segunda-feira, 10 de novembro de 2008

16.

QUER SERRA ACHASSE, QUER NÃO, o certo é que quando o primeiro corredor da Tona se aprestava para cortar a meta já o presidente se encontrava sentado na sua poltrona, com um sorriso enigmático nos lábios, rodeado dos restantes candidatos e de um ET irrequieto, que falava pelos cotovelos (literalmente — os cotovelos dos braços superiores eram dois dos órgãos de vocalização dos hoog), e que, ajuizando pelos ruídos que saíam do tradutor automático, que continuava a alternar linguagem arcaica com calão de rua, estava divertidíssimo. Não só porque naquele estado alterado o divertimento é o que há de mais normal nos hoog, como também porque as palavras do Presidente tinham sido muito bem acolhidas pelo Embaixador.

Oh, sim, o hoog ouvira muito bem o presidente chamar-lhe monstro (ou “besta assustadora”, na versão do tradutor automático), e essa expressão caíra mal, mesmo depois de atravessar o filtro bonacheirão da hoogabis. Mas a situação fora salva com a pergunta presidencial, mesmo que indignada, acerca de ter sido apodado de “chalado” pela “coisa nojenta”. É que o tradutor, num dos seus raríssimos enganos para melhor, resolvera traduzir a frase do presidente para o equivalente em hoog de “esse chafurdador em muco esmeralda chamou-me intelectualmente defraudado”. Ora, na cultura hoog chafurdar em muco esmeralda era algo só ao alcance dos líderes mais poderosos. E isso transformava aquela expressão insultuosa num rasgado elogio.

Às vezes há momentos de sorte.

Tal como o azar, também a sorte faz parte da vida...

Foi o que bastou para trocar algumas conexões fulcrais na mente até certo ponto infantilizada do extraterrestre e inverter-lhe o estado de espírito. De irritado, ficou eufórico, e pôs-se aos pulinhos de contentamento, fazendo com as ventosas ruídos abafados pela manta, balbuciando qualquer coisa acerca de querer tornar-se irmão de gosma do Presidente, e aproximando-se perigosamente da borda da manta, onde deixava de existir impedimento à sua visão do que se passava por baixo de si e à sua compreensão do lugar onde se encontrava.

O estado de espírito eufórico também ajudou, certamente, na reacção do embaixador ao que viu quando a multidão abriu alas para ele saltitar através dela e compreendeu, pela segunda vez, que se encontrava suspenso a algumas dezenas de metros do chão. Só isso explica que da primeira vez tivesse tido um colapso, ao passo que à segunda se tivesse limitado a estacar na borda da manta, olhando com muita atenção e durante longos e tensos segundos para o que existia e se movia lá em baixo. De seguida olhou em volta, para os humanos que o cercavam e que aparentemente estavam suspensos do ar, sem nada por baixo dos pés, e testou, com grande cuidado, primeiro com os braços inferiores e depois com as ventosas, a consistência do “ar” à sua frente. Quando percebeu que nada ali havia de anormal e aquilo era apenas um material duro e quase perfeitamente transparente, despreocupou-se por completo e desatou a fazer perguntas, que saíam do tradutor automático numa catadupa interrompida apenas, de vez em quando, por aquilo que o tradutor entendia ser um simulacro adequado para uma gargalhada.

Serra só assistiu à parte final deste processo de cura e descoberta, sendo informado do resto por uma Grandelasca à beira de um ataque de nervos, que se queixava em voz aguda de ter sido autenticamente largada e abandonada no fosso dos leões o que, dado o tamanho do hoog, era um manifesto exagero.

Serra substituiu-a na tarefa de responder às perguntas do ET precisamente na altura em que este resolveu começar a deambular por toda a barquinha, seguido por Serra e por toda a comitiva de técnicos e mirones, interpelando de vez em quando os humanos em que esbarrava com perguntas de um absurdo total, fosse por serem absurdas desde a nascente, no cérebro drogado do ET, fosse por se tornarem absurdas no processo de conversão para linguagem humanamente compreensível, no interior das entranhas gosmentas do tradutor automático. Para piorar as coisas, o hoog perguntava mas não ficava à espera de resposta, virando costas ao interpelado logo depois de lhe lançar a interpelação, e seguindo o seu caminho frenético, abandonando todas aquelas pessoas importantes (e cheias até transbordar da consciência da sua importância), de boca aberta e nariz torcido, sem saber bem se deviam sentir-se ofendidas, indignadas ou enojadas.

Foi a muito custo que conseguiram persuadir o ET a sossegar e a juntar-se aos candidatos na parte central da barquinha, a fim de assistir aos últimos metros da corrida. E só o conseguiram graças à intervenção do “irmão de gosma”, que surgira, de novo irritado, a gritar qualquer coisa acerca de precisar do ET imediatamente para dar ao Meneres.

Então, o ET foi, agitando os braços superiores e médios. O tradutor traduzia gargalhadinhas.

A tradição mandava que o último par de quilómetros da corrida fosse passado em amena convivência democrática, com todos os candidatos sentados em semicírculo e o dirigível em voo lento, seguindo a corrida não muito atrás do ou dos comandantes. A convivência até podia ser democrática na maior parte das Tonas, mas era raro que fosse amena. Os derrotados costumavam surgir de mau humor, lamentando-se do dinheiro despendido naquela inutilidade estúpida e lançando sobre os vencedores insinuações venenosas como setas banhadas em curare. Estes, por seu lado, já bem regados a champanhe, respondiam com arrogância e condescendência, disparando ditos de espírito que, tivessem ou não graça, arrancavam estrondosas gargalhadas dos seus partidários, o que geralmente era o mesmo que dizer de toda a barquinha, a menos que a vitória ainda estivesse por decidir nesta fase derradeira da corrida, caso em que as gargalhadas saíam apenas de metade da barquinha, respondendo a outra metade com fungadelas e murmúrios desdenhosos. Aquilo era já uma espécie de cerimonial, reforçado por todas as regras protocolares que rodeavam o final da corrida. Até as posições destinadas aos candidatos, no semicírculo, seguiam um protocolo rigoroso: o presidente sentava-se ao centro e os candidatos melhor colocados para a sucessão (ou para falhá-la por pouco) sentavam-se ao seu lado, destinando-se as cadeiras da periferia àqueles candidatos que nunca haviam tido a mais pequena hipótese. Muitos destes peões da política (quase sempre homens, porque as mulheres pareciam em geral alérgicas a estes jogos de poder, preferindo manobrar na sombra, longe das câmaras e dos projectores) estavam ali apenas porque tinham conseguido reunir equipas de amigos para correr a Tona, e tinham poder económico suficiente para pagar a inscrição, o que muitas vezes significava gastarem nisso as economias de toda uma vida. E tudo apenas para poderem estar no dirigível presidencial, conviver com os grandes da finança e da política, juntar-se por uma vez àquela espécie de realeza de segunda categoria. Os candidatos desta espécie quase nunca falavam: limitavam-se a seguir, embevecidos, com sorrisos idiotas colados em rostos rosados de felicidade (e champanhe), as trocas de galhardetes entre os grandes figurões. Depois voltavam para os seus bairros, cidades e aldeias, e pavoneavam-se, ostentando o colar de candidatura sempre que não ficava demasiado ridículo fazê-lo.

Ou, em certos casos, até mesmo quando ficava demasiado ridículo fazê-lo.

Quanto aos grandes, insultavam-se amistosamente, com os seus sorrisos simpáticos e as suas vozes bem timbradas por centenas de discursos (totalmente inúteis, porque não convenciam ninguém. Mas era tradição) e as suas imagens cuidadas por equipas de especialistas de marketing político, tudo transmitido em directo, através dos media, para vastos milhões de cidadãos, que seguiam com avidez tudo o que se passava, cada inflexão, cada expressão, todos os pormenores possíveis e imaginários daquela ocasião. A Interactiva dava oportunidade de repetir determinadas passagens em câmara lenta, e havia linhas de comunicação abertas para todos os que quisessem deixar a sua opinião ou a sua interpretação dos acontecimentos. Os preços a pagar por esse direito eram elevados mas, mesmo assim, os cidadãos ligavam em massa, geralmente a fim de insultar um ou outro dos candidatos, ou a todos em conjunto.

Ah! A tradição! A reafirmação ritual dos mais profundos valores duma sociedade! Coisa magnífica! Coisa de elevar a alma às alturas!

Mas eis que, em plena tradição, irrompe um extraterrestre baixote, com seis braços e pés armados de ventosas ruidosas, pele gosmenta e voz estridente para ouvidos caninos, acompanhado por um séquito de algo de semelhante a cientistas, descompostos, cobertos da cabeça aos pés por camadas multicoloridas de muco seco e segurando aparelhos completamente despropositados.

Decididamente, a tradição já não era o que tinha sido!...

2 comentários:

  1. Candeias, está muito divertido acompanhar aqui a saga desse ET gosmento e as políticas insanas desse mundo maluco que criou.

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  2. Ainda bem, Fernando, ainda bem... :)

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