segunda-feira, 6 de outubro de 2008

11.

TAMBÉM É VERDADE QUE não teve muito tempo para tentar pôr um sentido naquela conversa, porque logo em seguida o nível de ruído voltou a aumentar e começou a dizer-se nas redondezas que os seguranças tinham interceptado qualquer coisa à entrada da barquinha. Serra pôs-se de pé e espreitou por cima da multidão, tentando entender o que se passava, temendo que fosse o que temia. E era. A Grandelasca e o estafeta tinham chegado, carregados de material com um aspecto que devia parecer altamente suspeito aos olhos da segurança, porque um cordão de homens devidamente espadaúdos formava uma barreira impenetrável em torno da entrada e procurava retirar a aparelhagem das mãos da técnica e do estafeta. Este cedia os aparelhos que carregava de bom grado, com um sorriso tímido afivelado num rosto que como que gritava inocência através de cada poro. Aquela, bem pelo contrário, lutava por manter a posse dos objectos que transportava, fazia ameaças, soltava gritos estridentes, exigia falar com Fulano, Sicrano e Serra, enfim, armava escândalo. À sua volta, a multidão de ricos, poderosos e candidatos a ricos e poderosos afastava-se, com receio de algum atentado, embora os homens não conseguissem evitar lançar à técnica longos olhares apreciadores, que tinham como consequência automática que as suas acompanhantes femininas os brindassem com puxões, beliscões, palmadas dadas com as mãos ou com carteiras e revistas de plástico e palavras rosnadas de forma enfática.

Serra tinha-se esquecido de avisar (ou de mandar avisar) a segurança da chegada daquele material. Ele próprio entrara sem qualquer problema porque já o conheciam. Trouxera o tradutor automático sem ser interceptado porque antes de colocar o aparelho ao serviço da comunicação com o Presidente, ainda lá em baixo, no palácio, os serviços secretos tinham-no examinado com todo o cuidado, para ver se era inócuo ou se traria, algures nos recônditos impenetráveis do seu interior biomecânico, uma super-arma qualquer. Mas a Grandelasca, e especialmente o material que transportava, não tinham autorização de segurança. Não tinham entrada automática em todos os lugares presidenciais. Muito menos no dirigível, em dia de Tona, um dos mais sensíveis locais do planeta.

Serra coçou a cabeça, indeciso. Devia ir ajudar, mas não podia deixar o ET ali sozinho. E se alguém o pisasse, pontapeasse ou esmagasse?

Por outro lado, quando chegara ele estava abandonado no chão e nada lhe acontecera de mais grave do que algo ou alguém lhe ter desencaixado o filtro atmosférico, o que podia até ter acontecido no momento em que o hoog caíra, sem intervenção de nenhuma força exterior à gravidade.

Mas e se o ET acordasse? Tinha de ter alguém que o introduzisse lentamente à situação e não o deixasse ver imediatamente o lugar onde se encontrava. Ou, melhor, o lugar acima do qual se encontrava...

O certo era que tinha de ir ajudar. Sem os aparelhos que a Grandelasca trazia, a probabilidade de o embaixador conseguir embaixadar em tempo útil eram remotas. Especialmente sem aquele aparelhómetro alienígena que mais dúvidas e cuidados devia levantar à segurança. Nem mesmo Serra estava muito convencido da sua inocuidade: a maior parte das funções da máquina, tão orgânica como o tradutor automático e mais misteriosa ainda, eram totalmente desconhecidas dos terrestres, que se limitavam a usá-la seguindo aquilo que fora possível decifrar das instruções recebidas dos hoog, um gigantesco ficheiro de quase três terabytes do qual só tinha sido decifrada uma percentagem muito reduzida.

O que se decifrara, no entanto, mostrara que aquilo podia funcionar como um médico automático para a fisiologia hoog.

Era imperativo que a segurança deixasse passar aquela máquina!

Serra olhou em volta, à procura de alguém que fosse suficientemente de confiança para ficar a guardar o extraterrestre enquanto ele ia conversar com a segurança e voltava. Não viu ninguém. Muitos dos que o rodeavam, parte da comitiva presidencial, mostravam-se ausentes, ou fechados em si próprios numa melancolia derrotada, imitando o futuro ex-presidente que continuava a fitar as peripécias da Tona com olhos aguados. Outros olhavam em volta, aparentemente à procura de alguma coisa. Outros ainda conversavam em sussurros conspiratórios, pelos comunicadores, com interlocutores invisíveis que lhes respondiam ao ouvido palavras cujo significado só era aparente pelas reacções inconscientes que causavam na fisionomia dos futuros ex-membros do gabinete. Cada um absolutamente absorvido nos seus próprios assuntos, cada um perdido nas paisagens cinzentas dos seus próprios pensamentos, nos montes e vales (mais vales que montes, naquele momento) dos seus territórios privados.

Eram todos imprestáveis. Sem excepção.

E entretanto, a confusão junto à porta subia de tom. Serra espreitou uma vez mais por sobre o mar de cabeças, que se começavam a voltar com maior insistência naquela direcção, incomodadas pelo ruído e curiosas com aquela perturbação da ordem pública (o que não deixava de ser irónico, se se tivesse em conta a gritaria que imperava naquele lugar — aparentemente uma coisa era gritar a favor ou contra os acontecimentos da Tona, e outra muito diferente era gritar a propósito de um conflito de interesses relacionado com o acesso ou não ao local. Mesmo que as palavras fossem quase iguais e os decibéis também). A Grandelasca tentava esbracejar, já sem o sintetizador nas mãos, agarrada por três dos casacos de basebol negros da segurança, disparando o mais sonoramente que era capaz longas rajadas de insultos e apelos, nos quais o nome Serra fazia aparições frequentes. Um quarto casaco negro afastava-se em direcção à saída, com um saco de plástico na mão, bem afastado na sua frente, contendo um sintetizador não muito bem tratado, que segregava muco cor de rosa com ar desanimado. Dos restantes aparelhos, já não havia nem sinal.

Merda!, pensou Serra, começando a correr em direcção da entrada, afastando quem quer que se lhe atravessasse no caminho com empurrões, encontrões, rasteiras, cotoveladas, insultos, o que fosse preciso, enquanto berrava:

— Parem! Parem! Parem! Parem!...

Pararam. Uma investida daquelas pararia qualquer um.

Mas os casacos negros, parando embora, sacaram das suas pistolas tranquilizantes e apontaram-nas ao investidor, pelo sim pelo não.

Serra, por sua vez, quando se apercebeu de que se tinha transformado em ponto de mira para um conjunto letal de pistolas tranquilizantes, um autêntico alvo Rorscharch em movimento, também parou, ergueu as mãos acima da cabeça e gritou:

— Óóóó! Calma! Calma! Está tudo bem!

Esboçou um sorriso, que lhe saiu amarelo-vivo, e acrescentou:

— Sou eu, o Serra, Chefe de Protocolo Para Contactos com Espécies não-Humanas. Alta figura do Estado. Vocês conhecem-me. Essa senhora é a Joanina Grandelasca, que trabalha comigo, e o jovem tem-me ajudado, como se pode ver pela cor da camisa. Tudo legal, no mais alto interesse do Estado. Certo?

Os casacos pretos entreolharam-se, acenaram uns para os outros e baixaram as pistolas. Um deles, certamente o mais graduado, falou:

— Pedimos desculpa, doutor. Mas estes dois indivíduos sem credenciais de segurança tentaram introduzir-se no dirigível, transportando objectos não-credenciados. É nosso dever detê-los para proceder a averiguações e avaliar o grau de risco que representam para a segurança do Estado, e remover imediatamente os objectos do local.

— Fui eu quem os mandou buscar — disse Serra — quer a eles, quer aos aparelhos. São inofensivos, mas fundamentais para prestar assistência ao extraterrestre.

— Peço desculpa, doutor, mas sem uma ordem directa do Presidente, teremos de seguir os procedimentos regulamentares para estas situações. Portanto se nos der licença...

— Espere! Sabe que as minhas competências me foram delegadas directamente pelo Presidente?

O casaco negro hesitou.

— Com o devido respeito, doutor, não me consta que Vossa Excelência tenha competências a nível da segurança do Estado. Se nos der licença...

— Não dou! A mulher e o estafeta podem não entrar, mas eu preciso desses aparelhos. Pelo menos daquele que ali o seu amigo tem no saco de plástico. Imediatamente. Cada minuto conta.

— Lamento imenso, doutor, mas não posso fazer isso. Se nos der...

— Você percebe, por acaso, que o extraterrestre corre perigo de vida? — gritou Serra, começando a ficar desesperado.

— Não sabia, doutor, mas não vejo o que é que isso tem a ver com a segurança...

— Não vê?! Não vê?! Aquilo é um embaixador, criatura! Um embaixador duma espécie capaz de viagem interstelar! Que pensa que nos acontecerá a todos e à sua querida segurança do Estado se ele volta para casa com más notícias a nosso respeito ou, pior, se não volta para casa de todo?

— Mas os objectos não estão cert...

— Qual é o seu nome, agente?

— Sombrio, senhor. José Sombrio. Mas não estou a ver...

— Posto?

— Tenente da Brigada Aerotransportada da Agência Central de Informações, senhor.

— E não quer deixar entrar no dirigível os aparelhos necessários para prestar assistência ao primeiro embaixador extraterrestre da história humana, contribuindo para o eventual agravamento do seu estado de saúde e, eventualmente, podendo vir a ser directamente responsável pela sua morte, é isso?

— Bem... eu...

É isso?

O casaco negro olhou para os colegas, em busca de apoio, com ar infeliz. Os colegas olhavam fixamente para o vácuo por baixo dos seus pés.

— Pergunto mais uma vez: É isso?

— Não, senhor!

— Então? Posso introduzir os aparelhos no dirigível?

— Bem... a seg...

Posso-ou-não-posso?

— Sim, senhor! Aquele aparelho, senhor!

— E os meus colaboradores, podem entrar?

— Sim, senhor!

— Lindo menino! — disse Serra, com um suspiro de alívio e, fazendo sinal para a Grandelasca e para o estafeta, acrescentou: — Venham!

Desta feita, não foi preciso usar os cotovelos nem abrir caminho à força de empurrão. A discussão tinha conseguido a proeza de desviar da Tona (que se encaminhava para o desfecho, de qualquer forma, e já parecia decidida) o interesse dos presentes, e o rumor de que havia uma potencial bomba dentro do dirigível já se tinha espalhado por toda a barquinha, criando ondas de preocupação nos presentes e abrindo clareiras em torno dos técnicos e do extraterrestre.

Em situações destas, o ser humano tem capacidades insuspeitadas de encontrar espaço vazio onde nenhum existia antes.

Quanto aos agentes da segurança, ficaram a observar o trio que se afastava, com grandes gotas de suor frio a nascer devagar das suas testas profissionalmente impassíveis, levando inconscientemente as mãos ao pescoço, tentando afastar a corda invisível que sentiam a apertá-lo, cada um pensando no azar insuperável de ter acontecido uma coisa daquelas precisamente no seu turno.

Pois é. O azar é parte da vida.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

10.

QUANDO A MANTA FINALMENTE chegou, Serra precisou da ajuda do estafeta. Havia que segurar no ET enquanto Serra desenrolava a manta num espaço que teria de abrir à custa de cotoveladas, mantendo tanto quanto possível um olho sobre o tradutor automático (que teria de ser abandonado no chão da barquinha, porque as quatro mãos que duas pessoas totalizam estariam ocupadas com o hoog e com a manta), não fosse alguém pisá-lo, pontapeá-lo ou dar cabo dele de outra qualquer forma mais criativa.

Mas não parecia haver estafeta nenhum nas redondezas. Serra olhou em volta, agachado, conseguindo apenas descortinar um mar de pernas enfiadas em tecidos berrantes. Chamou (Puto!), mas o barulho era tanto que teve dificuldade em ouvir o que saía da sua própria garganta. Esganiçou-se (Ó estafeta!), ao mesmo tempo que se punha em pé e se amaldiçoava por nunca ter perguntado ao outro como se chamava e ser, assim, obrigado a fazer aquela figura. Voltou a olhar em volta, já de pé. Ao primeiro varrimento, não o encontrou, mas ao segundo deu com uma cara branca como a cal (fora as nódoas de muco, claro está), com um olho escondido pela curvatura do nariz mas com um segundo olho visível e saltitante, deitando na sua direcção olhadelas rápidas como um relâmpago e regressando de imediato à tentativa de imitar os que o rodeavam. O estafeta tinha seguido a conversa com o ministro meio escondido nas imediações, imitando com talento auspicioso os movimentos dos subordinados do dirigente político, disfarçando como podia o pânico de ser por aquele associado a Serra, aquele desordeiro insubordinado, aquele anarca desrespeitador das hierarquias ou, nas palavras do próprio Furão, “aquele filibusteiro sem carácter”.

Só o Furão Caixa d’Óculos utilizaria uma expressão daquelas nos dias que corriam.

Ao localizar o estafeta, Serra nem perdeu tempo a chamar por ele: atirou-lhe uma mão, por cima de um trio ou um quarteto de ombros repugnados, encostando as nódoas da sua bata a um casaco de napa dourada, e provocando uma onda de protestos enquanto as pessoas das suas proximidades viam a atenção ser-lhes arrancada da corrida e se afastavam precipitadamente, indo esbarrar contra os vizinhos do outro lado. Serra não ligou. Limitou-se a agarrar firmemente no ombro do estafeta e a puxá-lo para si, gritando-lhe ao ouvido assim que o teve a jeito:

— Ai de ti se te tentares escapulir! Ouviste bem? Ai de ti! Faço-te em papa!

O estafeta engoliu em seco e acenou com a cabeça, balbuciando uma desculpa (que começava com um “não estava a fugir, doutor: fui empurrado e...”) e olhando fixamente para as nódoas de muco no peito da bata do outro, imaginando-se transformado numa coisa parecida e não gostando da imagem.

Serra puxou-o com mais força, gritando:

— Basta!

Foi quanto bastou.



A OPERAÇÃO (E A MANTA) DESENROLOU-SE com alguma dificuldade mas com sucesso e, depois de longos minutos de esforços e empurrões, o ET encontrou-se finalmente instalado sobre uma superfície opaca que o protegia da vertigem. A manta tinha vindo peluda, o que talvez não constituísse o colchão mais adequado para a pele pegajosa do alienígena e era provável que não lhe fosse muito confortável, mas fora o que se pudera arranjar assim de repente.

Por outro lado, ETs inconscientes não sentiam desconforto...

O passo seguinte seria mandar buscar lá abaixo meios de diagnóstico. O conhecimento biológico sobre o ET e sua espécie era ainda algo rudimentar e, por isso, mesmo que não fosse provável que o desmaio tivesse provocado lesões graves, era sempre aconselhável fazer um diagnóstico que fosse o mais exaustivo possível. Mesmo que o embaixador, agora que tinha a máscara correctamente colocada, respirasse de forma aparentemente normal, era da maior conveniência não correr riscos desnecessários. E embora a maior parte dos meios de diagnóstico disponíveis consistissem em aparelhos amanhados à pressa, frágeis, volumosos e pesando cada um largas dezenas de quilos, alguns havia que eram transportáveis.

— Puto — disse Serra para o estafeta, que tinha quase 30 anos de idade e aparentava alguns mais —, vais descer lá abaixo, vais-te meter no elevador e vais até ao laboratório do 5º piso, onde vais pedir para falar com a Joanina Grandelasca, uma técnica de segunda classe, alta e loura, que deve andar por lá. — Serra começou a rabiscar num papel enquanto continuava a falar. — Diz à Grandelasca para vir ter comigo, trazendo todas estas coisas, o mais depressa possível. Cuidado com o sintetizador, porque é tecnologia alienígena, não sabemos como funciona (e nem sequer sabemos lá muito bem o que faz) e só temos esse. Não o façam dar muitos solavancos, que pode ter sido isso o que fez com que aqui o tradutor desatasse a babar-se desta maneira — Serra lançou uma olhadela ao tradutor automático, que se mantinha no chão, rodeado duma poça de muco acastanhado que, pelo menos aparentemente, não estava de momento a alastrar. O Chefe de Protocolo entregou o papel ao estafeta:

— E despacha-te.

O estafeta murmurou um assentimento e desapareceu no meio da multidão. E Serra ficou ali, sem nada para fazer de momento a não ser tentar manter as altas figuras do Estado afastadas do alienígena.

Mas isso era uma tarefa mais árdua do que se poderia pensar.

É que as altas figuras do Estado não paravam quietas um momento. A Tona continuava a desenrolar-se lá em baixo, e sempre que havia a mínima alteração nas posições relativas dos concorrentes a multidão ululava, mulheres davam gritinhos e batiam palmas, aos saltinhos, jovens e velhas por igual, homens pregavam grandes palmadas nas costas uns dos outros, enquanto se riam em grossas gargalhadas ou lançavam insultos aos corredores, de faces e pescoços vermelhos de fúria. Agrupavam-se sectores em torno dos principais candidatos. O mais ruidoso e mais bem-disposto era, ainda e cada vez mais, o do Meneres, cujo principal campeão, o Hermínio Eiró, seguia na frente da corrida, isolado e já com grande avanço. O Meneres tinha, ainda por cima, mais dois corredores no grupo que perseguia o segundo classificado. Este era João Machadão, uma surpresa naquela posição, correndo com as cores laranja e cor de rosa do candidato Faneco, que já se candidatava pela sexta vez e nunca tinha conseguido chegar sequer perto de ser eleito. Parecia que desta vez tinha tido acesso a algum esteróide novo, porque não só Machadão seguia isolado em segundo lugar, como os restantes atletas da sua equipa iam também bem colocados e com um ar de à-vontade que deixava antever a possibilidade de recuperação de algumas posições mais para o fim da corrida. Ediberto Faneco era, portanto, o centro de outro grupo animado, se bem que bastante reduzido. Mesmo assim, já tinha crescido para cerca do dobro desde que o dirigível levantara voo dos terraços do Palácio.

Quanto ao ainda Presidente, deixara de gritar e seguia a corrida com o ar melancólico e infeliz dos perdedores antecipados, no que era imitado por toda a sua comitiva (que se rarefazia a cada minuto), o que provocara uma diminuição muito significativa no barulho que se fazia sentir dentro da barquinha. Não era caso para menos: Joaquim do Fim arrastava-se na cauda do grupo dos terceiros, ameaçando descolar a qualquer momento, com um ar de fadiga tão absoluta que até era visível do dirigível a olho nu, e o segundo elemento da equipa presidencial vinha duas posições mais atrás, separado daquele grupo pelo primeiro atleta de um candidato menor e por muitos, muitos metros, parecendo não ter qualquer hipótese de se chegar à frente em tempo útil. Já não parecia restar a mais pequena esperança de reeleição, e conversava-se em torno do Presidente em murmúrios que, apesar de murmurados, já se conseguiam ouvir, tamanho era o silêncio naquela zona, em vozes cujo tom oscilava entre o preocupado, o calculista e o desesperado. Perto de Serra, dois membros menores do governo culpavam em vozes conspiratórias a farmacêutica presidencial. Desenrolavam a lista completa das teorias da conspiração; falavam de lotes de comprimidos passados do prazo de validade e reembalados, de sabotagens nas concentrações de reagentes, de subornos e corrupções de todo o tipo, de denúncias anónimas mas muito fidedignas, de incompreensão (ou talvez compreensão demasiado clara) perante a ineficiência da polícia, da eventualidade de impugnar o resultado da Tona, do futuro e do seu, deles, lugar nele, aparentemente vago. Ao mesmo tempo que conversavam, os olhos teimavam em fugir-lhes para um dos grupos mais animados, e deixavam repousar neles, por momentos, olhares avaliadores. Nessas alturas, quase se podiam ver naqueles olhares os cálculos sobre as presenças e ausências dos prováveis futuros líderes da nação, e sobre as suas próprias possibilidades de uma mudança de campo, rápida, discreta e definitiva.

Serra estava-se mais ou menos nas tintas. Fosse qual fosse o presidente, a política pouco ou nada se alterava porque, por qualquer motivo que nunca conseguira compreender, os presidentes tinham uma preocupação obsessiva pelas sondagens e evitavam até extremos ridículos ir contra a opinião maioritária do público que, por sua vez, e multiplicando o surrealismo de tal preocupação, era cuidadosamente condicionada pelos meios de comunicação. Ficara na história, como anedota, o dia em que o Presidente Tainha assinara, em rápida sucessão, dois decretos contraditórios acerca de um imposto sobre construção em zonas delimitadas. Tainha decidira aumentar o imposto de um para um vírgula três por cento, a fim de tentar contrariar uma situação calamitosa nas finanças públicas, e assinou o decreto, enviando-o de imediato para publicação (que já nessa época era praticamente instantânea). Mas, assim que viu o resultado da sondagem-relâmpago realizada logo depois, mostrando uma opinião pública esmagadoramente contrária a tal medida, chamou toda a gente ao seu gabinete, exigiu ideias imediatas para resolver o problema, e acabou por assinar um decreto complementar que dizia que embora o imposto fosse aumentado para um vírgula três por cento, na realidade permaneceria em um por cento. Sem dar ouvidos àqueles que o aconselhavam a encontrar uma redacção mais coerente para a medida (e que pouco tempo ficaram nos seus cargos, em breve substituídos pelos que elogiaram profusamente a “superior capacidade presidencial para encontrar saídas mesmo nas situações mais impossíveis”), Tainha enviou também este segundo decreto para publicação. Seguiram-se décadas que pareciam feitas de encomenda para os advogados, que retorciam estes dois instrumentos legislativos segundo a conveniência do momento, dando predomínio a um ou a outro, embora (e porque) ambos fossem inteiramente válidos. Apesar de ter sido transformado em anedota pelo povo, o acto do Presidente Tainha causou um impacto tremendo nas instituições. Por um lado, fez jurisprudência e acabou por servir de precedente para inúmeros processos. Por outro lado, criou também um precedente para o poder legislativo, que todos os deputados, governadores, presidentes disto e daquilo e líderes menores se apressaram a seguir sempre que queriam ter uma lei que regulamentasse as coisas de tal forma que os deixasse livres de fazer o que muito bem entendessem, com pelo menos uma interpretação possível que tornaria legal fosse o que fosse. Por um terceiro lado, o acto foi considerado, pelas associações profissionais dos advogados e afins, um marco de altíssima relevância e significado, o que fez com que fossem atribuídas a Tainha as mais elevadas honrarias jurídicas do Estado, após a sua derrota na Tona seguinte.

Serra estava-se nas tintas, também, porque não havia, no país ou fora dele, quem se lhe comparasse na capacidade técnica em lidar com os hoog. Mais importante ainda, visto que o Inferno estava cheio de técnicos altamente competentes preteridos a favor de técnicos incompetentes mas dóceis, coisa que ele decididamente não era, não havia quem se lhe aproximasse no grau de confiança conquistado junto daquele hoog específico e, através dele, de toda a sua espécie. Os anos de liderança do programa SETI eram uma mais-valia insubstituível, e os meses gastos na comunicação com a nave hoog enquanto esta fazia a última aproximação à Terra eram ainda mais valiosos.

Serra estava-se nas tintas, por fim, porque era de sua natureza estar-se nas tintas para os políticos e os seus jogos de poder. E a natureza é a natureza...

Por isso, para Serra, ganhasse Fulano ou Sicrano o resultado era o mesmo: pleno emprego, salário elevado, influência ao mais alto nível do Estado e muito que fazer. Até dava, lembrou-se Serra com um sorriso, para atirar ordens a carreiristas enfatuados como o Furão Caixa-d’Óculos.



ESTAVA O CHEFE DE PROTOCOLO a divagar sobre estes assuntos, com um leve sorriso no rosto, enquanto uma pequena fracção do cérebro ia gerindo o afastamento de todos os que se aproximavam demasiado do ET, quando se viu interrompido por um homem alto e impecavelmente vestido, cada fio de cabelo milimetricamente colocado no sítio certo através de um sofisticadíssimo (e caríssimo) sistema de biofixador, daqueles que deixavam o penteado com um aspecto inteiramente natural ao mesmo tempo que esculpiam discretamente, em zonas bem visíveis da cabeça, o logótipo da marca. Serra reconheceu-o de imediato. Tratava-se de Adalberto Miguel Escolápio, ministro da ciência e tecnologia do actual governo e há muito tempo ligado por vínculos fortes ao actual presidente, ocupando sempre cargos de grande importância e visibilidade mesmo apesar de insistentes rumores que o acusavam de ser um bêbedo inveterado, que mantinha o seu visual sem mácula à custa de regeneradores de auto-imagem, outro item de alta tecnologia só ao alcance dos extremamente ricos.

Os boatos são o que são, não há nada a fazer.

O facto de ele entaramelar a fala, especialmente ao fim do dia, não queria dizer nada.

Escolápio agachou-se ao lado de Serra, balançando ligeiramente, e entaramelou conversa:

— B’a tarde, ilustre Serra — brincou. — C’mo vão as coisas aqui c’o nosso pequeno amiguinho?

— Como está, Senhor Ministro? Parece estar razoavelmente sob controlo. O hoog respira com regularidade e só estou à espera que cheguem uns aparelhos que mandei o meu assistente ir buscar lá abaixo para tentar reanimá-lo. Não prevejo dificuldades de maior, mas nunca se sabe.

— Bom, bom. E o trad’tor? Já tá bom?

— Ah... o tradutor... — Serra relanceou os olhos pelo aparelho, que permanecia adormecido no chão, com o bocal recolhido, aparentemente sem segregar mucos coloridos — Sabe? Não sei bem. Tem produzido umas substâncias estranhas, mas pelo menos parece estar a traduzir convenientemente as conversas, que é o que é mais importante.

— Bom, bom — repetiu o ministro. E, após uma pausa, olhou para o Chefe de Protocolo com um olhar estranho e perguntou: — Serra, nós sempre fomos bons amigos, n’é verdade?

Serra não percebeu. Que queria aquele com aquela conversa?

Decidiu ser cauteloso:

— Nunca tive qualquer sinal de que não o fôssemos, Senhor Escolápio.

— Bom, bom — repetiu uma vez mais o ministro. — Podes tratar-me po’ Ada’berto.

Serra ficou a olhar para ele, sem responder e sem se comprometer. Aquela conversa estava a tomar caminhos muito esquisitos.

— Pois. Ada’berto. — murmurou o ministro. E continuou — É bom sabe’mos que podemos contar c’os amigos numa altura d’fícil como esta.

Escolápio olhou de forma penetrante para o interlocutor. Serra continuava sem perceber nada. E como continuava sem perceber, continuava cauteloso:

— Sim, suponho que seja sempre bom poder contar com os amigos.

O ministro pareceu desapontado, mas insistiu:

— Esp’cialmente numa altura d’fícil como esta.

O Chefe de Protocolo olhou com atenção, por um momento, para o outro, que o brindava com o mais sedutor dos sorrisos. Continuava sem perceber grande coisa, mas sabia que a “altura difícil” tinha começado havia muito pouco tempo, visto que quem estava agora agachado na sua frente tinha produzido um inflamado discurso na noite anterior, transmitido por todas as cadeias noticiosas (até mesmo as interactivas), em que submergira a audiência com uma autêntica catarata de adjectivos optimistas e elogiosos relativos à situação da nação, à actuação do Presidente e, muito em particular, à gestão do seu ministério, que tinha sido tão extraordinária, dizia ele, que até tinha conseguido trazer ao planeta a suprema honra de acolher o primeiro contacto de nível diplomático entre a Humanidade e uma espécie inteligente proveniente de outras paragens do grande Universo.

Que o hoog tivesse abandonado o seu planeta cerca de trinta anos antes de Escolápio ter nascido foi coisa que não abalou um micrómetro a auto-satisfação do ministro.

Ou seja, a “altura difícil” devia ter começado já depois do início da Corrida da Tona...

— O Senhor Ministro refere-se à Corrida da Tona? — perguntou, cautelosamente, o Chefe de Protocolo.

O sorriso do outro tornou-se radioso.

— Ah! Vejo que nos ent’demos! Posso ‘tão contar com o meu amigo?

Entendemo-nos?!, perguntou Serra a si próprio, espantado. Eu cá não entendo é coisíssima nenhuma. Que será que este quer?

Felizmente, havia sempre o recurso às velhas fórmulas, aperfeiçoadas ao longo de milénios de prática intensiva da duplicidade humana.

— Farei tudo o que estiver ao meu alcance, Senhor Ministro. Tudo o que estiver ao meu alcance — disse Serra com um sorriso.

O outro pareceu, por um breve momento, não ter ficado muito satisfeito com a resposta, mas rapidamente abriu o sorriso ainda mais, deixou cair um par de palmadas no ombro do Chefe de Protocolo (ombro esse que era das poucas zonas relativamente limpas da sua indumentária) e exclamou:

— Bom, bom!

Acrescentando um “’tão bom tr’balho!” enquanto se punha de pé, passava uma mão cuidadosa a milímetros da madeixa e desfazia os vincos do blusão de basebol de cerimónia que envergava (um Armandini, aparentemente). De seguida fez um aceno amigável a Serra e virou costas, abrindo caminho entre a multidão e dirigindo-se na direcção genérica do ruidoso grupo do Meneres.

Serra era algo distraído com as relações mundanas. Era a única explicação possível para o ar de espanto com que seguiu a retirada do outro.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

9.

APESAR DO SUOR, das secreções do aparelho e de um leve mas indisfarçável tremor nas pernas que lhe causava fraqueza, o chefe de protocolo Serra acabou por conseguir atingir o dirigível sem novidade de maior e com todo o material intacto, quer o alienígena, quer o terrestre. Até mesmo o apavorado estafeta foi capaz de se alçar até à barquinha e aí cair ao chão, luzidio de suor, branco como a neve, à excepção de uma zona na bochecha esquerda e outra na testa onde se desenhavam, num cor de rosa que se esbatia lentamente, negativos do padrão antiderrapante das botas do Chefe de Protocolo Serra.

Quanto a este, a primeira coisa que fez assim que chegou foi olhar para o tradutor automático e fazê-lo girar entre as mãos, à procura de alguma mossa que tivesse eventualmente aparecido com os apertões a que a máquina fora sujeita durante a subida. Não viu nada de especial, além das secreções que agora começavam a tomar um tom lilás com veios verde-alface. Serra, ainda alheio ao ambiente, mas começando a perguntar a si próprio se aquele padrão de cores teria algum significado comunicacional, apertou uma determinada zona do tradutor, o que teve como consequência que o filamento que servia de microfone se erguesse em frente dos seus olhos. Tirou do bolso um microgravador e fê-lo reproduzir um conjunto de apitos quase demasiado agudos para os ouvidos humanos ou, melhor dizendo, quase totalmente inaudíveis, visto que só os tons mais graves daquela gravação faziam algum efeito nos tímpanos de quem os escutasse. O tradutor automático estremeceu, excretou duas golfadas de muco roxo e traduziu, fielmente: Estavam pelos mouros temerosas / E de um alegre medo quase frias / Rezando as mães, irmãs, damas e esposas. Serra acenou, mais ou menos satisfeito. Se não ligasse àquelas secreções nojentas, a coisa parecia estar a funcionar perfeitamente. Os cantos da boca do chefe de protocolo ergueram-se um milímetro, num suspiro virtual de alívio. E só então deixou, finalmente, que o ruído e o resto do que o rodeava lhe penetrasse o isolamento. Olhou em volta, identificou a área geral onde ficava o seu objectivo e pôs-se a caminho.

A multidão que se acumulava junto do ponto de amarração da corda era espessa. Serra teve de furar por entre um mar de multicoloridos casacos de cerimónia, com a sua simples e muito suja bata branca a destoar violentamente das cercanias, se bem que as nódoas de muco até que jogassem bem com a pujança cromática do que o rodeava. Serra era seguido de perto pelo ainda pobre mas agora um pouco menos assustado estafeta, que lhe segurava numa aba da bata com medo de perder-se e ficar esmagado por baixo daquela multidão indiferente. O chefe de protocolo furava de cabeça baixa, segurando o tradutor automático por forma a que os braços protegessem os flancos da máquina e as mãos a parte dianteira, mas tentando evitar que o aparelho tocasse na bata, no que não era inteiramente bem sucedido. De vez em quando, sempre que o encontrão era mais forte, o aparelho lá se esborrachava contra o seu peito, deixando na bata mais uma nódoa de contornos irregulares que se dispersava um pouco e se fundia com nódoas anteriores, transformando a vestimenta do chefe de protocolo num quadro abstracto quase tão multicolorido como os casacos que se estendiam em volta como ondas de um mar de cores primárias, o que o fazia, por vezes, desaparecer de vista num mimetismo que só não era perfeito porque as costas da bata permaneciam imaculadamente brancas. Claro que Serra se vingava dos encontrões sem grandes contemplações. Sempre que recebia um mais forte, engolia o impropério que lhe vinha ao cérebro, mas não se coibia de encostar dissimuladamente a zona mais repleta de muco da sua anatomia — geralmente as mãos — ao distraído. E assim foi furando através da multidão até chegar à zona central, deixando atrás de si um rasto de muco alienígena em casacos, calças, blusas, vestidos e até caras, mãos e vozes indignadas que comentavam com os vizinhos o desplante e a falta de cuidado de tal personagem, e cochichavam perguntas: quem é? O caro amigo conhece?

A zona central era onde se concentravam os dignitários mais importantes e onde o ruído era mais ensurdecedor. Candidatos berravam pelos seus campeões, procurando incentivá-los mesmo através da espessura do diamante que compunha todo o casco da barquinha, mesmo sabendo que nem um milibel chegaria lá abaixo porque o microfone unidireccional do sistema sonoro do dirigível estava, como era da praxe, nas mãos do Presidente. Na periferia desta massa de políticos, agrupavam-se os comentadores, orgânicos ou não, de uma miríade de órgãos de comunicação social, que por sua vez faziam os seus relatos quer da própria corrida da Tona, quer da ocasião social que esta proporcionava, sempre em vozes artificialmente entusiasmadas, procurando transmitir aos seus espectadores, ouvintes e sensoriadores toda a emoção da ocasião. Ou mais alguma, se fosse possível, pois as audiências modernas não perdoavam uma interrupção que fosse na catadupa histriónica de palavras e imediatamente mudavam de canal. Davam-se entrevistas, disparavam-se flashes de micro-câmaras de fotovídeo, soltavam-se gargalhadas, rosnavam-se insultos a adversários e respectivos partidários.

Estava tudo normal, portanto. Não havia qualquer sinal óbvio da presença de um embaixador extraterrestre ali, entre os líderes terrestres e as respectivas manadas de bajuladores. Serra começou a ficar intrigado, enquanto à força de desculpes, com licenças e discretas cotoveladas (ainda que por vezes dolorosas para as vítimas — ainda se ouviu um ou outro gritinho de dor) ia atravessando este sector mais selecto da multidão, protegendo como podia o tradutor que salivava agora abundantemente num tom de verde purulento, evitando dar muito nas vistas e evitando também, naquela zona, tocar com alguma parte menos higiénica da sua anatomia num casaco de napa, numa écharpe de plástico ou num vestido de nylon, artigos em que o luxo de serem obviamente derivados do petróleo, o líquido mais escasso do planeta, ostentava a opulência das contas bancárias. Mesmo com todos os cuidados, Serra não evitou deixar também ali um rasto de conversas, esgares enojados e um ou outro vómito mal reprimido. Isso preocupava-o um pouco (nunca era boa ideia desagradar a possuidores de megadoleuros), mas a sua preocupação principal era com o embaixador. Que teria acontecido ao hoog? Não estaria ali? Tê-lo-iam deixado lá em baixo, algures, eventualmente sozinho? Que desgraça teria aquela manada de idiotas endinheirados provocado na probabilidade de futuras relações amistosas de proveito mútuo entre os hoog e os humanos?

Quando Serra conseguiu, enfim, chegar perto do sector presidencial, deparou com um círculo irregular de dignitários profundamente absorvidos na corrida, sem prestar qualquer atenção ao que se encontrava no centro do círculo. A existência de um espaço vazio num sítio daqueles só podia significar uma coisa, e o Chefe de Protocolo já contava com o que ia encontrar quando os seus olhos deram com o corpo caído e imóvel do ET. Mesmo assim estacou, levando o estafeta, que vinha distraído com o que se passava por baixo dos seus pés (naquele momento um pequeno grupo de corredores procurava destacar-se do pelotão, e só um deles — o Joaquim do Fim — fazia parte da equipa do Presidente), a esbarrar contra as suas costas. Serra resmungou um insulto quase inaudível, mas até poderia tê-lo berrado, que ninguém estranharia. Ali todos gritavam, virados para baixo e, sobre a cacofonia reinante, a voz do Presidente, bem timbrada por anos de discursos inflamados, gritava mais que todos, ora insultando os seus corredores (pedaços de asno, que estão a ficar para trás!), ora incentivando-os (mexam-me essas peidas, parvalhões!), ora tecendo comentários depreciativos em relação aos adversários (até aquele gorila a rebentar de banha da equipa dos comunas do Meneres corre mais que o Freitas, raios o partam!), ora ameaçando o seu seleccionador com um futuro tenebroso (quando puser as mãos no Morais, vai desejar nunca ter saído de dentro da cadela da mãe!). Ao dar-se conta do tom presidencial, Serra engoliu em seco. Ali, naquela dezena de metros quadrados, estava concentrada uma quantidade impressionante de más notícias.

Depois de fazer mais uma vez uso dos cotovelos, se bem que agora com maior suavidade e discrição, por motivos óbvios, o Chefe de Protocolo agachou-se junto do extraterrestre. Estava num estado lastimável. Os braços superiores tinham-se transformado em flácidos pedaços de carne azul, os inferiores e os intermédios apresentavam-se recolhidos, quase invisíveis, de encontro ao corpo, das glândulas de muco do pescoço saía uma gosma arroxeada que ia formando lentamente uma poça opaca no chão translúcido, e a crista pendia, espalhando-se no chão em desordem, desinflada e baça como um balão vazio. O embaixador respirava aos solavancos, com o filtro atmosférico mal ajustado, deixando que entre a atmosfera terrestre e as suas próprias necessidades gasosas se produzissem trocas que não podiam ser saudáveis para ninguém.

Serra murmurou um merda! e perguntou em voz alta, passando olhos muito mal-humorados pelas caras dos membros menores da comitiva presidencial:

— Que se passou aqui?

Ninguém lhe deu resposta. As caras que o rodeavam enrubesciam e empalideciam ao compasso da corrida, esbugalhavam-se em paroxismos de emoção, amarfanhavam e alisavam pequenos papéis amarelos onde as apostas que tinham feito sofriam em silêncio as consequências de tudo o que os atletas iam fazendo, lá muito em baixo. E as bocas berravam incitamentos, revezando-se umas às outras como altifalantes numa estafeta sonora.

Serra teve de repetir cinco vezes a pergunta, num tom cada vez mais alto, cada vez mais rouco, cada vez mais esganiçado, para que um dos secretários de estado reparasse nele, fizesse um aceno impaciente, abanasse o Presidente e lhe dissesse qualquer coisa ao ouvido. Este olhou o Chefe de Protocolo com olhos vazios. Obviamente, não estava a perceber que raio de coisa era aquela que o tinha arrancado bruscamente a um dos momentos mais decisivos da sua vida, o momento em que o Joaquim do Fim se tentava isolar no comando da corrida, seguido de perto por três adversários de outras tantas equipas, mas deixando para trás um grupo maior, repleto das camisolas azuis às bolinhas cor de rosa da equipa do Meneres.

— Ah, Serra — resmungou por fim o homem mais poderoso do planeta, ao mesmo tempo que os olhinhos, minúsculos e muito juntos, se lhe iluminavam em reconhecimento. — Que caraças quer você? Não vê que estou ocupado, com um raio que o parta?

— Peço imensa desculpa, Senhor Presidente, mas necessitaria de algumas informações sobre o que aconteceu ao nosso embaixador, aqui caído.

O presidente relanceou os olhos pelo alienígena, franzindo a testa.

— Ah, isso? Não percebi nada. Quando o dirigível começou a levantar voo desatou a mexer-se e depois caiu e deixou de mexer-se. Não sei mais nada. Pergunte ao Zé. Zé! Presta aqui atenção a este sujeito. E você, não me chateie mais.

O Zé, isto é, o Dr. José Mendes, era o ministro dos negócios estrangeiros, ali em algo de semelhante a um vazio legal e sem saber bem qual o seu papel, visto que a legislação era omissa quanto à exacta natureza dos extraterrestres, isto é, se eles se podiam ou não considerar estrangeiros à luz das leis que regem o funcionamento do Estado. Era um homem pequeno, de cabelo cortado de forma a parecer careca, com a cara coberta por uns anacrónicos e gigantescos óculos de lentes grossas, e uma postura e atitude que transpirava formalismo em cada movimento. O Zé estava profundamente convicto de que tinha nascido na época errada (e dizia-o sempre que podia, especialmente aos mais íntimos, que por esse motivo fugiam dele). Historiador de formação e vocação, fascinado pelas estruturas políticas de meados do século XX, procurava imitar em cada gesto os grandes homens do passado como se através da imitação alguma da grandeza daqueles vultos se transmitisse ao seu corpo franzino. O mundo, para ele, era uma imensa pirâmide hierárquica regida por parágrafos e artigos, normas e regulamentos, leis e decretos e, acima de tudo, pela palavra do chefe, fosse este qual fosse. Era completamente imprestável se entregue a si próprio, mas muito útil para quem mandasse nele, porque dizia que sim com entusiasmo a todas as ideias dos superiores, fazendo ao mesmo tempo a vida negra a qualquer indivíduo de um nível inferior ao que ele julgava ter na escala hierárquica, e que tivesse o desplante de expressar ideias próprias. Um perfeito pau-mandado.

A situação era incómoda para ambos: Serra, como Chefe de Protocolo, era subordinado ao ministro dos negócios estrangeiros. Mas, dado o vazio legal do Primeiro Contacto, este sabia-se em desvantagem perante o antigo cientista a quem a situação atribuíra amplos poderes. Por seu lado, Serra já tinha sido chamuscado várias vezes nos seus contactos com o “Furão Caixa-d’Óculos”, como o ministro era comummente conhecido, e tinha por isso uma enorme má vontade relativamente ao Furão e uma reserva cautelosa que não o deixava ser ele próprio. Por tudo isto, Serra, ao ver o outro aproximar-se com uma maleta de couro sintético na mão, passando a mão pelo cabelo artificialmente rarefeito, transformou o corpo num ponto de interrogação vestido de branco (embora com muitas nódoas), reduzindo a sua altura a algo de mais próximo à do ministro, ao mesmo tempo que evitava debruçar-se para ele naquilo que se poderia assemelhar a uma espécie de intimidade confidente, coisa de que fugia com todas as forças. Por seu turno, o ministro foi-se chegando com o seu característico andar saltitante, e quando parou pôs-se literalmente em bicos dos pés, deitando olhadelas de relance para o tradutor automático, ao mesmo tempo que dizia em tom glacial:

— Sim?

— O senhor doutor perdoe, mas a fim de evitar um incidente interstelar com a potencialidade de tornar-se grave, necessito saber com urgência e exactamente o que se passou com este nosso convidado aqui caído. Se o senhor doutor não se importa...

— Bem... — hesitou o ministro — não sei se posso... Sua excelência não me deu ordens para...

— Com o devido respeito — interrompeu o Chefe de Protocolo — julgo que o Senhor Presidente deu ordens específicas para me serem prestadas as informações necessárias. E eu preciso de saber com toda a urgência o que se passou aqui.

Ao ouvir aquilo, não tanto pelas palavras em si, mas por ter sido interrompido, o ministro estremeceu. Depois pôs-se muito direito e muito vermelho, esticou ainda mais os pés até quase ficar em pontas e declarou, tentando pôr na voz todo o peso de uma dignidade aristocrática ofendida, e uma frieza verdadeiramente polar:

— Meu caro senhor. Prestar-lhe atenção não é responder-lhe a todos os caprichos. Não é responder-lhe a todas as perguntas que me queira fazer. Com certeza compreenderá que há assuntos que devem manter-se sigilosos, dentro das quatro paredes dos gabinetes do Estado (e este dirigível, como sabe, pode considerar-se, para todos os efeitos previstos na lei, uma extensão administrativa do Palácio Presidencial, conforme o texto do decreto-lei nº 27/45 de 7 de Novembro), e não podem ser comentados com indivíduos desprovidos dos necessários certificados de segurança, sob pena de comprometer a segurança da nação. Assim sendo, e como compreenderá, não posso, apesar de toda a minha boa-vontade, dar-lhe as informações que me pede sem ordens expressas nesse sentido. Queira desculpar.

Serra manteve-se calado, com crescente dificuldade, ao longo deste discurso. Sabia que se tentasse interromper de novo o Furão, se fizesse sequer tenções de abrir a boca, só pioraria a situação. Mas quando se chegou à parte do “queira desculpar”, o Chefe de Protocolo esboçou um sorriso involuntariamente cínico e disse, com toda a suavidade:

— Bem, então pergunte-lhe.

— Como?!

— Pergunte ao Presidente se me pode ou não confiar os segredos que a nação tem a respeito do ET. Ele está mesmo ali, pergunte-lhe.

— Mas...

— Desculpe a franqueza, doutor, mas estamos a perder tempo precioso. Se o caro amigo não pergunta, pergunto eu.

O ministro ainda abriu a boca para balbuciar um protesto, mas pensou melhor e cerrou os lábios. Olhou para o presidente, que nesse momento berrava algo pouco compreensível e, decerto, nada edificante, enquanto lá em baixo o Joaquim do Fim ficava irremediavelmente para trás (e os repórteres já murmuravam para os seus transcritores automáticos manchetes cheias de trocadilhos brilhantemente inovadores acerca do Joaquim, o do Fim, se preparar para ser isso mesmo para as aspirações de reeleição daquele presidente, seguindo com absoluta fidelidade e nenhuma originalidade uma longa tradição de manchetes entrocadilhadas na imprensa de referência, em vigor pelo menos desde que esta emergiu dos antigos tablóides). As coisas pareciam sorrir cada vez mais ao Meneres, aquele que na suprema opinião do primeiro cidadão da nação era um porco, um comuna rico, um casca-grossa insuportável, uma besta quadrada. Ele e todos os demais, é bem de ver. Uma corja de incompetentes comunistóides e imbecis, cujo único objectivo na vida era conquistar o poder, o poder que lhe devia pertencer por direito a ele, e só a ele, cambada de gatunos! O ministro José Mendes, por seu turno, franziu o sobrolho, olhou para baixo, rosnou uns quantos impropérios à “besta quadrada” num acto reflexo de subserviência praticamente inconsciente, voltou a olhar para o presidente, cada vez mais vermelho, cada vez mais descomposto (mas ainda impecavelmente penteado — um presidente pode fazer o que quiser menos cometer o suicídio político de deixar-se despentear), e tomou uma decisão:

— Que quer você saber?

Serra suspirou de alívio.

— Tudo. Quero saber qual foi a sequência exacta dos acontecimentos que levaram ao colapso do hoog, quem fez e disse o quê e quando e quais foram as reacções do ET.

O Furão voltou a suspirar, relanceando mais um olhar pelo seu chefe. Mas respondeu.

— Nada. Não se passou nada. O Senhor Presidente e respectiva comitiva embarcaram no dirigível, seguidos pelo Senhor Embaixador, que não se mostrava mais estranho do que o habitual... como deve compreender, não temos muita informação sobre aquilo que é normal no comportamento dos indivíduos da espécie do Senhor Embaixador, e portanto a conjuntura não permite que formemos conclusões mais sólidas que isto. O Senhor Embaixador teve alguma dificuldade em entrar na barquinha...

— Que tipo de dificuldade?

— Bem... parou, contorceu-se um pouco e depois entrou, devagar. Isto na altura foi atribuído por Sua Excelência e por toda a sua comitiva à pequenez das pernas do Senhor Embaixador. Um dado curioso é que os cães das redondezas começaram a ganir e ladrar nesse momento, mas ter-se-á decerto tratado de uma coincidência. Enfim, como eu ia dizendo, parecia estar tudo bem quando, pouco depois de levantarmos voo, no momento em que todos conseguimos finalmente ver para além do parapeito do terraço e começar a observar os corredores da Tona, lá em baixo, o Senhor Embaixador pareceu desfalecer duma maneira que não podemos saber se é normal ou não, como compreenderá, e até porque essa competência não é nossa — e aqui o ministro enviou um olhar de esguelha ao Chefe de Protocolo —, começou a fazer ruídos graves que ninguém conseguiu compreender, agitou-se muito, e depois caiu na posição que ali vê. Nenhum de nós se atreveu a tocar-lhe com receio de causar algum problema irremediável. Sua Excelência gritou muito por si, só falava no Serra, era Serra para aqui, Serra para ali, mas não havia Serra nenhum — neste ponto o ministro fez uma pausa, olhando de novo de lado, com ar reprovador, para o Chefe de Protocolo, como quem não quer dizer nada, por uma questão de delicadeza, mas sabe, e sabe que o interlocutor também sabe, que a culpa é integralmente dele, interlocutor — e por isso, como o Senhor Embaixador se mantinha obviamente vivo, foi decidido num rápido Conselho de Estado deixar estar as coisas como estavam e esperar que você chegasse. Se chegasse — mais uma olhadela reprovadora. — Entretanto, com as emoções da Tona (e parece que infelizmente vamos perder desta vez... é uma tragédia para a nação, uma tragédia!...), acabámos por nos esquecer do Senhor Embaixador até que você chegou vestido dessa forma imprópria e começou a fazer perguntas.

Ou seja, pensou Serra, trocando por miúdos: tinham levado o ET para ali, tinham-lhe provocado um colapso com um choque de pânico e agora preparavam-se para lhe atribuir as responsabilidades a si.

Lindo!...

E típico.

Só havia uma coisa a fazer: tentar reanimar o extraterrestre. Coisa que nem valia a pena pensar em fazer enquanto o hoog se mantivesse, segundo o seu ponto de vista de ser subterrâneo, suspenso do ar a uma altitude impensável, sem qualquer apoio, acima de um chão que só esperava que ele se despencasse a uma velocidade que crescia à proporção directa da aceleração da gravidade daquele planeta, ainda maior que a do seu, para acabar esborrachado, lá em baixo, esmigalhado em mil e um bocadinhos pequeninos, quase invisíveis, numa morte que seria ainda mais cruel porque teria lugar num planeta muito, muito distante do seu pântano cerimonial, lá longe, em casa.

— Tragam-me uma manta larga e opaca. De preferência de textura rugosa, mas sem pêlos. Rápido! — ordenou o Chefe de Protocolo numa voz urgente, ao mesmo tempo que se punha de joelhos ao lado do embaixador e lhe ajeitava o filtro atmosférico aos espiráculos.

O ministro prendeu a respiração de uma forma que até através da gritaria ambiente foi audível. Quando Serra olhou para ele, já pronto a repetir o pedido, deparou com uma face redonda e vermelhíssima e com uns olhinhos, de aparência pisca e lacrimejante, que mesmo apesar de escondidos por trás dos óculos grossos estavam postos nele de uma forma que, dir-se-ia, seria capaz de arrancar a sua pele em longas tiras sanguinolentas. Serra suspirou. Aquilo ia doer.

— Mendes — disse —, você e eu temos as nossas divergências, tivemos as nossas batalhinhas de influência, você ganhou quase todas, tudo bem. Mas agora, no que diz respeito ao ET, quem manda sou eu porque você não percebe nada de nada nem do corpo do ET nem do cérebro do ET, nem da língua do ET. E eu não tenho tempo para lutas de galos. Entendido? Arranje-me i-me-dia-ta-men-te a manta que pedi! I-me-dia-ta-men-te!

O Furão soltou um par de ruídos estrangulados, conseguiu a proeza de corar ainda mais (parecia que até o cabelo e os óculos, já não falando da camisa e do resto do vestuário, tinham ficado cobertos por uma camada contínua de poeira sanguínea), abriu a boca, fechou a boca, abriu as mãos, fechou-as em punhos de onde as veias quase saltavam, juntando-se às do pescoço numa nuvem de tubículos extracorporais e latejantes, eriçou todos os fios de cabelo que tinham escapado à calvície artificial, afastou as orelhas para trás e, finalmente, virou-se para o seu assessor e para a chefe do seu gabinete (que desde que a conversa começara se iam encolhendo cada vez mais por trás dele, tentando passar despercebidos mas sem sair das imediações, sem dar hipótese a que os acusassem de desleixo no desempenho das suas funções) e berrou, histérico, mantendo os dentes cerrados e bem visíveis por trás dos lábios retesados:

— Façam o que ele diz! Já-já-já-já-já!

Serra olhou para o outro, por um momento. O ministro tremia visivelmente, mas tirando a tremedeira mantinha-se especado, com uma imobilidade que até se estendia aos olhos, que não pestanejavam, fitos em Serra, espreitando ferozmente através daquelas lentes desnecessariamente espessas, que se esforçavam, sem grande sucesso, por escondê-los. O Furão parecia projectar gotículas de fúria em todas as direcções, gotículas que partiam em desfilada, em trajectórias balísticas que invariavelmente atravessavam o corpo de Serra, após o que voltavam para trás, em nova trajectória balística de sentido inverso, trespassando Serra uma vez mais, e outra e outra ainda. Se um olhar matasse, Serra teria sido condenado, naqueles breves segundos, a mais de sete mortes sucessivas, cada uma mais dolorosa que a anterior.

O Chefe de Protocolo reprimiu, a custo, um sorriso. Era raro, mas por vezes as escaramuças com o velho Furão Caixa-d’Óculos resultavam em vitórias rotundas para o adversário. E ali estava uma.

Óptimo!

Só faltava colocar uma cereja no topo do bolo. Talvez não fosse muito aconselhável colocá-la, mas quem conseguiria resistir à tentação?

— Obrigado — disse Serra suavemente. — Lembrar-me-ei desta sua amabilidade.

O ministro soltou mais um ruído agudo e inarticulado, virou costas e foi-se acalmar para longe da vista do filho da mãe do chefe de protocolo e da porcaria do monstro extraterrestre que tinha causado tudo aquilo e devia ser morto, morto, morto, morto, os dois mortos, mortos, mortos, mortos, berrando a quem se lhe atravessasse na frente coisas como Fora! Desapareça! Rua daqui, desastrado!, ordens e gritos interrompidos sempre que o interlocutor detinha uma posição hierárquica semelhante à sua ou superior, casos em que as palavras, agora murmuradas com discrição, passavam a Perdão... Vossa excelência dá licença? Queira desculpar...

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

8.

SERRA, O CHEFE DE PROTOCOLO, não fazia ideia nenhuma de muitos destes pormenores históricos, mas conhecia as cordas. E sabia duas coisas mais: que ele próprio sofria de vertigens e que o extraterrestre era membro de uma espécie fundamentalmente subterrânea que só a muito custo se elevava no ar, uma espécie que era provavelmente incapaz de compreender o conceito de pairar. Para eles, segundo o que Serra conseguira saber através da investigação realizada pela sua equipa de xenobiólogos e psicólogos radicais, voar era um modo de ir de um lugar para outro no menor espaço de tempo possível, e suspeitava-se que as aeronaves alienígenas eram completamente fechadas. Talvez houvesse uma forma qualquer de olhar para o exterior nos compartimentos dos pilotos, mas o mais certo é que não existisse o mais leve indício de uma janela no resto da fuselagem.

Serra sabia ainda, sem qualquer lugar para dúvidas, aquilo que qualquer terrestre com um aparelho de visão remota em casa sabia (o que só excluía quem não tinha casa): que a parte habitável do dirigível presidencial era composta por um pequeno varandim aberto e uma longa estrutura fechada feita de diamante artificial, construída em peça única, e totalmente livre de impurezas, riscos ou quaisquer outros obstáculos à livre circulação da luz. Especialmente no princípio da corrida, porque mais tarde raio de luz que tentasse penetrar naquela barquinha seria provável que esbarrasse numa das habituais, variadas e invariavelmente peganhentas poças de líquido derramado, ou numa migalha, ou num tufo de cabelos, ou num exemplar da miríade de papéis e papelinhos vários que eram deliberadamente deitados fora em ocasiões como aquela (desperdiçar papel era um luxo antigo, que não havia meio de sair de moda), ou em qualquer dos outros desperdícios mais imaginativos que revestiam o chão da barquinha com uma fina camada de porcaria sempre que as Tonas chegavam ao fim. Mas no princípio, a luz só era bloqueada pelos corpos dos passageiros e, por cima, pela massa oblonga do balão. Para baixo, a livre circulação das ondas luminosas provocava a ilusão perfeita de se estar suspenso de coisa nenhuma, a cem ou mais metros do solo.

Serra sabia, finalmente, que em toda a comitiva presidencial só ele sabia destas coisas.

Daí a corrida esbaforida até ao elevador mais próximo, os saltinhos de impaciência enquanto a porta não se abria (e até dois ou três murros na ombreira), os olhares para a escada como que a perguntar a si mesmo se pelos seis mil trezentos e vinte e oito degraus que o separavam do terraço não chegaria lá mais depressa, as olhadelas inconscientes para o relógio que marcava uma hora tão adiantada que tornava impossível que o dirigível presidencial ainda estivesse no solo (o que, por outro lado, tornava inútil toda aquela pressa, mas se alguém dissesse isso naquele momento a Serra, o mais certo era receber como paga uma catadupa de impropérios... ou coisas piores), e todos os outros sinais de impaciência que como que enchiam aquele átrio de electricidade estática. Só o tradutor automático parecia imune a toda aquela energia. Continuava, imóvel e impassível, a encher as mãos do Chefe de Protocolo de uma geleia de cor azul-marinho com um aspecto positivamente repugnante.



CLARO QUE QUANDO SERRA chegou ao balonporto, com o tradutor automático nas mãos e o estafeta a morder-lhe os calcanhares, o dirigível já lá não estava. Em vez disso, pairava sobre os jardins presidenciais com um ar majestoso, o saco de hidrogénio pintado com as cores da bandeira presidencial e a barquinha cheia de figurinhas pequeninas e multicoloridas, das quais de vez em quando se soltavam reflexos. Lá em baixo, julgando pelo ruído longínquo das aclamações, a corrida já se desenrolava e enchia de estímulos límbicos as mentes da multidão.

A Tona era uma febre. Poucos cidadãos eram imunes a ela, ou porque gostavam mesmo de ver uma pequena multidão a dar às pernas e a libertar litros de suor, ou porque as apostas subiam a valores astronómicos e quanto maior fosse o número dos candidatos à presidência, tanto maior seria o bolo a distribuir pelos que tivessem a sorte, inteligência ou presciência de apostar no vencedor. Havia rumores de fraudes, gigantescas manipulações envolvendo quantidades de dinheiro de dimensões oceânicas, vencedores (e portanto presidentes) e perdedores escolhidos a priori pelos donos das grandes fortunas. Mas não passavam de rumores, relegados para as páginas mais escondidas dos jornais da oposição, páginas protegidas por passwords, firewalls e demais mecanismos de privacidade só ultrapassáveis por iniciados, e distribuídas discretamente, aos milhões, nas entrelinhas de mensagens electrónicas aparentemente inócuas. Rumores nunca provados e que tinham o efeito perverso de alimentar a febre e de abanar as defesas imunitárias dos que ainda lhe iam resistindo.

Serra não fazia parte do grupo dos imunes à febre da Tona. Mas, como durante aquele ano tinha andado demasiado ocupado com os preparativos para a chegada do extraterrestre e respectiva aparelhagem (cujo exemplar presente no local parecia, de momento, uma grande glândula excretora de gosma), não tinha tido tempo de apostar, o que lhe diminuiu drasticamente o interesse pela corrida. Por isso, relanceou um olhar quase indiferente pelo parapeito de onde vinha a maior parte do barulho, e fungou com ar desdenhoso. Ou despeitado. Depois dirigiu-se para a corda mais próxima.

O estafeta foi com ele, trincando o lábio inferior, enquanto lançava olhares desesperados para o parapeito. Junto à corda ganhou coragem:

— Senhor, se não precisa mais de mim, eu...

— Calas-te! — cortou Serra. — E depois de fechares a boca, vais subir atrás de mim e amparar-me se eu me desequilibrar. Vou ter de subir esta porcaria com o tradutor automático nas mãos. Vira-te.

O estafeta hesitou, olhou para a cara de Serra sem entender, estremeceu com o olhar que o Chefe de Protocolo lhe enviou e, antes de ser alvo de mais palavras ríspidas, virou-se. Serra pousou o tradutor no chão e limpou as mãos com cuidado às costas da camisola do estafeta. Este gemeu baixinho, o que fez com que o tradutor automático acordasse:

— Oh, não! — traduziu o tradutor automático.

— Calou! — resmungou o chefe de protocolo enquanto pegava na máquina, sem deixar claro se falava com esta se com o estafeta. — E vê lá se te babas menos!... — acrescentou. O estafeta perguntou a si próprio, passando inconscientemente a língua pelos lábios: “babar-me?!”, mas Serra falava com o tradutor automático.

Este, no entanto, não deve ter percebido a ordem, ou se a percebeu não lhe ligou, visto que aproveitou a deixa para começar a segregar uma espessa geleia púrpura.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

7.

O DIRIGÍVEL ERA A TRIBUNA habitual das personalidades que pretendiam assistir à Tona (e tinham convite). Um seu antepassado muito menos luxuoso tinha sido instituído por um antecessor do actual presidente, durante uma crise energética, como forma barata e segura de levar presidente e comitiva a assistir a todas as peripécias da corrida, e a tradição entretanto solidificara-se e refinara-se. Hoje era impensável correr-se uma Tona sem que o dirigível presidencial lá estivesse, sobrevoando a corrida como uma águia sobrevoa o ninho.

Todos os anos de Tona, portanto, o dirigível descolava do balonporto do palácio carregado com presidente, comitiva e funcionários, flutuava de um lado para o outro durante as duas horas e meia que durava a corrida e ia aterrar, assim que a competição terminava, no relvado em frente do palácio, a fim de se proclamar o vencedor da corrida e dar início às cerimónias de transferência de poder para o novo Presidente, se fosse caso disso, ou de recondução do Presidente cessante na Presidência, se fosse essa a decisão da Tona. E não servia para mais nada. No resto do tempo, o dirigível limitava-se a ficar arrumado, desinflado e tristonho, no hangar do palácio, excepto dois ou três dias por ano, quando era trazido para fora para verificações, manutenção e treinos da equipagem.

Não servia oficialmente para mais nada. Pois não era raro que aqueles que tinham acesso ao hangar (funcionários do palácio, técnicos de manutenção, agentes de segurança, membros do governo, etc. e mais etc.) se escapassem até ao interior cristalino da barquinha, arrastando pelas mãos, ombros ou cintura uma companhia qualquer, tão íntima como sigilosa, para dar largas àquelas coisinhas que escolhem dia, hora, local e companhia. Uma das partes mais demoradas da preparação do dirigível para cada uma das Tonas era a limpeza. As coisas que foram aparecendo ao longo dos anos dentro daquela barquinha dariam para abrir e deixar bem recheado um museu dos pequenos objectos do quotidiano, com uma ala inteira dedicada às perversões humanas.

A vida do dirigível era monótona. Mas só se não contássemos com a sua vida secreta.

O mesmo não se podia dizer do cerimonial que rodeava a tomada de posse do novo presidente, quer fosse mesmo novo, quer fosse o antigo que assumia um novo mandato. Não vale a pena entrar em grandes detalhes: basta que se saiba que, embora a cerimónia principal decorresse imediatamente a seguir à corrida propriamente dita, havia cerimónias e rituais ao longo dos três meses seguintes à Tona. Era uma época muito atarefada para todos os funcionários do país. Quanto aos restantes cidadãos, à excepção daquela pequena franja de fanáticos da pompa e circunstância que sempre forraram os passeios com um mar de bocas abertas e olhos vidrados duma admiração vagamente patética sempre que pelas ruas desfilavam líderes, encaravam todo aquele cerimonial com uma indiferença fleumática, perdida que estava a novidade dos primeiros anos. Mas a Tona propriamente dita mantinha toda a sua magia inicial, se não a tivesse mesmo aumentado com o passar do tempo. No dia da Tona tudo era diferente dos outros dias.

O dirigível, embora andasse de um lado para o outro em perseguição dos concorrentes que seguiam à cabeça da corrida, ficava ligado ao palácio, para o que fosse necessário, por um conjunto de cordas cheias de nós. E o que era necessário era, salvo alguma situação excepcional, o mais variado conjunto de necessidades e caprichos presidenciais, que servidores e funcionários se apressavam a satisfazer, subindo e descendo as cordas com as suas mochilas às costas, num frenesim que só terminava quando a corrida se aproximava do fim. Nessa altura os Presidentes já costumavam estar demasiado absorvidos na competição para ter caprichos, berrando através do sistema sonoro do dirigível ensurdecedores slogans de incentivo aos seus atletas, e soltando os impropérios e insultos mais imaginativos (ou menos imaginativos, dependendo das qualidades retóricas do presidente em causa) contra os adversários. Ficou célebre a frase que João Paulo Terço, o quadragésimo quinto Presidente, berrou para a comitiva e quem mais o conseguisse ouvir (o que foi quase toda a população daquela parte da cidade), quando viu que, graças ao sprint final do chefe de equipa daquele que iria tornar-se o quadragésimo sexto Presidente, Ludovico Terrasseca, e graças a uma queda do mais forte dos seus próprios corredores, iria perder a corrida e a Presidência:

— Isto é pueril, vocês são todos pueris, a puerilidade abate-se sobre o mundo, que também é pueril!

Como ninguém ali sabia muito bem o que significava a palavra "pueril", resgatada a custo de um velho dicionário, horas antes da corrida, por um dos assessores do Presidente, a fim de que aquele a utilizasse se tivesse oportunidade, esta frase transformou-se no discurso oficial de derrota. Era considerado muito digno terminar o mandato com essas palavras. Dizia-se que quem o fazia “dava mostras de um elevado espírito democrático e capacidades de liderança fora do comum”.

Mudam-se os tempos, mudam-se as palavras...

E nem sequer importava que Terço tivesse passado os dois anos seguintes a tentar provar que o seu campeão tinha sido rasteirado e empurrado, recolhendo depoimentos, contratando pareceres às IAs, procurando nas imagens da corrida sinais de falsificação, chagando a cabeça a toda a gente, sendo um chato de primeira. A "Frase Pueril", como ficou conhecida, assim mesmo, com maiúsculas, entrou no léxico político, primeiro da nação e mais tarde do mundo inteiro, e sobreviveu ao seu autor, que viria a falecer tragicamente dois anos depois de ter perdido a Presidência num acidente de balão que nunca chegou a ficar totalmente esclarecido.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

6.

QUANDO O ESTAFETA REGRESSOU à sala de recepções do Palácio presidencial, já lá não estava ninguém. Enquanto se desenrolara a conversa com Serra, no laboratório, o Presidente e a sua comitiva haviam tentado explicar ao extraterrestre, não sem grande esforço, exasperação e gestos exagerados, que era necessário deslocarem-se para outro local. Depois de longos minutos desperdiçados em tentativas baldadas, em que, um após outro, os dignitários presentes deslocavam as articulações em gestos cada vez mais grotescos e absurdos, bastou que desistissem, encolhessem os ombros e saíssem todos da sala, deixando o alienígena sozinho, para que este, após mover alternadamente os braços superiores, centrais e inferiores, parecesse enfim compreender o que se lhe queria transmitir. E mesmo que não tivesse entendido coisíssima nenhuma, o certo é que o efeito final foi o mesmo, visto que o hoog resolveu sair da sala também ele, seguindo o exemplo dos humanos, e perseguindo as suas vozes sussurradas com o ruído repugnante que fazia ao soltar do chão as ventosas que lhe cobriam as extremidades inferiores.

O estafeta não sabia de nada disto, bem entendido. Ao mesmo tempo que estes acontecimentos tinham lugar, estava ele a tremer como varas verdes, no laboratório, sujeito à fúria do chefe de protocolo. Por isso, ao chegar e deparar com a sala vazia, a primeira reacção que teve foi encostar-se à soleira, lançar as mãos à cabeça e gemer um “Oh! Não!” aterrado. Tão aparvalhado ficou que nem se lembrou da Corrida da Tona.

A segunda reacção que teve foi pesar os prós e os contras de esperar que alguém aparecesse ou, pelo contrário, ir em busca do presidente e comitiva através dos salões e corredores do gigantesco palácio, correndo um risco considerável de perdê-los e perder-se, o que já não era a primeira vez que lhe acontecia e que, segundo as assustadoras histórias que contavam os seus colegas mais velhos, era até bastante comum entre os estafetas recém-chegados ao serviço. Eram precisos anos de experiência para conhecer o território. Nele não existiam placas de informação ou mapas com circulozinhos concêntricos a dizer “você está aqui”.

A terceira reacção que teve foi ficar sem reacção, com o cérebro em curto-circuito, incapaz de tomar uma decisão.

Assim, quando o Chefe de Protocolo chegou à sala esbaforido, quinze minutos mais tarde, o estafeta ainda ruminava, imóvel, à porta da sala vazia, murmurando baixinho para si próprio. Serra trazia na mão o tradutor automático, o mais imponderavelmente que lhe era possível, porque o aparelho entretanto começara a segregar uma espécie de muco, ou baba, ou ranho, enchendo dessa substância as mãos do seu carregador, e fazendo-a transbordar destas para a bata, calças e sapatos, pintalgando todo o chefe de protocolo, anteriormente imaculado na sua bata branca, de pinceladas coloridas.

Serra não fazia a mais pequena ideia do que poderia estar a causar aquela secreção. Talvez fosse causada pelos solavancos, especulava, talvez tivesse mais a ver com o Canto Terceiro, ou até talvez fosse um processo fisiomecânico natural. Mas fosse o que fosse, não contribuía em nada para o deixar de bom humor. Bem pelo contrário. E assim, logo que pôs os olhos no estafeta atirou-lhe uma catadupa de perguntas irritadas:

— Que se passa? Que estás tu a fazer aí especado? Onde está toda a gente? Que fizeram ao ET?

O estafeta estremeceu, empalidecendo de susto. A expressão que lhe subiu ao rosto mostrava-o prestes a desmaiar ou a desatar a fugir para qualquer lado. Mas lá conseguiu encontrar recursos para responder, num murmúrio humilde:

— Nã... Não sei, s-senhor. Quando cá cheguei já cá não... não estava ninguém, e... depois... por isso... — a voz sumiu-se-lhe num murmúrio indistinto, perante o olhar selvagem do outro.

— O quê? Por isso o quê? Desembucha! — berrou Serra.

— Resolvi ficar à sua espera... isso... resolvi... — gritou o estafeta, assustadíssimo, esmagando-se de encontro à parede, respirando com força.

O chefe de protocolo olhou-o nos olhos, fazendo-o desviar os seus para o chão. O estafeta balbuciava sons sem nexo, rebuscando furiosamente o cérebro à procura de uma saída para uma situação que se lhe afigurava cada vez mais desesperada, capaz de o conduzir ao desemprego imediato, com carta de rejeição, ou coisa ainda pior. Por fim, fez-se luz no interior da sua pobre cabeça inundada de adrenalina e ele quase gritou:

— Tal... talvez tenham já ido para o dirigível?...

— Não pode ser! — exclamou o chefe de protocolo. Mas, apesar da negativa, arrancou a correr para o elevador mais próximo.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

5.

SERRA ERA O NOME por que era conhecido o Chefe de Protocolo. E, no momento em que o Presidente deu a sua ordem esganiçada, o Serra, objecto dessa ordem, encontrava-se no laboratório, num afã, lutando freneticamente contra a resistência do tradutor automático em ser recalibrado. Minutos mais tarde, quando o estafeta portador da ordem presidencial entrou esbaforido na sala, o Serra recitava o Canto Terceiro dos Lusíadas (Com Tingitânia entesta; e ali parece / que quer fechar o mar Mediterrano) para o filamento que servia ao tradutor de microfone, ou de bocal, e que se erguia de uma zona descolorida da coisa de aspecto orgânico e sem uma forma de que se pudesse dizer “Olha, parece-se com tal coisa”, ou “Tem assim a forma disto e tal”, que era a máquina propriamente dita. Esta, para variar, parecia satisfeita, traduzindo a velhíssima obra do poeta português há muito morto para um conjunto incompreensível de estalidos em ultrassom, cuja modulação era atentamente seguida por um batalhão de quinze técnicos e respectivos ecrãs e demais aparelhagem, toda ela reluzente de nova, toda ela retorcendo-se em volutas e espirais, como exigia a moda mais recente do design high-tech, inspirada em ilustrações antiquíssimas, a preto e branco ou em desfocados padrões de três cores, dos primórdios da Era das Revistas de Papel. Os técnicos é que não se mostravam lá muito satisfeitos, porque, tanto quanto eles eram capazes de entender os padrões linguísticos dos hoog, a tradução até podia estar a acontecer com grande suavidade, mas estava quase toda errada.

O estafeta parou à porta, respirando pesadamente, sem fôlego, e tentou pigarrear para chamar a atenção do Chefe de Protocolo Serra (Com nações diferentes se engrandece), mas sem resultado. Depois tentou a tosse (Todas de tal nobreza e tal valor), velho maneirismo de discrição que, embora fosse quase tão velho como as regras da boa educação, obteve resultado idêntico. Finalmente (Já foram, contra a gente Mahometa), dado o falhanço das tácticas indirectas, tentou o ataque directo sob a forma de um murmúrio:

— Senhor Serra...

— Raios te partam, criatura! Não vês que estou ocupado? Não vês que estou a meio duma operação delicada? Porra! — explodiu o Serra, esquecendo-se por completo de que o bocal do tradutor automático se encontrava ligado e atento mesmo em frente da sua fúria. O tradutor, a meio do processo de recalibração, totalmente ignorante quanto à pertença ou não daquelas palavras à velha epopeia decassilábica lusitana, pegou nelas e traduziu-as, integrando-as o mais harmoniosamente que lhe foi possível na versão em hoog d'Os Lusíadas, canto terceiro. Os técnicos, assustados pelo grito, com a atenção desviada dos seus monitores pela iminência de violência física que as palavras exaltadas deixavam entrever, nada notaram de invulgar.

— P-p-perdão, s-senhor — tartamudeou o estafeta, assustadíssimo — mas... mas Sua Excelência chama por... por... por Vossa Excelência.

— Arre! Que espere! — berrou o chefe de protocolo. Mas, depois de uma pausa em que só se ouviu na sala o som da sua respiração acelerada, achou por bem corrigir: — Não. Diz-lhe que vou já. Daqui a cinco minutos.

Afinal de contas, o “ele” ali implícito era o homem mais poderoso do mundo. Convinha ter algum cuidado...

Serra virou-se de imediato para o tradutor automático (que continuava a traduzir tudo, fazendo os possíveis por que esta conversa fizesse sentido como sequência para "tem o Galego cauto e grande e raro / Castelhano, a quem"), suspirou, e recomeçou a recitar o canto terceiro, em voz tensa:

— Portanto... "fez o seu Planeta / restituidor de Espanha e senhor dela; / Bétis, Leão, Granada, com Castela"...

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

4.

AGORA JÁ PERCEBERAM o "bolas", não é verdade? O Presidente já não era o Arbusto, nem mesmo um Arbusto, mas não podia estar ausente da Corrida. Nunca! Nem por sombras! E muito menos por causa duma coisa tão insignificante como o Primeiro Contacto, conversas com ETs que não contribuíam para arranjar melhores atletas para a Tona seguinte, ou pelo menos não directamente, e nem adiantavam nem atrasavam relativamente a esta, que estava prestes a começar. Sim, porque ninguém acredita mesmo em ETs armados de milagrosas armas de raios que são capazes de concretizar num instante o mais insignificante ou o mais grandioso dos desejos, pois não?

Pois.

Estar ausente era pedir para perder a reeleição. Como poderiam correr bem os seus campeões sem o estímulo constante que lhes era transmitido através dos amplificadores? Como seria possível, sem os slogans presidenciais de apoio à equipa, espalhados por toda aquela zona da cidade em ondas de trovejante palavreado, contrariar os gritos de incentivo que a populaça entregava aos adversários? Sim, porque a populaça, essa ralé, essa cambada de ingratos, torcia sempre por quem não estava no poder!...

Sempre!...

Que podia ele fazer? Haveria alguma dúvida?

— Senhor Embaixador — decidiu-se, enfim, o Presidente —, se não estiver muito fatigado, atrever-me-ia a convidá-lo a assistir à mais importante tradição do nosso planeta a qual, por incomparável coincidência, está mesmo quase a começar.

Os humanos presentes na sala entreolharam-se e ouviu-se um bruáá de conversas abafadas enquanto o tradutor automático estalava e zumbia em ultrassons. Algures, lá fora, um cão ganiu.

Depois disso, foi o embaixador quem estalou e zumbiu em ultrassons durante um tempo considerável, numa linguagem inaudível para os terrestres, mas que os seus aparelhos traduziam visualmente em bonitos mas totalmente incompreensíveis esquemas coloridos, cheios de inflexões e ritmos subtis.

Quando o extraterrestre se calou, o tradutor automático chamou a si as luzes da ribalta:

Rzfarrtum. Iá, meu. Bora! — disse.

O burburinho aumentou na sala, e vários dos presentes mudaram de cor, tentando conter o inconveniente riso que os tomava de assalto, escondendo os olhos dos de quem os rodeava, com medo de perder o controlo se por acaso nalgum desses olhos alheios encontrassem idêntica hilaridade. Houve quem pigarreasse, houve quem olhasse para as rachas do tecto (inexistentes), houve quem verificasse o aprumo dos sapatos formais de ténis, houve quem franzisse o sobrolho devido a falhas micrométricas descortinadas no verniz das unhas, e houve mesmo quem não se contivesse, quem não resistisse, quem se descaísse. As duas ou três gargalhadinhas abafadas que se chegaram a ouvir foram, no entanto, suprimidas de imediato com a ingestão de um desumorizador sacado à pressa e à socapa de bolsos secretos embutidos no cós elástico dos calções. E assim se manteve a dignidade da ocasião.

O Chefe de Protocolo, esse, talvez tivesse ingerido o desumorizador em casa, antes da cerimónia. Ou talvez não precisasse, talvez fosse naturalmente desprovido do sentido do ridículo. O certo é que se manteve impassível e limitou-se a esclarecer em voz átona:

— Mil perdões, Senhor Presidente. Obviamente, o aparelho está a necessitar de ser recalibrado. É só um momento. — Virou-se para a coisa de ar orgânico e disse com voz clara e pausada: — Vossa Excelência, Agtar do Ninho de Madeira Verde e Mastigada, perdoar-me-á, mas sou obrigado a levar o tradutor para calibração. É só um momento.

Depois de ouvir a tradução, o extraterrestre limitou-se a sacudir os braços superiores, num movimento rápido. O Chefe de Protocolo, com uma vénia, calçou um par de luvas grossas e agarrou no aparelho, resmungando para os seus botões enquanto se encaminhava para a porta:

— Espero que aquilo tenha sido um assentimento!...

O Embaixador ficou, pois, sozinho com o Presidente e com os restantes terrestres presentes na sala, sem quaisquer possibilidades de comunicação.

Passaram-se alguns minutos de algum desconforto, aproveitados pelos humanos para sussurrar circunspectamente coisas importantes ao ouvido uns dos outros, e para trocar sorrisos tímidos e acenos de circunstância. Ao Presidente, cada vez mais nervoso, tremia-lhe a perna esquerda, e as mãos não largavam a poupa, ajustando-lhe forma e grau de inclinação em movimentos compulsivos. Sempre que o seu olhar encontrava o pequeno extraterrestre, os lábios arreganhavam-se-lhe num sorriso breve, e a cabeça inclinava-se-lhe num leve aceno, independentemente da sua vontade, como se um e outro órgão estivessem em piloto automático.

E só podiam estar, porque o pensamento, esse, estava muito longe dali.

Nisto, um assessor de cerimónia (nome pomposo atribuído aos moços de recados presidenciais que substituíam as telecomunicações com grande desvantagem na eficiência mas com grande vantagem na capacidade de impressionar) assomou à porta, trocou com o Presidente um par de mensagens não-verbais, e quando este lhe fez um aceno, aproximou-se em passo enérgico e murmurou-lhe ao ouvido:

— Vai começar, Senhor Presidente.

Sem pensar, o grande líder arrancou na direcção da porta que o levaria ao dirigível que, segundo a tradição, servia de tribuna presidencial para a Corrida da Tona. Ao chegar à soleira, no entanto, caiu em si, hesitou, olhou para o extraterrestre, soltou um suspiro fraco mas audível naquela sala em que caíra um silêncio quase completo, fez um movimento hesitante, que pretendia ser um sinal para que o embaixador o acompanhasse, mas que nem foi compreendido pelo hoog nem por nenhum dos seres humanos ali presentes, voltou a hesitar e, por fim, já visivelmente irritado, perguntou em voz alta:

— Alguém sabe como se diz a esta coisa para vir connosco?

Ninguém disse nada. Mas mais desumorizadores foram sacados à pressa.

Chamem-me o Serra!

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

3.

NA ALTURA TODA A GENTE se riu, incluindo o próprio Cisco Sadio. Houve gargalhadas no estúdio, houve gargalhadas nos estados-maiores das candidaturas, houve gargalhadas em quase todas as casas que tinham a Interactiva ligada naquele momento, e houve gargalhadas mais tarde em muitas outras casas espalhadas pelo mundo, à medida que aquela sugestão absurda (daí as gargalhadas) ia sendo repetidamente retransmitida por quase todos os media de alguma relevância a nível global. Sadio transformou-se numa figura reconhecida por todos, o que lhe trouxe compensações e dissabores em partes iguais. Por um lado, enriqueceu. Por outro, deixou de poder sair à rua sem deixar atrás de si um rasto de sorrisinhos e gargalhadinhas abafadas, quando não era alvo de chacota directa e honesta.

Arbusto, no entanto, não se riu. Não só porque no dia seguinte toda a gente falava da ideia de Sadio e não do seu discurso de vitória, cuidadosamente preparado pelo seu staff ao longo de duas semanas e sistematicamente sabotado por ele próprio, com os seus sucessivos e habituais enganos, falhas de pronúncia e improvisações desastradas, como também porque, dizem as más línguas, não percebeu a piada e, pelo contrário, achou a ideia genial.

Seja isto verdade ou não, o que é certo é que quatro anos mais tarde o país assistia à primeira Corrida da Tona, corrida no mesmo dia das eleições, e transmitida no canal TodoSpor, da interactiva, e também, pela primeira vez com imersão completa, na virtual. Arbusto ganhou ambas as competições. Na Tona venceu por larga margem, visto os seus adversários terem investido pouco na corrida — afinal de contas, era a primeira vez —; nas urnas, pelo contrário, e apesar de uma abstenção recorde de 93,4%, venceu à tangente, o que o terá convencido em definitivo das vantagens do método da Tona sobre o eleitoral. Nas eleições seguintes, quatro anos depois, já não houve eleições propriamente ditas — só Tona.

Dessa vez, Arbusto não esteve presente. Tinha resolvido montar no palácio um sistema sofisticado de televisionamento da corrida e organizou uma recepção a todo o corpo diplomático para mostrar ao mundo, ali, em directo mas não ao vivo, o triunfo que previa tão estrondoso como na corrida anterior.

Mas daquela vez os adversários tinham-se preparado, e Arbusto foi derrotado, o que lhe causou um dos maiores ataques de fúria de toda a vida, transmitido em directo para o mundo inteiro.

Foi um sucesso. As audiências dispararam até níveis nunca vistos anteriormente.

E por isso, sob pressão dos media locais e globais, no resto do planeta outros países começaram a implantar sistemas semelhantes até que, com a Unificação (também conhecida como o Grande Golpe do Cartel Vegetal, ou GGCV), o sistema se tornou global. Bastaram meses para que, entre muitas outras mudanças menores, se tornasse obrigatória a tradução dos nomes para a língua franca mundial (uma espécie de inglês simplificado e cheio de palavras importadas), se adoptasse uma moeda única, o doleuro, se proibisse o ateísmo e se proclamasse a incontestável veracidade de todas as religiões reconhecidas pelo Estado, ainda que este fosse separado daquelas, e se decretasse que o palácio do Governo Central e arredores passariam definitivamente a servir de palco às Tonas, sempre com os presidentes presentes a fim de torcer pelos seus atletas.

Tinha sido atingida a Utopia.

Ou a Distopia, vá-se lá saber...

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

2.

— MARIA! LARGA ISSO! Anda ver, que tá quase a começar!

Lá fora, o ruído do trânsito era ensurdecedor. Veículos de todos os tamanhos, cores e cheiros cruzavam-se nos corredores caóticos da cidade, enchendo o ar de buzinas e do ruído de motores. Sacolejantes díeseis raspavam por velhos gasolinas, repletos da dignidade fragilizada da aristocracia decadente, e estes competiam com gases naturais, mais modernos mas mais pachorrentos. Motores engasgavam-se, exalando fumos e cheiros oleosos que entravam pela janela aberta, trazendo consigo o bafo escaldante da canícula. A era do petróleo chegava ao fim, mas a avaliar pelo nariz ninguém diria

— Já vou, Alfredo, já vou. Tenho de ligar a máquina de lavar. — gritava Maria da cozinha, a voz abafada pelas curvas e contracurvas do corredor.

— Zé, tu vens? — insistia o homem da casa, agora gritando na direcção oposta, para o quarto do filho. Nenhuma resposta. Outra tentativa: — Zé, tu tás-me a ouvir, ou tás outra vez metido nessa merda da virtual?

Nada. Nem um pio, que de qualquer forma teria sido abafado pelo rugido do voo intercontinental da semana, que aterrava naquele momento, queimando naqueles poucos segundos finais de voo tanta querosene quanta a que todo o orçamento anual daquela família teria podido comprar.

Alfredo levantava-se, resmungando, levando a mão à pontada habitual no fundo das costas, e entrava no quarto do puto sem pedir licença. Pegava no microfone esquecido ao lado do portátil, ligava o botão e gritava (não havia necessidade, até assustava o filho lá na virtual, mas nunca resistia à tentação de gritar):

— Zé, tá a começar. Vens ou não vens?

Zé saltava na cama, enrodilhando-se nos fios, e dessubmergia num rompante, berrando, por sua vez:

— Porra, velho! Raio de susto! Já vou! Caraças! Chatice! Sempre a mesma merda! Porra! Caraças! — e por aí fora, um rio de palavras sincopadas pelas setas verticais dos pontos de exclamação e pelas batidas aceleradas do seu coração assustado.

Alfredo regressava à sala, com um sorrisinho a saltitar entre o lábio superior e o inferior (um sorrisinho de cabrão, pensava o filho sempre que o entrevia), e voltava a instalar-se no sofá, na frente da TV interactiva, reapoderando-se do comando e recomeçando a praticar o seu desporto favorito: telezapping.

Passados cinco minutos, chegava Zé, esfregando as olheiras e coçando a nuca despenteada, e perguntava, ainda com a irritação a mostrar-se na rouquidão da voz: — Atão? Não tinha já começado?

— Tá nos anúncios — respondia o pai, enquanto fixava a imagem por uns 20 segundos numa tórrida cena de sexo explícito que teria enchido a casa de gemidos se o som não estivesse desligado, sobrepondo-se, pelo menos em interesse, ao contínuo ruído de fundo do trânsito. O pai lembrava-se então de que tinha ali ao lado o seu rebento mais novo, ainda adolescente, ainda sujeito às suas responsabilidades educativas, e mudava rapidamente de canal e de assunto: — Sabes da tua irmã?

— Ná. Anda por aí — respondia Zé, irritação subitamente desvanecida. — Mas mete lá isso onde estava, que eu queria ver uma coisa prá...

— Rapazinho engraçadinho — interrompia Alfredo, rosnando um bocadinho, deitando um olhar de esguelha ao filho. — Senta-te aí sossegado, que tá mesmo quase. Maria!

A mulher não lhe dava resposta, mas ouvia-se de repente o ruído de um aparelho eléctrico e decrépito que estrondeava na cozinha, calando-se de seguida, voltando a tossir uma, duas vezes, e finalmente começando a trabalhar de forma contínua, ainda que pouco firme, ao mesmo tempo que se ouvia o habitual guincho — Ai! — que Maria dava sempre que se endireitava, por causa da espandelose que os comprimidos que o médico lhe receitara, Ossex, curariam em dois ou três meses, mas que ela se recusava a tomar, vá-se lá saber porquê.

Reunia-se então, e por fim, a família quase completa em frente ao visor, mesmo a tempo de assistir ao início do programa. Abria este numa cacofonia que se pretendia impressionante, em som estéreo surround 3D, e com o ecrã desmultiplicado em miríades de imagens de rostos, que surgiam e se esfumavam tão rapidamente que quase não era possível reconhecer quem quer que fosse.

Quase.

Mas mesmo que fosse de todo impossível esse reconhecimento, mesmo que as imagens se confundissem por completo na nuvem desfocada em que ameaçavam transformar-se, todos os presentes conheciam na perfeição os rostos dos candidatos a presidente, a vice-presidente e a membros do governo, com pasta ou sem ela. Jorge Arbusto d’Oliveira e os outros. As imagens deles estavam por todo o lado, e nenhum perdia uma oportunidade de aparecer, por ínfima que fosse. Eram aparições nos noticiários, sorrisos de pasta dentífrica a relampejar em direcção aos olhos desprevenidos de quem calhasse olhar, eram os tempos de antena não anunciados que interrompiam a telenovela e o futebol, penteados milimetricamente domados a lançar mensagens subliminares de competência e ordem, eram anúncios ao produto X ou Y, protagonizados por um ou outro (ou até vários) dos candidatos, vozes artificialmente melhoradas a ressoar em frequências sedutoras para os membros de um ou de outro sexo, eram as imagens de arquivo do último escândalo sexual ou financeiro, e os candidatos mostravam que apesar de tudo eram humanos como você aí em casa, etc., etc., etc. Os políticos eram omnipresentes e quase pareciam ser também omnipotentes na interactiva. E até começavam já a dar os primeiros passos também na virtual.

— Ó velho, — perguntava Zé com voz ensonada — tu não tinhas dito que desta vez ias votar?

Alfredo encolhia os ombros, e observava a actividade de Maria, que ajeitava meticulosamente o vestido de tecido sintético e elástico que lhe envolvia o corpo, fazendo sobressair cada uma das pregas de gordura em que se ia derretendo com a idade, mas que, segundo ela dizia, era não só muito confortável como, e acima de tudo, altamente. E quando Maria dizia que uma coisa era altamente, não valia a pena tentar contradizê-la porque ela nunca se deixava convencer, por mais racionais que fossem os argumentos.

Argumentos?

Racionais?

Que é isso?

— Pois disse, mas não fui. Nem eu nem a tua mãe. E depois? Seja como for não serve de nada... — resmungava Alfredo, sentindo-se vagamente culpado apesar do que dissera, pois pura e simplesmente se esquecera por completo de carregar no botão do telecomando que o levaria ao Elections Channel, onde 16 movimentos do indicador seriam suficientes para cumprir o velho e desacreditado dever cívico.

— OK, OK — dizia o filho, levantando os braços com indolência. — Perguntar não ofende! Chiça!

— Deixa o teu pai, Zé — ordenava a mãe, na sua primeira e última intervenção na conversa. — Ele tem mais em que pensar.

Zé olhava para a mãe pelo canto do olho, encolhia os ombros, suspirava e não dizia nada.

Entretanto, terminava o genérico e o rosto bronzeado de um dos clones precocemente envelhecidos do José Alberto Carvalho (que na realidade não passavam de simulações por computador colocadas por cima da imagem de um sósia — mas isso era um segredo muito bem guardado e, apesar dos boatos, quase todos acreditavam tratar-se do produto genuíno), apresentador de televisão morto um par de décadas antes, célebre no país e arredores culturais, começava a anunciar, com um entusiasmo gritante incaracterístico na sua voz grave, os últimos dados daquela tarde eleitoral:

— Encerradas as votações, — esganiçava-se o Zé Alberto artificial, — os resultados estão agora disponíveis para consulta na virtual, Elections Channel 3D, mediante pagamento da módica quantia de 99 euros e 45 cêntimos, e ser-vos-ão dados por nós, aqui, em rigoroso exclusivo da interactiva gratuita, logo a seguir a um breve intervalo. Não saia do seu lugar.

O intervalo, como é evidente, era tudo menos breve. Alfredo, dono e senhor do telecomando, navegava pelos menus de opções da publicidade interactiva sem se preocupar minimamente com a opinião ou a vontade do resto da família. Acabou por encomendar uma blusa às flores para oferecer à mulher, perante a indiferença desta, e um conjunto de almofadas para espalhar pelo sofá, que as que lá tinha começavam, achava ele, a ficar gastas e a gerar grumos que lhe iam afligir as costas. Tudo do mais baratucho, que a vida não estava para brincadeiras. O puto ainda insistia com o pai para que este lhe arranjasse um novo conjunto de programas de intensificação táctil para a sua ultrapassadíssima aparelhagem virtual, mas sem grande insistência ou esperança, visto que conhecia bem a atitude do velho perante essas coisas.

Ainda havia intervalo quando um apito saía da porta, e a irmã mais velha de Zé, Sara, entrava em casa, trazendo consigo uma nuvem de perfume barato e de cheiro e ruídos de escada.

— Então? Já começou? — perguntava, enquanto toda ela tilintava graças aos bocadinhos de metal multicolorido que lhe cobriam os dedos, os pulsos e o pescoço e lhe pendiam das orelhas e do nariz.

— Tá quase — resmungava o pai. — Por onde andaste?

— Oh, por aí — respondia Sara, sem se dar conta da banalidade da situação e da conversa. E mesmo se tivesse perspicácia e conhecimentos para reparar nesse detalhe, dificilmente se importaria. Não era mulher para se prender em pensamentos mais profundos que as pequenas nuances sociais do seu dia-a-dia e do seu círculo de conhecimentos pessoais. Nem valia a pena perguntar-lhe se tinha votado. A resposta era clara e evidente, e se o caro leitor não sabe qual é, feche o livro e comece a passear com mais frequência.

— Volto já. Vou à casa de banho. — anunciava em seguida, dando uma meia-volta tilintante e desaparecendo corredor fora.

Alfredo ainda abanava a cabeça num gesto de reprovação resignada, quando voltava a surgir no ecrã da interactiva a cara bronzeada e sorridente do pivot, José Alberto Carvalho.

— Bem vindo ao nosso canal! Espero, em nome da equipa que leva até si este especial eleições, que as compras tenham sido a seu gosto. Tudo produtos da maior qualidade, certificados pela Associação Nacional de Televendas, em rigoroso exclusivo para si, o nosso espectador preferido. Mas não vamos perder mais tempo e seguimos já de seguida para o nosso centro de análise, onde os comentadores residentes do Jornal do Mundo se preparam para analisar os resultados das eleições que terminaram há minutos. Boa noite, meus senhores. Contrariamente ao que era indicado por metade das sondagens, foi Jorge Arbusto d’Oliveira o vencedor destas eleições e, portanto, será Arbusto d’Oliveira o presidente do país durante o próximo mandato. Aproveito para dizer que a intervenção do presidente eleito está marcada para dentro de dez minutos na sede de campanha, onde já se começam a juntar os principais apoiantes. Dr. Rogério Nunes, que nos pode dizer da vitória de Arbusto d’Oliveira? Foi surpresa?

— Bem, — respondia o interpelado, afastando a poupa dos olhos — foi e não foi. Já se sabia que, obviamente, Arbusto tinha boas possibilidades de vencer, dadas as suas ligações aos mercados e vistos os fundos dispendidos na sua campanha. Mas realmente a magnitude da vitória foi algo surpreendente. Não é sempre que, nomeadamente, o candidato da direita clássica alcança uma vitória à primeira volta por números tão expressivos, e...

— Este gajo é uma autêntica matraca — comentava Zé, enfiando o dedo médio da mão direita na narina esquerda — que seca!

— Cala-te, puto. Deixa ouvir.

Zé encolhia os ombros, olhando com alguma inveja o comando que descansava na mão do pai. Entretanto, indiferente ao que se passava naquele e em milhões de lares semelhantes país fora, Rogério Nunes prosseguia:

— ... não é possível neste momento prever como irá decorrer, efectivamente, o mandato de Arbusto. Mas uma coisa é certa: algo irá mudar...

— Aproveito essa deixa, Dr. Nunes — e já voltamos a si daqui a bocadinho — para apresentar aos nossos espectadores (e não se esqueça, você aí em casa, de que tem acesso à mais variada gama de produtos no canal 18 da Interactiva. Basta digitar o código que aparece no canto inferior direito do seu ecrã e obterá magníficos descontos junto dos nossos patrocinadores), como dizia: para apresentar aos nossos espectadores o nosso outro convidado. Dr. Cisco Sadio, que nos pode dizer do resultado destas eleições?

— É evidente que é um resultado manipulado num acto eleitoral profundamente antidemocrático, em que, e tal como disse o Dr. Rogério Nunes, quem elegeu de facto o presidente foi o poder económico de uns quantos...

— Desculpe, mas eu não disse nada disso! — interrompia Nunes — O que eu disse foi que...

— Se não me interrompesse — contra-interrompia Sadio, conseguindo sobrepor a sua voz sussurrada à voz potente do outro comentador, fenómeno que deixava sempre perplexos os espectadores e que em muito contribuía para aumentar a sua popularidade — talvez conseguisse compreender o que eu quero dizer.

— Já começam — resmungava, por seu turno, Alfredo, e Zé confirmava:

— Iá. É sempre a mesma merda. Ninguém consegue dizer nada até ao fim. Pai, põe aí isso no...

— Chiu! — ordenava Alfredo, fazendo com que o permanente sorriso de Maria esmorecesse um pouco. Não gostava nada de discussões na família.

— ...mente não podemos consentir que continue esta pouca-vergonha que é termos eleições que não interessam a ninguém… e o desinteresse é activamente incentivado por todos os... desculpe... eu não o interrompi, portanto se fizer favor... desculpe... ó doutor Nunes, toda a gente sabe de onde veio o dinheiro para a campanha de Arbusto, quem lhe pagou os talk-shows na Interactiva, para quem ele gravou anúncios, quem lhe escreve os gags que põem milhões de cidadãos a rir-se do que ele diz (sem prejuízo do talento natural que tem, e que eu sou o primeiro a reconhecer, para dizer disparates genuínos e originais), enfim, quem lhe oleia a máquina! Toda a gente já percebeu tudo isto, e daí boa parte do desinteresse popular pelas eleições... deixe-me só concluir, Zé Alberto Carvalho... toda a gente já percebeu que não serve de nada votar quando o voto está condicionado ao poderio financeiro dos candidatos. Desculpe... ó Dr. Nunes... Dr. Nunes... desculpe... deixe-me concluir o meu raciocínio... diga-me... Dr. Nunes, diga-me só se se admitem taxas de abstenção de 87%? Oitenta-e-sete-por-cento?! Em cada dez cidadãos, nove nem sequer se dignaram ligar para o Elections Channel! As audiências do EC foram pavorosas, mesmo durante a transmissão do concerto dos Silêncio! Isto admite-se?...

— Pois... — começava Zé, mas calava-se de imediato ao ver a olhadela perigosa que o pai lhe enviava. Cisco prosseguia:

— Desculpe, e eu sei que estou a falar mais do que devia, mais tarde logo se faz a compensação dos tempos, e prometo que fico calado, mas o que é certo é que o nosso regime chegou a um ponto que só tem um nome: ridículo. A continuar assim, mais vale que o presidente seja escolhido por sorteio, ou por outro método qualquer esquisito. Qualquer coisa é melhor que esta palhaçada. Olhe, ponha-se os candidatos a correr uma maratona e entregue-se o cargo a quem conseguir chegar ao fim, por exemplo! Não há-de ser um método pior, ou mais anti-democrático, que este...