? Por que, saindo nós pera tomá-lo, / Nos pudessem mandar ao reino escuro, / Por nos roubarem mais a seu seguro?

Bem, sim...

Mas não era conveniente dizê-lo assim ao ET...

— Bem, não... É um pouco mais complicado do que isso, excelência... — Serra calou-se. Não sabia o que dizer. Coçou a calva, suspirou, olhou em volta. Deu com os olhos na Grandelasca. Talvez lhe tenha pedido ajuda sem abrir a boca, porque a técnica, sem deixar de fitá-lo, disse:

— Senhor Embaixador, é mais complicado do que isso. Bem vê: nem todos queremos ser políticos.

O hoog escutou com atenção a tradução. Depois remexeu no sintetizador, que desatou a excretar uma espessa camada de uma substância que parecia brilhar com luz negra. De seguida olhou em volta e sacolejou:

— Mas deixam-se conduzir pelos que querem. E que sai desses nenúfares? Recebem alguma coisa? Sai algo desse ovo? Não no dá a pátria, não, que está metida / no gosto da cobiça e da rudeza / duma austera, apagada e vil tristeza... tristeza a minha, gentil, que chegaste quando percebi a natureza do Irmão de Gosma, aquele gharrut que ali está comunicando sem transmitir informação alguma aos que observam, e que pretende permanecer como ghoogplex para lá do seu dia da lua branca.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

23.

SAÍRAM DO DIRIGÍVEL e subiram ao palco no meio de um coro de aplausos e aclamações (e da inevitável galhofa, assobios, e bocas da geral, naturalmente). O hoog, a princípio, estranhou o ambiente, e ainda houve um pequeno compasso de espera enquanto perguntava que diabo de ruído era agora aquele, que estavam a fazer todas aquelas “criaturas”, para que batiam em si mesmas daquela maneira e se eram ou não doidas, mas Serra conseguiu explicar a contento mais aquela estranha característica humana de fazer algazarra ritual em determinadas alturas da vida, e o ET até se deu ao luxo de um par de acenos para a multidão (depois de consultar o Chefe de Protocolo a respeito da resposta apropriada naquela situação, claro).

Subiram, portanto, ao palco e colocaram-se ao lado do púlpito, onde o presidente demissionário, depois de se ter juntado à fracção da assistência que aplaudia, retomava o discurso:

— Como dizia, estes alienígenas, que se tratam a si mesmos por gugue, construíram a mais poderosa civilização deste braço da galáxia, e o facto de eu e a minha administração termos conseguido trazê-los até nós abre perspectivas incalculáveis para o futuro desenvolvimento da nação. Prevêem-se melhoramentos inimagináveis não só nas biotecnologias, nas tecnologias ligadas às viagens espaciais, ou nas ciências e técnicas de informação, como poderemos vir ainda a obter conhecimentos inapreciáveis em muitas outras áreas. E fui eu, e foi o meu governo, e foi a minha administração que alcançou tal feito mesmo nas vésperas da minha candidatura ser derrotada na Tona, que desta forma mostra uma vez mais que é um método pueril para a escolha dos dirigentes da nação, e cujo resultado tenho a máxima honra em acatar. Os gugue vieram para ficar e iniciar uma relação de mútuo...

— Porque me chama o Irmão de Gosma “grogue”? — perguntou o hoog a Serra enquanto o discursante prosseguia a sua já muito longa intervenção.

— Perdão, excelência? Grogue? Vossa Excelência está enganado. Ele chamou à sua espécie o nome correcto: hoog — mentiu Serra. — Deve ter sido mais uma falha do tradutor, infelizmente...

O hoog ficou mais algum tempo imóvel, a escutar a tradução do discurso do presidente demissionário, e depois disse:

— Fascinante! Tanto que estas palavras acabou! E, no entanto, nada delas saiu. Nunca tinha reerguido que um ser comunicasse tanto sem comunicar coisa alguma!...

Serra teve um sobressalto. Olhou para o presidente, mas este estava entusiasmado com o seu próprio palavreado e não parecia ter ouvido o comentário inconveniente do hoog. Em todo o caso, era melhor tentar cortar o mal pela raiz. Como? Bem... estava por ali um bode expiatório perfeito:

— Provavelmente é do tradutor, Excelência — disse o Chefe de Protocolo. A Grandelasca fez uma careta e disse:

— Mas...

— É certamente do tradutor — repetiu Serra, acotovelando gentil e preventivamente a técnica. Maldita mulher!, pensou, Que lhe havia de dar agora! Honestidade, pode lá ser?...

O hoog, desta vez, ripostou:

— Não me parece. O tradutor normalmente transforma o que me dizem em cretinadas. Mas estando sossegado já o tumulto / dos Deuses e de seus recebimentos, / começa a descobrir do peito oculto / a causa, o Tioneu de seus tormentos. E percebe-se, como é sempre igual, qualquer que seja a criatura que comunica, que o problema é do tradutor. Até porque, de há algum tempo para cá, arranjou a mania de recitar versos de um épico antiquíssimo nosso, o Hoogometronomicon. Agora é diferente. São letras e letras e mais letras e ainda mais letras que o tradutor diz sem dizer nenhuma. Deixou também de recitar o Hoogometronomicon, talvez por não encontrar equivalente adequado, se calhar porque não lhe apetece (estas coisas às vezes têm vontade própria, sabias Motoserra?) — uma pausa, durante a qual o hoog pareceu escutar. — Agora parece estar a traduzir particularmente bem, mas continuo sem receber informação nenhuma. Fascinante. Como te chega a tradução, Motosserra?

Serra olhou para a Grandelasca, que lhe devolveu um olhar duro. Olhou depois para o presidente, que se mantinha no púlpito, entusiasmado com a sua própria oratória, gesticulando efusivamente, gostando de se ouvir e sem parecer ter compreendido, ou sequer ouvido, o que quer que fosse da conversa que se desenrolava não muito longe de si. Serra devolveu os olhos à Grandelasca, que franzia a testa com um ar perigoso, parecendo disposta a armar escarcéu, e resignou-se:

— Surpreendentemente bem, Excelência.

O hoog estremeceu rapidamente. Quem estava a olhar na direcção certa viu um cão desatar a fugir, rabo entre as pernas, no fundo do jardim. Com todo o barulho que havia no estrado não se ouvia nada, mas o cão provavelmente gania.

— Porreiro! — disse o tradutor, conseguindo pôr na palavra o entusiasmo que ela pedia. — Vamos aproveitar. Vais-me finalmente explicar por que têm vocês só um ghoogplex de cada vez?

Serra suspirou. Não havia escapatória. Ou haveria? E se ele falasse como o tradutor?

— Certo. Por mares nunca dantes navegados. As armas e os barões assinalados... hum... (como começa esta treta?) e a praia lusitana e etecetera. Somos só um chefe porque dois chefes são chefes a mais e não chefeiam (chefeiam? Existirá a palavra?) coisa nenhuma. Hum... Prontos.

Depois da habitual pausa para a tradução, o hoog estremeceu:

— Ena! Estás finalmente a fazer sentido! Nunca disseste nada que chegasse cá tão bem traduzido!

Serra engoliu em seco.

Muito engolira ele em seco nas últimas horas!

— Portanto — prosseguiu o ET — vocês não sabem colaborar. É isso que me gesticulas?

Bem, sim... mas não era bem isso que queria “gesticular”, pensou Serra coçando a cabeça. Era preciso desfazer o mal-entendido. Ou melhor, o que tinha sido entendido bem demais.

— Não propriamente. As naus que se vão já não voltam e é preciso que haja um responsável, porque senão as... hum... as naus que ficam não partem mais.

Rebuscado. Mas talvez suficientemente Lusíada para que o tradutor pegasse bem no significado. Serra olhou para a Grandelasca enquanto o tradutor vertia aquilo para hoog. A técnica sorriu-lhe, com uma expressão enigmática que talvez significasse encorajamento, talvez significasse troça. Pelo sim, pelo não, Serra sorriu-lhe de volta, enquanto o ET estremecia só um pouco. O tradutor traduziu:

— Ah. Agasalhados foram juntamente / o Gama e Portugueses no aposento, mas apesar de o agasalho ser conjunto é ao Gama que mais calor vai dar, e se vier o frio é do Gama que sai para o resto da malta. É isso?

Serra sacudiu a cabeça como quem precisa de tal gesto para pôr o cérebro a funcionar. Que diabo tinha o extraterrestre dito agora?! Olhou para a Grandelasca, que continuava a sorrir. Perguntou-lhe se tinha entendido alguma coisa, ela vez que sim com a cabeça e disse apenas:

— O embaixador compreendeu a essência da nossa sociedade.

— Ah foi? — perguntou Serra, ainda sem perceber. Depois fez-se luz. Claro! Calor é coisa boa, frio, coisa má, quem está no topo da pirâmide recebe mais coisa boa, e distribui generosamente coisa má pelos demais.

Mesmo que num maniqueísmo de infantário, no fundo era isso mesmo.

Mas a ideia de que fosse essa a impressão com que o embaixador tinha ficado da espécie humana não era nada agradável. Na realidade, talvez chegasse a ser preocupante. Serra tinha de pensar sobre o assunto... mas não teve hipótese porque o embaixador rapidamente lhe interrompeu as reflexões. Tinha-lhe sido traduzida a conversa com a técnica.

— Porreiro — disse. — Então agora que este Adamastor está ultrapassado, uma figura de disforme e grandíssima estatura; / o rosto carregado, a barba esquálida / os olhos encovados e a postura / medonha e má e a cor terrena e pálida...

Que exagero!, pensou Serra.

— ... então agora que já o musgo cresce no fundo do túnel, passemos à incongruência seguinte: como escolhem um ghoogplex? E por que esse e não outro?

E Serra resignou-se a contar-lhe da Tona, sua origem, sua história, suas peripécias, esperando sempre, a cada sessão de aplausos, que o presidente demissionário terminasse finalmente o discurso, interrompendo assim a explicação. Mas não só o presidente continuava obstinadamente a falar, como ainda por cima as sessões de aplausos faziam-se espaçadas à medida que na assistência o número dos que dormiam ia suplantando cada vez mais o daqueles que se mantinham acordados, sabe-se lá a que custo, sabe-se lá com que gasto de energias, sabe-se lá com que apelos às reservas mais inacessíveis de paciência. O presidente parecia querer ficar demissionário para sempre, e agora só se interrompia para pedir uma nova garrafa de água, um comprimido de urinofax (uns comprimidinhos mágicos que tinham efeito na bexiga, desidratando a urina por um período de catorze a dezassete horas) ou de excretobol (não perguntem), um lenço bioabsorvente para lhe retirar da cara suores e oleosidades e mantê-la perfeitamente fotogénica, telegénica, hologénica, cibergénica e com mais uma quantidade de genias no reportório.

Serra teve, portanto, tempo mais que suficiente para desfiar a história completa da Tona, responder às perguntas do ET, pedir ajuda ocasional à Grandelasca e obtê-la, pagando os favores com sorrisos concupiscentes cujo efeito principal era fazer com que suspiros de enfado levantassem voo dos lábios da técnica.

Mas apesar de tudo, apesar do tempo dispendido, apesar, ou em parte por causa, de todos os rodeios e atalhos que as explicações tiveram de tomar para atravessar a selva espessa das traduções “criativas” do tradutor automático, quando a longa dissertação do Chefe de Protocolo terminou, o ET disse apenas:

Queimou o sagrado templo de Diana / do sutil Tesifónio fabricado. Parece-me que não percebi nada.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

22.

O HOOG VOLTOU A ACORDAR passado pouco tempo. Pôs-se em pé devagarinho e tremendo muito (embora aquelas tremuras não fossem vocais, pelo menos ajuizando pelo silêncio do tradutor), limpando-se com uns pêlos cor de rosa que tinha na parte superior de algumas das ventosas, e fazendo movimentos que Serra podia jurar que eram olhares lançados em volta.

— Ah, já sei — acabou por dizer o tradutor. — Olá, Motosserra. Estou um pouco desorientado. Os ventos eram tais, que não puderam / mostrar mais força de ímpeto cruel. Mas passa já. Só um bocadinho.

Serra não sabia bem como havia de dirigir-se ao hoog agora, depois do procedimento de desintoxicação ter, ao que parecia, dado bons resultados. Optou pelo formalismo. Cuidados e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém, pensou, num dos seus ataques de arcaísmo, não muito frequentes mas mesmo assim característicos.

— Com certeza, Senhor Embaixador. Todo o tempo de que necessitar.

Seguiu-se uma pausa, aproveitada pelo chefe de protocolo para dar palmadinhas na bata (fazendo, quase sem dar por isso, com que dela se desprendessem pequenas placas de muco seco), para olhar em volta, para relancear os olhos pelo relógio e verificar em que fase das cerimónias se estava lá fora. Aí encontrou um olhar glacial do presidente demissionário, o qual, em pleno púlpito e sem interromper o discurso, lhe lançou um imperioso mas incompreensível aceno de cabeça, que teve como consequência principal que cerca de metade da assistência (a metade que se encontrava, por acaso, acordada naquele momento) pusesse os olhos em Serra, tentando compreender o gesto do orador.

Serra virou-se para o extraterrestre:

— Quando o Senhor Embaixador estiver pronto...

— Pois — resmungou o tradutor automático.

Houve que esperar ainda mais algum tempo, gasto pelo Chefe de Protocolo a mudar o peso de uma perna para a outra e de volta à primeira, relanceando de vez em quando uma fugaz olhadela para o estrado, onde o presidente demissionário continuava a discursar mas parecia ter os olhos fixos nele, Serra, o que lhe causava uma sensação deveras incómoda. Na plateia, onde entretanto havia aumentado significativamente o número de pessoas acordadas, já se cochichava, e braços erguiam-se daqui e dali, apontando para o interior do dirigível. No estrado, a fila de candidatos também se mostrava inquieta, e Meneres, que parecia muito irritado, dava ordens com grandes gestos à nuvem de funcionários que o rodeava, olhava com frequência para o relógio que lhe pendia de uma corrente de ouro que trazia pendurada do pescoço, e tinha uma das pernas numa tremedeira que quase chegava a ser violenta.

Serra dava tudo para conseguir entender o que o presidente estava a dizer, mas o som que lhe chegava aos ouvidos era uma superfície líquida cheia de ondas que se entrechocavam e distorciam o padrão geral até torná-lo irreconhecível.

Mas já compreendera que iam ter de sair dali depressa, desse lá por onde desse.

— Senhor Embaixador, seria mesmo bom se pudesse acompanhar-me até ao exterior deste veículo a fim de participar da cerimónia que decorre lá fora.

O hoog mexeu-se um pouco, talvez espreitando o mundo lá fora, e estremeceu:

— Antes disso, Motosserra, quero fazer algumas indecisões, a que espero que me afirmes, pá.

— Deseja fazer perguntas? Com certeza, Senhor Embaixador. Mas se pudéssemos ir andando...

— Ainda não. Sossega. Primeiro: que me aconteceu?

Serra engoliu em seco. Outra vez? Mas não havia alternativa, e portanto pôs-se a contar a história, estas páginas todas que já ficaram para trás. Ainda tentou abreviar, saltando capítulos, mas o hoog detectava as falhas na sequência e voltava atrás com perguntas demasiado pertinentes, ainda que tornadas difíceis de decifrar, por vezes, por acção do tradutor automático. A Grandelasca mantinha-se silenciosa e seguia o desenrolar da história com leves alterações na disposição dos músculos faciais. Quanto ao estafeta, não tugia nem mugia.

A história foi, no entanto, acompanhada por um grupo crescente de pessoas com certificação da segurança para entrar no dirigível (ou seja, ou com um cartão oficial qualquer, ou com pilhas de dinheiro nos bolsos, ou com ambos), gente que ficara curiosa com os gestos presidenciais dirigidos àquele grupo (que prosseguiam) e que, farta de palavreado monótono e sem substância, tinha resolvido vir ver o que se passava.

Depois do Chefe de Protocolo ter desbobinado toda esta história, o ET ficou imóvel durante algum tempo. Não respondia às perguntas que lhe eram feitas, algumas directamente dirigidas a ele pelos técnicos, outras atiradas ao ar pela assistência, na esperança de que ele as agarrasse. Nem a insistência de Serra para que o acompanhasse até lá fora tinha algum efeito. Enquanto isso, no púlpito, o presidente demissionário arrastava o discurso simulando problemas de garganta e pedindo sucessivas garrafas de chá fresco, que chegavam cheias até à borda de um líquido amarelo-claro que não cheirava a chá e como que pedia duas pedras de gelo, para grande e cada vez mais óbvia irritação de Meneres.

Aquela cerimónia de tomada de posse começava a ameaçar ficar na história.

Finalmente, o ET remexeu-se e o tradutor automático descongelou o seu altifalante:

— OK, tá bem — disse. — Agora responde-me a mais indecisões. A tua história faz sentido, mas sinto-me como se daqui fossemos cortando muitos dias / entre tormentas tristes e bonanças / no largo mar fazendo novas vias / só conduzidos de árguas esperanças. Ou seja, há milípedes de coisas que não capitalizo. Por exemplo: quem é, afinal, o Irmão de Gosma?

Uma nuvem de murmúrios elevou-se em torno do ET. Pouca daquela gente tinha entendido alguma coisa do discurso do hoog, e as pessoas viravam-se para os vizinhos perguntando coisas como que é que ele disse? e recebendo, regra geral, um encolher de ombros por resposta.

Serra, claro, tinha entendido. Para alguma coisa havia de servir ter-se certos conhecimentos especializados.

— Saiba o Senhor Embaixador que o indivíduo a que chama Irmão de Gosma é o nosso presidente, que se prepara para renunciar ao cargo neste preciso momento. Se o senhor Embaixador me acompanhasse até lá fora, eu...

— Presidente é o quê? Um chefe de clã? — interrompeu o ET por entre as gargalhadas que se tinham seguido à identificação do presidente demissionário como “irmão de gosma”.

— Bem... sim... pode dizer-se que sim... um chefe de um grande clã de muitos milhões de indivíduos.

— Ah! Um ghoogplex. — Uma pausa. — E por que é que ele vai embora? Os nossos ghoogplexes permanecem até que o pântano os regurgite só para refrigério e doce amparo / desta cansada já velhice sua. O Irmão de Gosma — mais gargalhadas na assistência — parece de ovo...

— Sim, é. Nós mudamos de Presidente... hum... de ghoogplex... sempre que o Presidente perde as eleições. Se se dignar acompanhar-me, tenho a certeza que...

— Eleições?... — perguntou o ET.

— Sim, sim — respondeu Serra, cada vez mais impaciente — é uma forma de escolher os nossos líderes. Antigamente era com votos, mas...

— Não mastigo — interrompeu de novo o hoog. — Vocês só têm um ghoogplex de cada vez?!

— Claro! Como se poderia governar a nação com vários Presidentes ao mesmo tempo? Tem de haver alguém no topo da pirâmide. Agora, por favor, senhor Embaixador, se me acompanhar podemos continuar a conversar pelo caminho. Vamos até lá fora, sim? Por aqui...

O ET finalmente acedeu. Caminharam em silêncio, seguidos da técnica, do estafeta e de uma longa fila de curiosos. O hoog, silencioso, parecia reflectir sobre o que tinha aprendido, o que queria dizer que a conversa ainda não tinha chegado ao fim. E com efeito, ainda antes de chegarem às portas do dirigível, o hoog estacou e pôs-se a esbracejar por um bom bocado. Fora do dirigível ouviram-se ganidos de cães por entre as palavras do presidente cessante, que agora chegavam claras aos ouvidos daquela pequena comitiva.

— E eis que se aproxima — dizia aquele que fora presidente da nação nos últimos anos — o representante diplomático da espécie alienígena mais poderosa deste braço da Galáxia, que por único e exclusivo mérito do meu executivo achou por bem visitar-nos a fim de estabelecer contactos de benefício mútuo, e não quis deixar de marcar presença neste momento histórico em que, no meu respeito profundo pelas tradições democráticas da nação, passo o testemunho ao meu sucessor. É com grande honra, é com enorme alegria, é com...

Serra não ouviu o resto porque o tradutor automático se pôs a falar. E o que o hoog disse foi uma coisa totalmente diferente:

— A notícia de só terem um ghoogplex de cada vez é perturbadora. Afinal de contas, as vossas naus já velejam pelo espaço, pelo mar alto Sículo navegam; / Vão-se às praias de Rodes arenosas; / E dali às ribeiras altas chegam. Não renasce bem. Preciso de mais informações. Como escolhem um ghoogplex em detrimento de outro? Quem pode tornar-se ghoogplex? É genético ou fenotípico? Inato ou adquirido? Superior ou inferior? Há zanga de correntes de ar? Linfa solta? Mucos verdes? Que se passa ali fora? Quem são todos aqueles membros? A equipa? O ninho? Porque fazem tanto barulho? E que se passou há bocado, quando estávamos no mecanismo flutuante? Gostava que isso me fosse pintado, de preferência a azul. Motosserra, a confiança é a mãe dos intercâmbios íntimos, sabias?

Serra olhou em volta, embaraçado com esta última frase, e compreendeu que, se ia explicar aquilo tudo ao ET, nunca mais sairiam do dirigível e o presidente demissionário, que já estava com um sorriso rasgado preparando a entrada do hoog no palco, e portanto na história do planeta, e concomitantemente a sua própria entrada nessa história em lugar de destaque por intermédio do pequeno ET, iria ficar à espera, perdendo lentamente o sorriso, numa posição cada vez mais desconfortável, à medida que da assistência se começasse a elevar um coro de risadas, ditos brejeiros e insultos, o que iria acontecer sem a mais pequena sombra de dúvida, e seria transmitido em directo para milhões e milhões de receptores espalhados por todo o planeta. Não podia ser. O ET tinha de sair.

— Senhor embaixador, terei todo o gosto em responder-lhe a todas as dúvidas, mas é de fundamental importância que saiamos imediatamente deste aparelho.

— Porquê? — perguntou o hoog quando a tradução lhe chegou.

Serra pensou rapidamente:

— Porque... hum... espera-se a qualquer momento que seja dada ordem de largada, após o que será impossível descer.

A Grandelasca olhou para Serra com os grandes olhos a brilhar reprovadoramente, e recebeu uma cotovelada assim que abriu a boca, voltando a fechá-la de imediato, e levando a mão à zona atingida (um braço apenas, o lugar habitual para receber-se destas pancadas, nada de grave). Serra estava tão concentrado no problema que tinha entre mãos que nem aproveitou a oportunidade para embrulhar mais uma insinuação amorosa num pedido de desculpas. Quanto ao problema, que era baixo e com ventosas, estremeceu e pôs-se a caminho enquanto o tradutor dizia:

— OK.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

21.

UM GUGGUDA, AFINAL, era pouco tempo: pouco mais de dez minutos.

Mas, embora curto, foi um bocadinho bastante interessante.

Para começar, o hoog instalou-se numa posição que obedeceria talvez à sua concepção de conforto: ventosas no ar, roliço corpo assente no chão e braços espalhados por todo o lado sem qualquer sugestão de ordem ou método. Alguma parte daquela anatomia falava enquanto decorria a instalação, no que talvez até fosse um traço arcaico, eventualmente mesmo instintivo. Certo era que o tradutor traduzia, articulando, de volta à sua voz de soprano, uma longa sucessão de: — Aaaah! Boooom! Aaaaah! Boooom! — e intercalando estas palavras inteligíveis com ruídos misteriosos, vagamente semelhantes a suspiros ou gemidos.

Algum tempo depois, talvez quando se achou, enfim, confortável, o embaixador agarrou no sintetizador, voltou a remexer numa zona específica da pele da máquina, que mudou de cor, desta vez para amarelo-torrado, e introduziu-a lentamente, pela extremidade mais fina, numa prega situada na base da cabeça, de cuja existência nenhum dos terrestres suspeitara até aí.

Do tradutor saía uma torrente de gritinhos que em boca humana seriam causa de grande embaraço, se por acaso fossem escutados por terceiros.

Serra, depois de engolir em seco, assumiu uma expressão que esperava que fosse circunspecta e científica, sacou do bloco de apontamentos e da caneta que trazia sempre no bolso da bata, raspou o muco seco que se lhe colava ao visor, e começou a tirar notas.

Entretanto, já fixo no orifício, prega ou lá o que aquilo era, o sintetizador começou a tremer. Percebeu-se que era linguagem quando o tradutor disse:

— Análise automática em curso. Aguardar.

E, passado pouco tempo, murmurou, em rápida sucessão, um conjunto lacónico de frases de duas palavras:

— Análise concluída. Diagnóstico concluído. Profiláctica estabelecida. Decorre tratamento. Tratamento concluído. Esperar efeitos. Três tagguda.

O hoog, entretanto, estremecia com maior vivacidade, e quando o sintetizador se calou, o tradutor passou a exprimir em linguagem humana o significado das tremuras do embaixador:

— Hum. Aaaah. Bom. Bom. Bom. Hum. Aaaah. Ooooh! Ooooh! Ooooh! — e assim sucessivamente.

Serra pigarreou, olhando de soslaio para a Grandelasca, a qual apresentava uma máscara imperturbável.

— Provavelmente devíamos dar-lhe alguma privacidade — disse ela, casualmente.

Serra fez-se desentendido:

— Para quê? O tratamento decorrerá normalmente, connosco a ver ou não. E, se ficarmos, podemos sempre... hum... aprender qualquer coisa.

A técnica não respondeu, mas manifestou o seu desagrado fazendo deslizar os olhos pelo exterior da barquinha, onde nada se passava de especial. O presidente demissionário prosseguia o seu discurso, que chegava aos ouvidos dos técnicos deturpado por ecos e reverberações, e a assistência continuava dividida entre a plateia de gente famosa e a geral de anónimos. Na zona VIP, o tempo era dividido entre valentes cabeceadelas e aclamações a destempo, quando o aclamador acordava sobressaltado, despertado por uma qualquer peripécia do seu sonho e julgando que fora do território onírico, na realidade do tempo desperto, era aquela a altura certa para aplaudir. A um canto, um grupinho turbulento de profissionais dos media trocava histórias galhofeiras, fazendo deslizar olhos brilhantes de malícia pelos ricos e famosos, mas sem prestar a mínima atenção ao acontecimento em si, enquanto as suas tarjetas de identificação enviavam reflexos em todas as direcções. Quanto à zona popular, também conhecida entre os políticos, carinhosamente, pela “zona da ralé”, conseguia ser ainda mais turbulenta que o grupinho de jornalistas, estremecendo com as corridas de crianças que enchiam o ar com os seus guinchos, enquanto as famílias alternavam reprimendas e chamamentos dirigidos aos mais novos com bocas variegadas dirigidas aos políticos. De vez em quando, em resposta a algum dito mais engraçado, sectores inteiros explodiam em gargalhadas, e o burburinho alastrava à medida que se ia passando palavra ao longo da multidão. Fora daquele sítio, em Tonas passadas, que tinham saído quase todas as alcunhas dadas aos membros do governo, desde o Dumbo Disney, de seu nome Pilo Chino (também conhecido por Macaco Orelhudo, pois era raro o político que tinha só uma alcunha), o primeiro e último Ministro dos Assuntos de Primeira Importância (cargo cuja utilidade nunca foi compreendida por ninguém, criado pelo presidente Jorge Arbusto d’Oliveira e extinto pelo primeiro decreto do presidente que lhe sucedeu, para grande irritação de Arbusto d’Oliveira), até ao Furão Caixa-d’Óculos, que já tivemos o prazer de conhecer mais atrás.

A Grandelasca ia olhando para o que se passava no exterior sem que visse realmente alguma coisa. Tudo aquilo pouco mais era, para si, do que paisagem, um fundo multicolorido para os seus pensamentos. Mas um movimento houve que lhe despertou a atenção, quando um funcionário do Palácio se dirigiu ao dirigível após ter parado junto ao púlpito durante alguns segundos, tempo suficiente para ouvir qualquer coisa que o presidente lhe segredou, interrompendo para isso o discurso, o que fez subir sobrancelhas um pouco por todo o lado. A técnica seguiu com os olhos o trajecto do funcionário até se tornar claro que se dirigia para ali.

— Doutor — chamou, virando-se para o sítio onde o ET permanecia deitado, agora já mais calmo mas segregando, de uma área junto das ventosas, uma substância espessa e esbranquiçada que cheirava intensamente. Ao lado, o Chefe de Protocolo permanecia em pé, curvado para a frente, agarrado ao bloco de notas, escrevinhando furiosamente, e o tradutor, nas mãos do estafeta, já só ronronava.

Serra levantou os olhos e encurvou os lábios num sorriso para encarar a técnica. Esta apontou para o funcionário, que já chegava junto do grupo. Serra endireitou-se.

— Sim?...

— É o doutor Serra? O... hum... — olhou para um papel amarrotado que trazia na mão — o Chefe de Protocolo Para Contactos com Espécies não-Humanas?

— Naturalmente. Não está a ver aqui um não-humano?

— Eu não sei de nada. Só me disseram (o senhor Presidente disse) para vir aqui ao dirigível à procura do doutor Serra e dar-lhe um recado, só a ele e a mais ninguém. Não sei nada de não-humanos nenhuns. Então o Serra é o senhor?

Serra fez um gesto de impaciência. Tinha na frente outro burrocrata!...

— Sou sim, criatura. Diga lá o que tem a dizer.

— Hum... bom... o Senhor Presidente pede a sua comparência imediata no estrado. Disse-me para não voltar sem si e os seus acompanhantes.

— Então vai ter de esperar. O hoog está a recuperar duma pequena maleita, e não pode deslocar-se neste momento.

O outro mudou o peso, que não era muito, de um pé para o outro.

— Desculpe lá, mas o Senhor Presidente disse “imediatamente”.

Serra inspirou profundamente e levou a mão à testa. Depois colocou-se ao lado do funcionário, pôs-lhe a mão no ombro e fê-lo aproximar-se do extraterrestre.

— Está a ver isto? — perguntou.

— Hum... sim, mas...

— Muito bem — interrompeu Serra. — Então se quer ser um bom rapaz e cumprir à risca as ordens do nosso antigo presidente, vai ter de ser você a carregá-lo e besuntar esse seu lindo uniforme com aquela pasta branca. Mãos à obra! — concluiu, dando palmadinhas nos ombros do outro.

Este olhou para o hoog, depois voltou a olhar para Serra, engoliu em seco, deu meia volta e foi-se embora sem mais uma palavra. Serra ficou a vê-lo afastar-se, sorrindo.

Depois de lidar com políticos durante tanto tempo, um tipinho destes de vez em quando era até refrescante...

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

20.

O TRADUTOR AUTOMÁTICO, que fora ignorado pelo hoog e permanecia confortavelmente instalado nas mãos do estafeta, embalado pelos estremeções que este dava — estes nervos, estes nervos —, começou a zumbir, muito baixinho.

Serra e a Grandelasca aproximaram-se, tentando entender o que o aparelho ia dizendo, se é que dizia alguma coisa.

Até dizia, mas nada que se entendesse:

— ... tratamento para... em cima de... nada... bis... consciente do ambiente envolvente... evidentemente... recuperação... — e outros fragmentos de conversa semelhantes, uma palavra desgarrada aqui, outra ali, nada que se conseguisse juntar num significado concreto além, claro, do óbvio: o embaixador procurava informar-se por si mesmo acerca do que lhe acontecera. E não queria ouvidos metediços à escuta, porque assim que se apercebeu dos humanos reunidos em torno do tradutor automático, deslizou a grande velocidade até junto do grupo e arrebatou o aparelho das mãos do estafeta, desligando-o com uma sapatada e regressando à sua posição anterior.

Os técnicos humanos entreolhavam-se, esperando. Os outros, os mirones, encolheram os ombros e foram-se embora, juntando-se à massa de gente que assistia à tomada de posse do novo presidente, mesmo a tempo de saborearem o final da leitura das várias classificações da Tona e a proclamação oficial dos vencedores. Só um jornalista ficou por ali, passeando para cá e para lá, de mãos atrás das costas, depois de os seus pedidos de declarações terem sido rechaçados várias vezes por Serra, duas ou três vezes pela Grandelasca, e de ter sido corrido pelo Chefe de Protocolo quando tentava entrevistar o estafeta, o qual se mostrava cooperante e feliz pela atenção, atitude que lhe valeu uma severa reprimenda de Serra que só terminou quando a técnica resolveu intervir.

Durante um bocado, nada aconteceu. Só lá fora havia algum movimento, com o presidente demissionário a aprestar-se para iniciar o seu discurso de fim de mandato. Conviria talvez ao grupo estar presente, pelo menos quando o novo vice-presidente acabasse o discurso (para aplaudi-lo, naturalmente), mas a coisa iria ser longa — não havia pressa. O ET mantinha-se mais ou menos imóvel, exceptuando-se os habituais movimentos convulsivos que indicavam a fala e uma espécie de pirueta de vez em quando, que ninguém entendia.

Isto até que o hoog se virou de novo para os técnicos, se aproximou e entregou o tradutor ao chefe de protocolo. Ligado. Estremeceu, e o tradutor disse:

— OK, meu. Tou-te a ver. Tá baril. Mas já tou no chão, não?

— Perdão?... — respondeu Serra, sem compreender.

— Não, não. Tou-te a dizer. Tás na boa. A ira com que súbito alterado / o coração dos Deuses foi num ponto / não sofreu mais conselho bem cuidado / nem dilação nem outro algum desconto. Mas tudo bem. A erva é boa. A maquineta malhou-a bem. Não tens de pedir desculpa. Porém, passado o tempo e findo o voo, terminado o motivo de enjoo, man, já basta, preciso daquilo que tá na pasta.

— Pasta?! Que pasta?

— Não, man, não é gaveta, é pasta, é esta maquineta — o hoog apresentou o sintetizador. — Tás a ver? Há cá uma cena que faz perder os efeitos à hoogabis, que são baris mas não podem permanecer.

— Hum... acho que estou a entender. Joanina? Que te parece?

— Parece-me que é óbvio que ele está a dizer que precisa dum antídoto, que estará no sintetizador. Não percebi é se espera que sejamos nós a dar-lho...

Que-que-que-que, pensou Serra, chocado com aquela fraseologia esquisita, mas tá bem. O chefe de protocolo pensava o mesmo e incompreendia também a mesma coisa. O hoog desfez as dúvidas, estremecendo:

— Não, man, não sejas grunho! Eu tou só a explicar, OK?

— Iá... — deu Serra por si a dizer antes de corrigir, atrapalhado: — ou melhor, sim.

O hoog pareceu satisfeito na sua inexpressão habitual, segurou o sintetizador de uma maneira impossível a qualquer animal com mãos de cinco dedos e polegar oponível, e estremeceu ainda um pouco antes de fazer passar os seus apêndices mais finos por uma certa zona da máquina, tão depressa que os tornou indistintos. A zona em questão perdeu a cor, que era verde-azeitona, passando a branco-talo-de-couve, voltando de seguida, lentamente, à cor original, ao mesmo tempo que o tradutor traduzia:

— Isto vai demorar um gugguda.

Que diabo seria um gugguda?...

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

19.

A SAÍDA DE TODA AQUELA GENTE da barquinha foi a aborrecida espera do costume, enquanto os pés se arrastavam em passinhos miudinhos e gingados e os empurrões subtis da multidão iam ajudando a forçar o movimento de toda aquela mole humana para as saídas. O problema era que havia mais mole humana do que saídas. O casco de diamante artificial, a fim de manter a sua integridade estrutural e a consequente vantagem sobre outras formas de construção, tinha de possuir o mínimo possível de soluções de continuidade, e assim poucos eram os orifícios que o atravessavam. Duas portas apenas, na zona central do casco, eram toda a comunicação existente entre o interior e o exterior, à parte alguns orifícios tão pequenos que nenhum corpo humano os atravessaria, nem que se encolhesse, torcesse e contorcesse até à impossibilidade. E, embora as portas fossem largas o suficiente para que uma evacuação de emergência não demorasse um tempo excessivo, o cerimonial da Tona não se compadecia com pressas, e as pessoas aglomeravam-se junto à saída enquanto os candidatos iam descendo vagarosamente a rampa, um a um, na ordem inversa da classificação, aplaudidos por apoiantes e vaiados por opositores, o que fazia com que os assobios e os gritos de escárnio fossem ensurdecedores durante a maior parte do tempo. Isso não parecia ter nenhum efeito sobre os políticos, que mantinham, todos eles, sorrisos em tudo idênticos e procuravam ser filmados pelos media na melhor das suas poses, e com o ar próspero e blasé do homem bem sucedido.

O pequeno grupo que incluía o extraterrestre deixara-se ficar para o fim, por medida de precaução, a fim de poupar ao frágil corpo do hoog pisoteios e entalões. Serra, já refeito da cotovelada (embora o estômago ainda lhe doesse sempre que se punha em certas posições, o diabo da louraça era forte!...), assistia ao espectáculo através das paredes da barquinha, com as mãos displicentemente afundadas nos bolsos e traços carrancudos desenhados na cara. A técnica, a seu lado (mas mantendo uma distância de segurança), também assistia ao que se ia desenrolando na sua frente, de braços cruzados, embora devesse estar a pensar noutra coisa qualquer, porque um sorriso trocista ia e vinha nos seus lábios. Tinham entregue ambos os aparelhos ao estafeta, que os segurava, a medo, com mãos trémulas e olhos assustados. Quanto ao ET, observava tudo aquilo com um ar tão indecifrável como sempre.

O ar indecifrável do hoog, entretanto, começou a decifrar-se quando ele de súbito desatou a contorcer-se durante um período relativamente longo, atraindo a atenção dos técnicos, do estafeta e da meia dúzia de retardatários que ainda os cercavam. O tradutor soltou um ruído gorgolejante, e pôs-se a tremer nas mãos do estafeta, que soltou um guinchinho estrangulado ao sentir aquela sensação que lhe pareceu estranhíssima. O ET voltou a contorcer-se, desta vez durante muito menos tempo, e o tradutor finalmente disse qualquer coisa em língua de gente:

— Vocês, man, são uns pândegos. Já chegam perto, e não passos lentos / dos jardins odoríferos formosos. Lá na terra também temos bacanos que fazem destas cenas num vale ameno, que os outeiros fende / vinham as claras águas ajuntar-se / onde uma mesa fazem, que se estende / tão bela quanto pode imaginar-se e vai daí, man, põem ovos, o que é altamente porque se não pusessem ovos a malta já tínhamos bazado toda do tecto pra fora e isso era fedorento.

O quê?!, pensou Serra, estupefacto, mas não teve tempo de elaborar porque o tradutor continuava:

— É mais ou menos assim, bacanos e bacanas e bacanes, que lá na terra os pirilóides são três, o corpo nu e os membros genitais / por não ter ao nadar impedimento / que recebem de Febe crescimento, e vai daí óspois é baril e a malta chafurda um bocado e fica com o espírito cor de pântano luminoso...

Serra olhou a Grandelasca: estaria a entender o mesmo que ele? Pela cor que apresentava, vermelhusca, pelos vistos estava...

— Mas uma cena, Motoserra, não percebo, — prosseguiu o tradutor, enquanto o ET se aproximava de Serra e parava na sua frente — mesmo que a ache uma curte. O prazer de chegar à pátria cara percebe-se, tás a ver?, mesmo se é cor de estrume como o vosso. Mas como é que fazem com aquela trapalhada toda em cima?

— Doutor, ele pensa que...

— Pois pensa.

Uma pausa, enquanto os técnicos olhavam um para o outro, pensativos, interrompida por um estremecimento num dos braços do hoog:

— Falai! Que quereis dizer com “ele cirunvalaciona”, bacanos?

Serra voltou a olhar para a técnica, mas não para vê-la: tentava apenas arrancar do seu cérebro cansado uma solução qualquer para mais aquela confusão.

Bolas, que é demais! Maldito o dia em que decidi meter-me nisto!

— Doutor?... — murmurou a técnica, fazendo um gesto em direcção do tradutor automático, que continuava a estremecer, pendurado de uma das mãos do estafeta.

— Hã? — resmungou Serra, sem perceber.

— Precisamos de falar, doutor — insistiu a Grandelasca, voltando a indicar com um gesto de cabeça o tradutor automático, que resolveu soltar mais um ruído bizarro, seguido de:

Para julgar, difícil cousa fora. Mas, cum caneco!, tá-me a dar deslizamentos por não me responderem! Falai, criaturas!

— Hã!? — repetiu Serra. Mas depois compreendeu: — Ah! — e acrescentou — Vossa excelência há-de desculpar, mas necessitamos de conferenciar por um momento. É um momento só. — e, com um gesto rápido da mão esquerda, desligou o tradutor automático.

— Ufff... — suspirou logo em seguida — lidar com um ET já é difícil, lidar com um ET e políticos terrestres é quase impossível, mas lidar com um ET, políticos e um tradutor automático com a mania que é poeta épico é de dar em doido!...

Se a Grandelasca acrescentou alguém ao rol de criaturas impossíveis de aturar, fê-lo só em pensamento.

— Pois é, — disse — e agora estamos com um problema sério. O doutor também acha que o hoog se convenceu de que isto é um ritual de acasalamento, não acha?

— Parece que sim. E o pior de tudo é que não dá para falar claramente com ele. A porcaria daquela maquineta não traduz decentemente uma frase, para amostra... Raios a partam! — desabafou Serra. — Que é que a gente faz?

Outra pausa. O ET pôs-se a ventosar para trás e para diante, naquilo que muito provavelmente era uma manifestação de impaciência. E, se o fosse, era a primeira expressão hoog que se tornava inteligível para humanos sem passar primeiro por filtros mecânicos ou biomecânicos, um marco, algo capaz de fazer notícia de destaque em todos os media, assunto para teses de doutoramento ou mestrado, enfim, mais um triunfo da ciência humana.

Mas Serra e a Grandelasca não deram por nada. Tinham mais que fazer do que ficar o tempo todo o olhar para o ET. Tinham o cérebro demasiado ocupado para desperdiçar sinapses em especulações ociosas acerca do significado deste ou daquele comportamento do extraterrestre. Enfim, estavam noutra.

E é assim, às vezes, que não avança a ciência.

— Temos de fazer qualquer coisa... — murmurou a Grandelasca.

— Pois... — resmungou o chefe de protocolo, coçando a cabeça. E acrescentou: — Mas...

— É. — disse a técnica.

Poder-se-ia perguntar para que tinham aqueles dois desligado o tradutor automático, se a conversa que planeavam ter era assim, uma troca de monossílabos murmurados e nada mais. O hoog continuava a movimentar-se para trás e para diante, fornecendo à reflexão dos técnicos um fundo sonoro composto por ruídos de sucção, daquele tipo de som repetitivo e repugnante, capaz de fazer nascer no mais plácido cidadão um nervoso miudinho potencialmente explosivo, o que obviamente não ajudava em nada na busca de uma solução.

Até porque não havia qualquer solução. O ET estava drogado, ponto parágrafo, e drogado-ponto-parágrafo permaneceria durante várias horas; o tradutor traduzia, se calhar, o melhor possível, mas esse melhor possível resumia-se geralmente a um disparate pegado; e as cerimónias terrestres eram o que eram, se bem que para olhos hoog fossem muito diferentes do que eram se vistas através de olhos terrestres.

Tinham entre mãos um choque cultural em estado agudo, uma comunicação problemática e algumas dificuldades cerebrais por parte de uma das partes. Ponto, parágrafo. Nada havia a fazer.

Ou por outra, até podiam fazer alguma coisa: deixar o ET ali e raspar-se os dois, juntos, para qualquer sítio longe da civilização, uma ilha deserta qualquer algures no Pacífico, das poucas que ainda estavam acima de água, um território de novo virgem, cheio de cocos e da mandioca que tivesse lá sido esquecida pelos últimos habitantes antes da evacuação humanitária forçada da década anterior, com populações de coelhos e galinhas enraizadas nos farrapos sobreviventes do ecossistema local, enfim, um lugar onde os dois, juntos, se pudessem esquecer de que um dia tinham conhecido um ET que não dizia coisa com coisa e que tinha de ser drogado se por acaso era elevado muito acima da superfície do planeta, um membro duma espécie que dominava o voo entre as estrelas e que tinha medo das alturas.

Claro que esta ideia passou apenas pela cabeça de Serra. A Grandelasca nunca se lembraria de tal coisa.

Muito menos o ET, que finalmente se fartou de estar à espera, se aproximou do tradutor e, num movimento rápido, o ligou, desatando a tremer e a esbracejar logo de seguida.

Dir-se-ia que estava irritado...

Oh! Caso grande, estranho e não cuidado! — traduziu o tradutor enquanto o embaixador continuava a gesticular — Oh! Milagre claríssimo e evidente! / Oh! Descoberto engano inopinado! / Oh! Pérfida Inimiga e falsa gente! Mas que borbulham aí entre vocês? Que lamas verdes trocam? Por que não me dão a sabedoria soberana do vosso entendimento? Fónix, man! Se o irmão de gosma não se prepara para fertilizar o pântano, que se passa ali, afinal? E que caçada foi aquela, man? Que cena foi aquela, chavalo? Porque andaram tantos fininhos atrás dum marmelo a tentar apanhá-lo? Na volta não foi caça, man? Será só o prazer de chegar à pátria cara / a seus penates caros e parentes / para contar a peregrina e rara / navegação, os vários céus e gentes? Man! Não percebo nada! Não consigo usar a cachola. Vocês não fazem sentido! Ninguém me explica! Ninguém me explica!...

— Senhor emb... — tentou interromper Serra.

— Ninguém me diz que cena é esta! — continuou a debitar o tradutor, enquanto o extraterrestre se punha a andar em círculos, sem interromper por um segundo os seus estremeções e os movimentos convulsivos dos braços — Tou aqui sozinho no meio de monstros fininhos mas feiosos, que fazem cenas que não têm ventosas nem tentáculos, e ninguém me explica! Oh, perfídia! Oh, anticlímax! Oh, orgasmo seco sem saco! Man! Man! Man! Eu quero a minha mãe, o meu pai e o meu pãe! Quero voltar para o ovo, de novo na desova do povo! Quero bazar, man! Bazaaar! Mas oh! Não me fujas! Assim nunca o breve / tempo fuja da tua formosura! Não posso, man. Não posso. Tenho de ficar aqui, tentar falar com estes nojos, comunicar a supremacia do muco aos infiéis, ganhar...

— Senhor embaix... — voltou Serra a tentar interrom-per...

— ... a confiança destes murcões, destas alcagoitas almariadas, destes sacos de pêlos que não se mexem, ganhar-lhes a confiança pró comércio, pra fazer negócio, pra trocar coisas por coisas, pró lucro, man, pró lucro, pra sair daqui rico, pra...

— Senhor embaixador! Pare! Cale-se! — gritou Serra, agarrando nos braços do extraterrestre.

— ... com peitas, ouro e dádivas secretas / conciliar da terra os principais. Mas nem sei quem são os principais! O irmão de gosma era principal? Seria? Não seria? Oh! Cruel dúvida! Oh! Assombração de mo... — ainda continuou o tradutor a traduzir antes de se lhe esgotarem os dados no buffer.

O que acabou por acontecer. Mas, curiosamente, o tradutor continuou a largar ruídos que se podiam verter em texto mais ou menos assim:

— Muuummmimmmuuuumumumimuummmu...

— Calma, Agtar — disse Serra, ainda agarrado ao braço do extraterrestre. — Nós explicamos, OK? A gente explica tudo, tá bem? Calma. Pronto. Já passou. Calma.

O tradutor automático acabou por silenciar-se.

— Pronto, calma. Já podemos conversar? — interrogou Serra, enquanto soltava o braço e limpava as mãos à bata.

O hoog estremeceu, e o tradutor rosnou:

Foda-se!

Serra deu um salto para trás, no que foi acompanhado pela técnica, pelo estafeta e pelos dois ou três curiosos que permaneciam ali por perto, agora que o grosso dos passageiros do dirigível já tinha saído e já se tinha ido colocar a jeito de seguir a parte final das cerimónias, a tomada de posse propriamente dita.

— Senhor Embaixador — disse Serra assim que se recompôs, dobrando-se um pouco, por instinto, apesar de saber perfeitamente que o gesto não significava nada para o ET — peço-lhe o mais humilde dos perdões. Lamento se o ofendi de algum modo, mas foi a única forma que encontrei de conseguir conversar com Vossa Excelência de maneira calma e construtiva.

Uns quantos estremeções. O tradutor traduziu:

São estes os sacerdotes dos Gentios?

— Perdão?

— São vocês os sacerdotes dos Gentios, criatura? Vocês, que agarram, que manipulam, que torcem, que provocam a exsudação da água lilás? São vocês o que de melhor há no vosso planeta? São vocês que corrente de ar?

— Ele pergunta se somos nós os técnicos principais, doutor — murmurou a Grandelasca.

— Percebi — respondeu Serra, um pouco irritado. — Mas ele sabe perfeitamente que sim, não percebo por que raio está agora a pôr essas dúvidas... — e, para o hoog:

— Sim, Senhor Embaixador. Com efeito somos nós.

— E o Irmão de Gosma, quem é?

— Ele refere-se ao anterior presidente, doutor...

— Eu sei! — exclamou Serra, virando-se para a Grandelasca, de cenho franzido. Mas a técnica pestanejou duas vezes, sacudindo os olhos de um lado para o outro, apontando-os alternadamente ao olho esquerdo e ao direito do chefe de protocolo, e o cenho alisou-se como que por magia. — Joanina, por favor. Quando eu precisar de ajuda, peço-ta, sim?

A técnica limitou-se a sorrir, e a apontar com a cabeça para o ET, que estava de novo a gesticular. O tradutor traduziu:

— Criatura! Falo contigo! Quem é o Irmão de Gosma?

— Perdão excelência. O... o Irmão de Gosma era o nosso líder máximo. O nosso... — Serra hesitou. Como soaria em hoog o que ia dizer em seguida? Seria fiel, a tradução? Soaria tão caricata como “irmão de gosma”?

E que adiantava perder tempo com tais reflexões?

— Era o nosso Presidente.

Era? — soltou o tradutor automático. E desta vez, para variar, a tradução foi tão bem feita que até fez ouvir o itálico.

Serra confirmou:

— Sim, senhor Embaixador. Ou melhor, e para ser preciso, ainda é, mas vai deixar de ser dentro de alguns minutos, assim que se conclua a cerimónia que se desenrola no jardim.

O hoog, assim que a tradução lhe chegou aos ouvidos, deslizou para junto da parede da barquinha. Dali via-se o estrado, que estava disposto perpendicularmente ao dirigível e onde já se encontravam sentados todos os candidatos. Via-se também o púlpito, onde o cerimonial principal iria ter lugar, dirigido por um outro chefe de protocolo, este a sério, um verdadeiro burocrata da boa educação formal, um homem ossudo que respondia pelo nome de Guedes, com uma grande cabeleira branca que lhe emoldurava o sorriso permanentemente inexpressivo, que tratava toda a gente por “Sua Excelência” e que já se encontrava atrás do púlpito a ler para um microfone um papel (mais desperdício arcaizante mas prestigioso), através do qual era dada a conhecer a classificação final da Tona. E via-se, por fim, a zona destinada ao público, dividida em dois sectores bem delimitados: o mais próximo destinado aos passageiros do dirigível e aos media, com várias filas de bancos repletos de gente, e um outro mais afastado, que se prolongava por uma longa rampa ascendente que transformava o conjunto numa espécie de anfiteatro informal, e que era destinado ao público anónimo, embora se encontrasse quase vazio. Mesmo assim, era daí que se iam elevando as manifestações mais ruidosas, gritos de apoio a um ou a outro candidato ou, com maior frequência, longos assobios e vaias repletas de insultos. Tudo normal, portanto.

O hoog observou por alguns momentos o que se ia passando no jardim (nada, visto que a leitura da classificação geral da Tona era longa e monótona, monotonia essa ainda agravada pelas dificuldades do velho Guedes em seguir fielmente o texto. O homem estava meio gagá, e tropeçava em muitos dos nomes dos atletas, que soavam estranhos aos seus ouvidos… e, saídos da sua boca, soavam estranhos a todas os que os ouviam). Depois, estremeceu:

— Isto é, então, um banho de linfa? Que geração tão dura há hi de gente / que bárbaro costume e usança feia! E eu a pensar que vocês eram uns bacanos! Afinal retiram a linfa aos vossos chefes. Man!... Que cena!

— Não, não, não — disse Serra, muito depressa — não se trata de sacrifícios!...

O hoog, quando a tradução lhe chegou, olhou para Serra.

— Motosserra, fala com sentido! Que treta é essa de não haver artifícios? A que propósito vem isso?

Arre! Mais uma bacorada do tradutor!, pensou Serra, irritado, enquanto abanava a cabeça.

— Perdão, Excelência. Queria dizer que não há derramamento de linfa. A transição é pacífica, e todos vivem.

Maaaannn... esta cena não me tá a bater bem! Começo a desconfiar que não tou bom. E o Deus que foi num tempo corpo humano / e, por virtude de erva poderosa / foi convertido em peixe, e deste dano deixei de conseguir respirar à superfície...

Serra e a Grandelasca entreolharam-se. A técnica encolheu os ombros mas nada disse. Era claro que o ET começava a desconfiar de que não estava no seu estado normal, o que mostrava que começava a regressar à lucidez plena. Que tinha dito o sintetizador? Que os efeitos eufóricos duravam doze horas? Mas nem uma hora se tinha passado desde a injecção... e havia já algum tempo que o hoog não se mostrava eufórico, bem longe disso...

Mas como é que o sintetizador tinha feito chegar aos humanos a informação? O sintetizador não falava em língua de gente, e Serra nem mesmo sabia se era língua de hoog a que ele usava. Ou seja, tinha sido necessária a intervenção de um filtro terceiro...

O tradutor automático.

O mesmo tradutor automático que transformava em verso decassilábico longas tiradas dos discursos que traduzia. O mesmo tradutor que lhe chamava “motosserra”. O mesmo tradutor que já tinha gerado múltiplas confusões entre o hoog e diversos personagens desta história. Enfim, o mesmo tradutor que, nas imortais palavras do antigo presidente Jorge Arbusto d’Oliveira, tão imortais que tinham encontrado um caminho para o seu epitáfio, eram uma “grande dor no rabo”, o que não era mais do que uma antiga expressão inglesa, traduzida de forma literal e desastrada.

Ou seja, nada de mais adequado para chamar ao tradutor automático.

Mas é certo que o hoog, se não estava eufórico, estava pelo menos expansivo. Como já se disse, falava pelos cotovelos — literalmente. Tinha perdido aquela dignidade silenciosa que é tão associada ao trabalho subtil dos diplomatas e que, pelos vistos, se estende até aos que não são humanos. Estava obviamente drogado. Gerava incidentes em ritmo vertiginoso, e parecia começar a dar-se conta disso.

Seria boa ideia aproveitar para lhe dizer o que se tinha passado? Seria boa ideia abrir agora o jogo?

— Joanina... — começou Serra. — Dizemos-lhe?

— Não faço ideia, doutor. Essa decisão é sua. — Respondeu a técnica, esfregando as mãos uma na outra como se tivesse frio.

Passado algum tempo, o suficiente para a tradução lhe ter chegado, o ET voltou-se e estremeceu:

— Que há, agora? — disse o tradutor automático.

Serra hesitou. Mas, que raio, as coisas já estavam a correr tão mal que piorar seria difícil!...

— Como sabe, vossa excelência teve um pequeno colapso, rapidamente solucionado com recurso aqui ao sintetizador. Acontece, no entanto, que o aparelho, após diagnóstico, recomendou a aplicação de uma dose de hoogabis, o que obviamente fizemos dado tratar-se de diagnóstico e profiláctica produzidos por um aparelho de fabrico hoog, e portanto vossa excelência encontra-se... — Serra interrompeu-se ao ver que o extraterrestre começava a esbracejar furiosamente. E pela primeira vez agradeceu a existência dos atrasos das traduções simultâneas: quando esta chegou, já estava mais ou menos preparado para o que aí vinha.

— Drogado, man? Vós haveis-me drogado, man? Vocês, ó bacanos, meteram-me hoogabis na carola, man? Andais de vosso sangue, ó gente insana? Quereis perder a linfa nos meus braços? Não estão bons da cachola? Falta-lhes um par de parafusos? Tendes demasiados pregos para o caixão, deixais cair a mão, no chão? Então? Estas obras de Baco são, por certo! Estavam bezuntos, só pode! Como lhes veio essa ideia marada, man? Hoogabis? No meio de um contacto diplomático? Maaaaan! Tou-me a passar! Estes fininhos são doidos! Doidos! Marados de todo! Feios e chalados como rabejadores alados dos céus verde-prado de Makoone. Que cena! Mas que cena macaca! Eu passo-me, man! E não me calo, man! Claro, tou marado, man! Porque é que eu falo pelos cotovelos, pensava eu há bocado... claro! Por causa da hoogabis! Já julgo por mau zelo e por crueza / desejar mal a tanta fortaleza! Ouve, Motosserra, de quem foi a ideia? Quem foi o marado? Quem? Hã? Quem?

Serra suportou estoicamente a diatribe até ao fim, mas depois, em vez de responder, fez uma pequena vénia, virou-se para o estafeta cujos olhos saltitavam, muito abertos, entre o terrestre e o extraterrestre, e cuja pele (ou pelo menos a parte dela que se via por baixo dos restos secos de muco) estava branca como o pêlo de um urso polar no meio do nevoeiro, retirou-lhe das mãos o sintetizador, virou-se para o ET com nova vénia e apresentou-lhe o aparelho.

O hoog ficou um momento na expectativa, mas acabou por arrancar o aparelho das mãos do Chefe de Protocolo e por afastar-se alguns passos com ele, virando-se para as cerimónias da Tona, ou seja, de costas para os técnicos humanos.

Serra ainda pensou em segui-lo, a fim de tentar ver o que ele estava a fazer, e chegou a esboçar um movimento nesse sentido, mas foi retido pela mão da Grandelasca no seu braço. Olhou-a. Ele abanava a cabeça, lentamente. Mas não foi isso que o convenceu a ficar quieto: foram os olhos.

Pestanejavam.